Existem corações que carregam dor por toda vida. Por toda não, as vezes alguns deles a abandonam de forma radical. Isto é o que faz tal víscera nos suicidas. Entendo estes últimos. A existência não é pra qualquer um. Para que ela seja minimamente digna, é preciso uma conjunção especialíssima de fatores que estão entre a fisiologia e o destino. Um coração deveras atormentado tem todo direito ao desespero. E sem essa de acusar de fraqueza, pois no fundo este substantivo, juntamente com nossos limites, é uma de nossas poucas grandezas. Cada um sabe a dor de ser o que é. E a delícia? seria o caso do leitor perguntar reclamando o bordão. Talvez não, tendo em vista também que para alguns a angústia é um sentimento inexistente (por mediocridade ou pela loteria de uma estrutura neurológica favorecida, sabe-se lá). Creio que uma vida humana, demasiadamente humana, é aquela que perambula entre os extremos do verso a que fiz menção. Tem momentos, no entanto, que acreditamos (ou temos que acreditar), polianamente, que a beleza da vida está no mamão que comemos nas primeiras horas do dia. Mas, vamos combinar, aí tá foda...
terça-feira, 16 de outubro de 2007
domingo, 14 de outubro de 2007
Amor de muito - notas dominicais XXIII

"a alta tradição mística muçulmana, a dos poetas persas (Hafez, Rûmi, Saadi), colocou o amor acima do mundo. Um amor que não é restritivo, como no Ocidente (onde os apaixonados se dizem sozinhos no mundo), mas, ao contrário, ilimitado. Pois amar alguém é se tornar amor, é amar a todos os outros, até os animais, as árvores, os planetas. É se ver na impossibilidade de não amar."
(Mais um trecho de Fragilidade de Jean-Claude Carrière)
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Verdade ou consequência
(pequeno exercício de prosa e ocasião inspirado num dos tantos diálogos com Minde, a quem poderia dedicá-lo, mas ela merece coisa muito melhor...)
Feriado prolongado de 12 de outubro. Tínhamos ido para o sítio de um amigo que ficava no agreste pernambucano - na verdade, no município de Gravatá. Éramos ao todo sete (e não é conta de mentiroso). Sentíamo-nos, sem a mínima modéstia, como príncipes da capital diante da comunidade local e um orgulho tolo e juvenil enganava nossas mentes.
Na primeira noite, sob o olhar distante de alguns caseiros, brincávamos de “jogo da verdade” regados a garrafas de aguardente. Um dos vasilhames, apressadamente vazio, servia como ponteiro. Ríamos bastante, falávamos alto e nos julgávamos felizes (de verdade).
Na manhã seguinte, eu sequer conseguia lembrar das verdades que tinha inventado. Senti-me nu, completamente despido. As verdades não estavam mais em mim - na verdade, acho que elas nunca estiveram. Apenas cheguei a recordar de um aceno sabiamente indiferente que ganhei, em meio a nossa balbúrdia, de um dos caseiros do sítio. Naquele instante, tal lembrança era tudo o que eu possuía. E, sinceramente, nada mais merecia...
Desdaquele sinal, juro, comecei a ter mais préstimo. De verdade.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Cana, revolta e larica de vida
"Mas também esses pernambucanos são revoltados com tudo!" Eis a frase que ecoou em minhas oiças na saída de mais uma premiere do festival de cinema do Rio. Em primeiro lugar, caberia a pergunta: que pernambucanos? Sabemos que esses rótulos identitários comumente escondem a complexidade que existe nos grupos a que se referem, quaisquer que sejam eles (religiosos, nacionais, estaduais etc.). Ainda no campo da cultura, posso usar como resposta, por exemplo, a constatação de que o teatro/televisão que João Falcão faz nada tem a ver com a música do mundo livre s/a.
No entanto, admitamos as vestes. Por que seriam os pernambucanos tão revoltados? Precisamente, não sei. Muito coentro na infância, talvez diria Cláudio Assis. Tenho comigo algumas razões um tanto intelectuais, confeso, e um pouco mirabolantes. Razões que remetem as possíveis raízes de tal revolta (mesmo acreditando que só conhecemos raiz se for a da mandioca, como certa vez falou o ministro Gilberto Gil). Sobre o fato de serem mirabolantes... podem ser, ma non troppo. Vejamos.
Minhas razões são um tanto marxistas, ou melhor, materialistas. Até que um outro ciclo econômico tome conta do Estado (que Suape traga a bonança além dos tubarões de BV), os pernambucanos serão sempre seres açucarados - metáfora não no sentido figurado relativo a meiguice ou delicadeza (muito pelo contrário!), mas referente ao "ouro branco" mesmo. Desde a perda do domínio comercial açucareiro, que sustentou a nação durante um bom período, Pernambuco se tornou um entrave político para o país. O declínio da oligarquia canavieira e a consequente falta de reconhecimento nacional geraram uma espécie de revolta da elite que, além de dinheiro e território, perdeu seu bem mais precioso, o pestígio. E tome choro então. Choro e revolta. No ambiente da cultura, a intelectualidade local, herdeiros representantes desta elite, montaram seus discursos neste mesmo trilho da perda, do ressentimento (a afirmação regionalista nordestina na primeira metade do século XX - e sua peleja com o modernismo paulista - pode ser sintomática neste sentido).
Mas seriam estes os pernambucanos revoltados da frase colhida na saída da premiere? Creio que não. Aqueles são de outra cepa. São rebentos do ápice da estagnação econômica que levou o Recife ao caos social dos anos 1990, com índices alarmantes de miséria - em 91 chegou a ser considerada a quarta pior cidade do mundo para se viver, segundo uma pesquisa do Population Crisis Committee, órgão credenciado pela ONU. São urbanos, cosmopolitas pobres (salve Silviano Santiago!) e brabos. Uma brabeza que não é o choro de perdedor de outrora (até porque já nasceram perdidos), e sim indignação e inconformismo. Nada dos achaques egolombráticos de boa parte da classe artística dos grandes centros. Nada de pantim. Percebem o mundo para além dos próprios umbigos, traduzindo-o em sua crueza e aberrações. Sabem da enganação da ordem neoliberal. Realizam as coisas com o tutano de quem conhece o lado B da existência. Senhores de novos engenhos*, botam pra moer a cana da inquietação, com sustância e muita, mas muita larica de vida...
*Metáfora de Francisco Reginaldo Sá Menezes (O Carapuceiro)
ps.: Este texto foi escrito após uma sessão de Deserto Feliz, o novo filme de Paulo Caldas. Assistam!(pelos motivos acima)
domingo, 7 de outubro de 2007
Única sobrevivente - notas dominicais XXII
"Charles Swann acorda uma manhã e constata de repente, enquanto se penteia, que não ama mais Odete, aquela mulher por quem ele 'quis morrer'. Ela, que foi para ele o maior de seus amores, na realidade não lhe agrada mais, 'não faz mais o seu gênero'. O mais forte dos sentimentos, o mais decisivo que ele experimentou na vida, acabara de deixá-lo sem prevenir, como um convidado descortês. E no entanto ele continua sendo o mesmo, ele é o Charles Swann. Ao menos acredita nisso.
Tudo o que acreditamos construir de sólido, fora de nós ou em nós, desaba um dia, ou enferruja, ou se corrói. É assim. Só a mudança permanece."
(trecho de Fragilidade de Jean-Claude Carrière)
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
Férias da existência
"Tem dia que de noite é assim". Dou um loop na frase do marinheiro, pluralizo e sampleio à minha angústia e precisão: tem dias que as noites não têm fim.
Como o mote já denuncia, a maré não é das melhores (ou continua na vazante - pra quem acompanha este torto varal de parágrafos). Mas não escreverei sobre meus desvãos, não consigo ser óbvio o bastante para transformar a dor em narrativa, poema ou canção. Traduzo-a em meu próprio consumo e no prazer mais idiota de arrancar a pele como se eu quisesse sair de mim (e que outra coisa almejaria?).
Não, essa prosa-melancolia não sairá daqui. Como já falei, não tenho obviedade suficiente para isso. O que tenho é o inalcançável desejo de tirar férias da existência...
terça-feira, 2 de outubro de 2007
domingo, 30 de setembro de 2007
Decantação - notas dominicais XXI

“Quanto mais perfeito o artista, mais separado, nele, estará o homem que sofre da mente que cria.”
(T. S. Eliot em Tradição e talento individual)
Há controvérsias, Mr. Eliot...
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
69 posts!

Para comemorar a marca, uma crônica escrita por Maitê Proença que foi publicada na revista Época tempos atrás. Boa leitura!
ps.: sobre o texto, este editor também vê semelhança entre o 69 e a culpa cristã do "é dando que se recebe", porém acha que o verbo "ornar" orna com tudo!
"69"
Algumas atividades parecem que nasceram umas para as outras.
Tomar banho e cantar dá uma alegria enorme na gente, comer pizza e falar da vida alheia é quase um ato contínuo, beber cerveja e fumar combina que é uma loucura, assim como jogar futebol e xingar a mãe, sentar no trono e ler, dirigir e ouvir música - todas delícias de uma vida boa!
Por outro lado há coisas que não simplesmente não ornam. A palavra ornar, por si já não orna com nada. Chupar cana e assoviar todo mundo sabe que é desaconselhável, dirigir e falar ao celular a lei não permite, conversar e pular corda é complicado, e assim a coisa vai numa longa lista de práticas incompatíveis. Pois eu queria manifestar meu desapreço por uma posição de funções adversas que, no entanto, é bastante apreciada na atividade sexual - o 69. Você há de concordar que a postura é ingrata, a vista não é das melhores, e que se não houver cautela pode-se sair dali com um pinçamento na cervical. Além do mais, por que a pressa, por que tudo ao mesmo tempo? Parece coisa de culpa católica - é dando que se recebe, dê ao próximo o que deseja para si. Pessoalmente, considero aquela atividade frenética em ambas as pontas totalmente desnecessária, e porque não dizer, ineficiente. Não é possível a criatura executar com primor uma função que requer coordenação, dedicação e técnica, enquanto está tentando relaxar para usufruir o que lhe acomete na outra extremidade. Sim, porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa! E não venha me dizer que tudo corre naturalmente e que é só meter a cara (perdão palavra no sentido figurado) que sai direito.
Não sai!!Pra começar, o negócio exige um estudo rigoroso da anatomia do outro. É imperativo que se saiba o que está onde para se entender o que fazer por ali, e é claro que isso vale para parceiros de todos os sexos, independente da ponta (mesmo que convexa) em que se esteja. Há quem pratique a vida inteira e, não tendo se dado ao trabalho de observar os detalhes da questão uma única vez, passa a vida fazendo o serviço mal feito. Outro fator que não ajuda é a inelutável proximidade com o assunto, que pode, num excesso de entusiasmo, causar a asfixia fatal do parceiro. Menos grave, mas não menos constrangedor, é o caso do sujeito com a vista cansada que, nessa situação, tem que contar exclusivamente com a sensibilidade "linguo-labial" - não quero descriminar ninguém, mas todos sabemos como há no mundo, inclusive sem problemas de vista, criaturas desprovidas deste requisito. E há ainda o caso dos obesos que por excesso de volume no percurso simplesmente não conseguem atingir as marcas. Por último, quero lembrar que a reciprocidade, grande objetivo da postura, é raramente atingida, posto que tem sempre um sujeito ali largadão, enquanto a outra está dando tudo de si. E vice-versa. E vice- versa, também, eu suponho.
O Kama Sutra propõe nada menos que 529 posições pra se experimentar na hora do amor e eu não estou aqui pra desestimular a criatividade de ninguém. Mas não sei se por preguiça, ou por ter amado homens de muita aptidão, ainda considero o trivial bem feitinho algo de insuperável.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Referências bibliográficas
A farra já se distancia uns dois dias, pero (el portunhol selvagem se deve a ela) minhas mãos ainda tremem ao tentar equilibrar café e cigarro. Definitivamente, não sou mais um profissional. Tento me recompor através da ôia, do batente que me põe a comida na barriga, pero, una vez más, estoy como un náufrago. Entremear patuscada e obrigação é como um sonho interrompido por guilhotina, para a qual você é empurrado com o gosto de angu de sangue ainda na boca...
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Este final de semana rolou no Rio o evento literário "Popular" organizado pelo gaúcho Paulo Scott (outras edições já tinham ocorrido em POA e Sampa). Na ocasião, tive o prazer de conhecer Joca Reiners Terron, de quem já conhecia suas duas pérolas: a musa - nossa princesa do Cariri! - e a literatura, e Marcelino Freire, cujo Contos negreiros é o desejo de quem quer fazer da arte da escrita uma coisa popular nesse país. Dois salves e muitíssimo prazer! E ainda sobrou dois dedos de prosa com João Paulo Cuenca, autor que já conhecia de Corpo presente, pelo livro e por uma mesa que mediei certa vez na Puc-Rio. É de Cuenca a crônica que compilo abaixo, publicada n'O Globo de hoje e que diz respeito ao filme tratado no penúltimo post deste blog. Classe A, confiram!
Tropa de elite: Osso duro de roer
Se precisasse definir o Brasil numa frase, diria que é o país do perdão. O país da anistia ampla, geral e irrestrita. Anistia que, em lei aprovada pelo governo Figueiredo, não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos “oficiais”. Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldade de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.
O Brasil, e isso costuma chocar mais nossos companheiros latino-americanos do que a nós mesmos, é o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar. Para o bem da “paz e harmonia nacionais”, o governo e a sociedade preguiçosa abaixam as orelhas e deixam pra lá. No país da anistia, tudo é perdoado com esquecimento. O que aconteceu deixa de ter acontecido, como se a roda da história se alimentasse de si mesma, num processo autofágico e irreversível.
O custo dessa amnésia tão simpática e conveniente é alto. Esse déficit moral faz com que o brasileiro aceite a idéia de tortura e violência policial como quem come um pastel de carne moída.
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Escrevo esses parágrafos, como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de “Tropa de elite”, na última quinta-feira, no Odeon. Além da equipe do filme e usuais papagaios de pirata, a sessão contou com a presença, in loco, de Harvey Weinstein, criador da Miramax, vencedor de 45 oscars, produtor de blockbusters como “Pulp Fiction” e “Senhor dos Anéis” e, claro, co-produtor de “Tropa de elite”. Weinstein, segundo perfil publicado pela New Yorker, é conhecido como “Harvey mãos de tesoura” pelo seu hábito de interferir na montagem dos filmes que produz. Imagino que não tenha sido o caso.
Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe e que, apesar (e por causa) da pirataria, será um sucesso de bilheteria estrondoso. Ainda poderia escrever que “Tropa de elite” na maior parte do tempo parece um institucional nauseante do BOPE – no final, só faltou o “Aliste-se já!”. Apesar disso, levanta algumas lebres, dá um par de tiros certeiros e deixa pelo menos uma cena na memória – aquela do policial Matias invadindo uma passeata pela paz na PUC.
Ao mesmo tempo, o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelos na história do cinema nacional. O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o BOPE é incorruptível. Só o BOPE, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que “Tropa de elite” reproduz é cristalina.
O problema começa quando esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores. E aí, “Tropa de elite” pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. O público torce pelo herói torturador e mata com ele, tortura com ele, em repetidas cenas à la Abu Ghraib – ou “Guantanamo no Rio de Janeiro”, como disse meu amigo Daniel Alarcón. As celebridades enfiadas em black-tie aplaudem cada porrada, num frisson de adrenalina, e todos se convertem instantaneamente em perfumados torturadores de gabinete.
Depois, é claro, sabe-se que vem o perdão, nossa querida e mui conhecida anistia, para o torturador assassino justiceiro e para nós, apêndices conexos dessa violência, como diz a lei número 6.683. Porque, para o bem da “paz e harmonia nacionais”, os fins justificarão os meios até o (nosso) fim. Enquanto isso, o pastel de carne moída segue descendo bem pela goela de todos. O uísquinho servido em coquetéis de estréia como a de “Tropa de elite” pode ajudar.
