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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ainda em Gaza...

Jornalista inglês denuncia mentiras de Israel

Em artigo publicado no jornal The Independent, o jornalista inglês radicado no Líbano, Robert Fisk (foto ao lado), denuncia as mentiras contadas pelo governo de Israel para tentar justificar as atrocidades cometidas em Gaza (e atrocidades anteriores também). A Organização das Nações Unidas também rebateu a versão israelense, segundo a qual as escolas bombardeadas estariam abrigando militantes do Hamas. Sobre esse tema, Fisk, que é considerado um dos maiores especialistas hoje em Oriente Médio, escreve:

“O que surpreende é que tantos líderes ocidentais, tantos presidentes e primeiros-ministros e, temo, tantos editores e jornalistas tenham acreditado na mesma velha mentira: que os israelenses algum dia tenham se preocupado em poupar civis. Todos os presidentes e primeiros-ministros que repetiram a mesma mentira, como pretexto para não impor o cessar-fogo, têm as mãos sujas do sangue da carnificina de ontem. O que aconteceu não foi apenas vergonhoso. O que aconteceu foi uma desgraça. ‘Atrocidade’ é pouco para descrever o que aconteceu. Falaríamos de ‘atrocidade” se o que Israel fez aos palestinos tivesse sido feito pelo Hamas. Israel fez muito pior. Temos de falar de ‘crime de guerra’, de matança, de assassinato em massa”.

A lógica de justificativas de Israel não é nova, acrescenta o jornalista:

“Reportei as desculpas que o exército de Israel tem oferecido ao mundo, já várias vezes, depois de cada chacina. Dado que provavelmente serão requentadas nas próximas horas, adianto algumas delas: que os palestinos mataram refugiados palestinos; que os palestinos desenterram cadáveres para pô-los nas ruínas e serem fotografados; que a culpa é dos palestinos, por terem apoiado um grupo terrorista; ou porque os palestinos usam refugiados inocentes como escudos humanos.

O massacre de Sabra e Chatila foi cometido pela Falange Libanesa aliada à direita israelense; os soldados israelenses assistiram a tudo por 48 horas, sem nada fazer para deter o morticínio; são conclusões de uma comissão de inquérito de Israel. Quando o exército de Israel foi responsabilizado, o governo de Menchaem Begin acusou o mundo de preconceito contra Israel. Depois que o exército de Israel atacou com mísseis a base da ONU em Qana, em 1996, os israelenses disseram que a base servia de esconderijo para o Hezbollah. Mentira.

Israel insinuou que os corpos das crianças assassinadas num segundo massacre em Qana teriam sido desenterrados e expostos para fotografias. Mentira. Sobre o massacre de Marwahin, nenhuma explicação. As pessoas receberam ordens, de um grupo de soldados israelenses, para evacuar as casas. Obedeceram. Em seguida, foram assassinadas por matadores israelenses. Os refugiados reuniram os filhos e puseram-se à volta dos caminhões nos quais viajavam, para que os pilotos dos helicópteros vissem quem eram, que estavam desarmados. O helicóptero varreu-os a tiros, de curta distância. Houve dois sobreviventes, que se salvaram porque fingiram estar mortos. Israel não tentou nenhuma explicação.

12 anos depois, outro helicóptero israelense atacou uma ambulância que conduzia civis de uma vila próxima – outra vez, soldados israelenses ordenaram que saíssem da ambulância – e assassinaram três crianças e duas mulheres, Israel alegou que a ambulância conduzia um ferido do Hezbollah. Mentira.

Fisk relata ainda que cobriu, como jornalista, todas essas atrocidades e investigou-as uma a uma, entrevistando sobreviventes:

"Muitos jornalistas sabem o que eu sei. Nosso destino foi, é claro, o mais grave dos estigmas: fomos acusados de anti-semitismo. Por tudo isso, escrevo aqui, sem medo de errar: agora recomeçarão as mais escandalosas mentiras.”

Uma outra mentira denunciada por Fisk é a de que o cessar-fogo em Gaza teria sido rompido pelo Hamas: "O cessar-fogo foi rompido por Israel, primeiro dia 4/11; quando bombardeou e matou seis palestinenses em Gaza e, depois, outra vez, dia 17/11, quando outra vez bombardeou e matou mais quatro palestinos", escreve.

(Trechos do artigo traduzidos por Caia Fitipaldi/Texto retirado do site Agência Carta Maior)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Inglês é Fisk!

Leio os artigos de Robert Fisk já a um certo tempo - uma pena que eles são publicados apenas ocasionalmente no Brasil. Correspondente do jornal britânico The Independent em Beirute, cidade que mantém residência há 31 anos(!), Fisk talvez seja hoje o jornalista de guerra mais importante do mundo. Pra se ter uma idéia, já entrevistou Osama três vezes, tendo, inclusive, ganhado do líder da Al Qaeda o seguinte comentário: "Considero Robert Fisk um homem neutro. Estarão os tais libertadores da Casa Branca e os canais que eles controlam em condições de dar uma entrevista a ele? Assim ele poderia mostrar para os EUA o que ele entende das razões pelas quais nós lutamos contra vocês."
E num é que Robert Fisk agora virou pop nas terras de Pindorama?! Com as publicações dos seus dois últimos livros (Pobre nação e Grande guerra pela civilização, A conquista do Oriente Médio, este último um calhamaço com quase 1.500 páginas!), o nome do correspondente passou a ser facilmente encontrado nos cadernos dos jornais brasileiros e nas bancadas das nossas livrarias.
Até aí, nada de se estranhar. O que me surpreendeu mesmo foi encontrar uma entrevista com ele na revista Trip deste mês. Bom, nada mal e que assim seja, mas não deixa de ser meio inesperado se deparar com páginas dedicadas ao considerado por muitos "inimigo do Ocidente" pela editora responsável pela Revista Daslu.
Li a entrevista e digo que ela vale por algumas entrelinhas de Fisk. Não é grande coisa, talvez por responsabilidade do entrevistador que achei devagar (um cabra novo de 28 anos). Mas tem pérolas, como o comentário de uma ex-namorada do correspondente revelado por ele mesmo:
"quanto mais guerras você cobre, mais aprende a sobreviver. Quanto mais você vai para guerras, mais chance tem de morrer".
Estranha equação que me levou a seguinte conclusão: minha vida é uma verdadeira Bagdá!