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domingo, 21 de setembro de 2008

Mafia capitalism - notas dominicais

"É em empresas como a Lehman Brothers e a Merrill Lynch que reinam executivos, gerentes de contas e corretores tão ricos e poderosos que receberam o apelido coletivo de Mestres do Universo. Seus rendimentos – entre salários, comissões, bonificações e dividendos – são tão desproporcionais aos de qualquer outro ramo de atividade profissional que adquiriram uma espécie de propriedade mística, como a transubstanciação na Eucaristia: incorporam a distância que separa Wall Street da economia real e o capital produtivo do capital como abstração autogerativa, e são o mais próximo que o valor de qualquer trabalho já chegou da metafísica. Os Mestres do Universo são produtos rarefeitos da 'exuberância irracional' que dominou o mercado de capitais nestes últimos anos, na frase que já merece ser imortalizada como nome de banda de rap. Seu poder e sua riqueza deram a medida da irracionalidade.

Como não existem ateus nas trincheiras, não existem liberais ortodoxos para protestar quando o Estado interfere para salvar empresas combalidas. Basta, para ter direito ao socialismo que não diz seu nome, que a empresa seja tão grande que sua queda derrubaria mais do que convicções ideológicas. Ou seja, que a empresa tenha o poder de chantagem. Os americanos gostam de fazer pouco do que chamam de 'crony capitalism', ou capitalismo de compadres, de outros países em contraste com a pureza impessoal do seu mercado, mas, desde que salvou a Chrysler no governo Reagan porque ela simplesmente não podia falir, e através de outros governos firmemente antiintervencionistas, culminando com o socorro do Bush a bancos e financeiras na crise atual, o Estado vem cedendo a repetidas chantagens, no que só pode ser chamado de 'mafia capitalism'.

Não chore, portanto, pelos Mestres do Universo. Seja qual for o desfecho da crise, o capital financeiro continuará prevalecendo, e se auto-remunerando na mesma escala sideral – ou talvez com algum novo comedimento para não pegar mal. Outros gigantes financeiros estão ameaçados de ruir como a Lehman Brothers, mas nenhum dos seus executivos sairá sem uma boa compensação, sem contar com o que já acumularam nos anos de exuberância. E é difícil acreditar que o Estado deixe uma Goldman Sachs, que já deu colaboradores e idéias para tantos governos americanos, sem ajuda. Qualquer pedido que ela fizer será um pedido que o Estado não pode recusar."

(coluna de Luís Fernando Veríssimo de hoje nos grandes jornais do patropi)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Leituras cotidianas

O editor desta bodega eletrônica segue em sua missão pela morte da autoria - ele mesmo não escreve mais nada! ; ). Os links deste post são para dois textos interessantes lidos ao longo do dia de hoje. O primeiro sobre a atual crise mundial de alimentos (clique aqui); o segundo sobre um abaixo-assinado anti-contas (aqui). Valem a leitura!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

2° grau


Antes que acusem este estranho doutor de lulismo, petismo ou quaisquer outros ismos, lembro aos desatentos que ele faz, e sempre fará, jus ao adjetivo de sua alcunha. Não sou do PT nem filiado a nenhum partido. Da mesma forma, não sou um idiota para ignorar a história política do país. Logo, não posso esquecer que o atual governo é (ou era?) a maior esperança de, pelo menos, alguma fagulha transformadora da histórica e lamentável estrutura social brasileira. Isso é inconteste e a gente aprende no colégio, 2° grau - no meu caso, feito em uma instituição privada, privilégio de classe (tenho a plena consciência disso), preciso ao menos honrar o dinheiro da família, pois se matérias com matemática, física e outras afins não vingaram na minha caixola, aprendi algo com as lições de história.
Se o atual governo não está a contento, creio que isto seja motivo de dor. Nenhum outro sentimento caberia. O que vejo constantemente nas ruas (mais abastadas, claro), no entanto, é um certo prazer nas críticas, quase um gozo com os desvãos da administração federal.
Aos que se deliciam com os deslizes do governo, lembro-lhes que na história recente do Brasil, como vocês devem saber, não existe nada acontecendo para que tenhamos novas esperanças de um país efetivamente mais democrático. E isso também é motivo de dor. Talvez mais.

Feito o prelúdio, trancrevo abaixo mais uma boa crônica do Veríssimo, publicada ontem, e que tem a ver com o tema. Allez!

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Inauguradores

Da sua fundação até a eleição de Andrew Jackson em 1829, a república dos Estados Unidos da América foi presidida por seis aristocratas. Entre eles cinco dos autores da sua constituição, o primeiro contrato social republicano da História, que incluía o que depois seria chamado (por Gore Vidal) de “divino remendo”, a Carta dos Direitos, mas também uma desproporcional preocupação com o direito de propriedade – não fossem todos os seus signatários proprietários rurais, além de escravocratas. As credenciais dos primeiros presidentes da nova república como teóricos da democracia – em especial as de Thomas Jefferson, o mais intelectual dos fundadores – eram intocáveis. Mas foi o sétimo presidente quem pos à prova a teoria e, para todos os efeitos históricos, inaugurou a democracia americana. Andrew Jackson foi posto na Casa Branca por um movimento popular, e mais pela sua personalidade do que pela sua procedência. Fundou o que até hoje chamam por lá de “jacksonian democracy”, para a distingui-la da primeira fase, teórica, da democracia, ou enfatizar sua diferença de outros modelos republicanos – nem sempre como um elogio.

No México, Benito Juárez também foi um primeiro. No seu caso, o primeiro mexicano com cara de mexicano autêntico a chegar ao poder desde a conquista espanhola. Mais importante do que seus períodos na presidência foi a sua cara, e o que ela simbolizava. Índios, meio-índios e não índios se alternaram no poder depois de Juárez, mas o que a primeira eleição, em 1858, de alguém cuja língua original fora o zapoteca significou para a consciência mexicana se vê até hoje na mitificação da sua figura, e não apenas nos murais de Rivera e Siqueiros. Como Jackson, Juarez foi um inaugurador.

A comparação entre os dois termina aí. Juárez tentou modernizar o México, enfrentou os latifundiários e o poder da Igreja – além de invasores franceses e a influência do grande e metido vizinho do norte. Ou seja, não foi apenas uma carranca bonita. Jackson fez a sua reputação e ganhou sua popularidade como militar particularmente truculento, arrasando ingleses e índios com o mesmo gosto, e acabou um senhor rural, dono de escravos, como os aristocratas que desprezava e o desprezavam. Ele, sim, foi apenas um símbolo. Mas tanto o México quanto os Estados Unidos se beneficiaram do ineditismo que os dois representaram em suas histórias.

É difícil dizer se o Lula está fundando alguma coisa. Se depois dele virá algo melhor, pior, a mesma história de sempre – ou o dilúvio. O tamanho dessa reação ao inédito que ele representa na nossa política também é difícil de interpretar. É reflexo condicionado do conservadorismo ameaçado, é uma repulsa justificada e terapêutica – ou é apenas o Brasil, como sempre, deixando para fazer depois (como no caso da absolvição da escravatura) o que outros países fizeram há tempo? Sei lá.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Já, de volta a ativa! (e virado no mói de coentro!)


Enfim, salvo! Artigo pronto e cá estou de volta ao cultivo desta propriedade, minha única por sinal. Não foi fácil, ainda mais que o tema que escolhi para escrever o tal texto não dispunha de muita bibliografia. O assunto? Ah, fiz um arrodeio medonho pra mostrar que idéias futuristas em cenas culturais periféricas funcionam como um mecanismo de transcendência da miséria(!). Acreditem, escrevi sobre isso. Disponibilizarei aqui assim que o livro que ele fazerá parte for lançado (e também quando achar alguma forma de publicar arquivo word na web, coisa que consegui apenas através do 4Shared, mas essa ferramenta estipula um prazo de disponibilidade e depois do seu vencimento, só depositando uns caraminguás na conta dos caras, senão o material expira. Foi o que ocorreu com o meu currículo e com alguns artigos que coloquei neste blog, como vocês já devem ter percebido - algum leitor saberia informar uma solução? Desde já, minha mais sincera gratidão).

Mas, voltando a “volta”, não foi dessa vez que a degola das obrigações ceifou o pescoço desse estranho doutor. Mesmo com um cansaço de Hércules pós-12 trabalhos - pois além do artigo, montei nos últimos dias os exemplares definitivos de minha tese para a biblioteca da universidade (trabalho do cão! 739 páginas, 3 tomos e logo logo um link aqui!) -, sinto-me com os poderes revigorados, com uma puta larica de vida e doido pra voltar ao mundo, "pra estraçaiá!", como na cartilha-nocaute do imbatível Todo-Duro - é o fraco???!!! Em outras palavras, é o Dokstrange virado no mói de coentro! Ainda bem que amanhã tem show da Nação Zumbi (Circo Voador, maiores informações aqui) pra gastar a freqüência...

Bom, pra sair do umbigo, segue abaixo uma crônica do Veríssimo que eu queria ter publicado na semana passada, mas a lida não permitiu. Ainda sobre as vaias do Lula. Recado para o coro dos que acreditam cegamente na nossa grande imprensa e para o coro dos que sentem mais prazer do que dor com os atropelos do governo (aliás, são praticamente o mesmo coro). Sai com atraso, mas cheia de carinho, Dr. E.
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Cumplicidade*

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a "guerra de mentira" que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o fascismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim muita gente boa escolheu Hitler como o mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem até que o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só pelo seu amor a uma plebéia mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas por algum tempo os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo - inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.

Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se, sem fazer perguntas, ao seu ideal, que em muitos casos nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.

Se esses dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.

Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

*Crônica publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 19 de julho de 2007