Mostrando postagens com marcador Dj Dolores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dj Dolores. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Pinto no lixo

Chegou o verão e agora danousse. Se já era mais animado do que coceira, o Recife na estação não para mais. É Sem Loção pra cá, Feira da Música pra lá, maracatus acolás, mostras retrospectivas, expectativas... Êtacarái!, parece que o mundo vai se acabar amanhã. Num sobra nem tempo de ir pra festa da firma!

Nesse final de semana, dois pitacos, vejam só:

Como tá no cartaz, função pra hoje, sexta. Jorge Mautner é o convidado especial da Festa da Sopa, tertúlia do programa de rádio comandado pelo incansável Roger de Renor (seg a sex, das 12h às 13h na Oi Fm). O multiartista fará um show aliando sua voz e violino ao violão do companheiro Nelson Jacobina e aos comandos eletrônicos de DJ Dolores.

Amanhã, sabadão, projeção na Fundaj do documentário Belair (cartaz abaixo, bonito-que-só-a-porra, diga-se), de Bruno Safadi e Noa Bressane (e montagem do amigo Rodrigo Lima!). A Belair Filmes, foi a produtora cinematográfica dos cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, que realizou sete filmes em apenas cinco meses no ano de 1970. Censurados pela ditadura militar, os cineastas saíram do país, e os filmes permanecem pouco conhecidos até hoje. Vale o confere!

domingo, 11 de maio de 2008

Uma fábula contra o mundo da técnica

Entre os anos de 2005 e 06 o Dj Dolores (foto) manteve uma coluna semanal no Diário de Pernambuco. Há exatos 2 anos foi publicada nela esta pérola que reproduzo aqui. Uma ótima fábula, ambientada no mundo da música pop, contra o discurso da técnica e a favor do free style. Boa (re)leitura!

Quinta-feira, Maio 11, 2006

Técnica X Intuição

O mundo é injusto!

Tomemos duas amostras casuais, o músico R e o músico L. O primeiro demonstrou queda para a música desde pequenininho, matriculou-se no conservatório, dedicou-se arduamente a estudar escalas – desenrola as pentatônicas como se assobiasse - técnicas de dedilhado, acordes difíceis e ritmos em divisões de tempos complexos. Seus dedos estão calejados pelas cordas, sua boca ferida pelo bocal, as costas reclamam do peso do instrumento.

Depois de tanto tempo investindo em seus estudos, o Sr. R se vê trabalhando em ambientes de pretensões jazzísticas, mas maculados por goles de cerveja, risadas jocosas e caôs amorosos. No fim da noite, o Sr. R está arrasado, ressentido com a raça humana – essa cambada de ignorantes! – pois ninguém respeita seu trabalho, sua técnica sofisticada, sua filosofia berkeleeniana... seu virtuosismo!!!

Por outro lado, o Sr. L chegou até a música por causa da maloqueiragem. Entre uma cerveja, um baseado e a roda de amigos, aprendeu a tocar um instrumento. Desenvolveu sua técnica de modo intuitivo, montou acordes copiando cifras de revistas, não sabe ler nem escrever partituras e – pasmem! – pendura a guitarra de modo desleixado, lá embaixo da cintura.

Mas o Sr. L tem qualidades: sua música simples seduz o público, tem noção de tempo e sabe como timbrar seu instrumento conferindo-lhe personalidade. Seus erros – erros sob o ponto de vista da escola do Sr. R – são inovadores por subverterem uma linguagem conservadora. O resultado veio em shows e carinho do público – gentalha, diria o círculo de amigos do Sr. R – que imita seu estilo de pegar a guitarra em inspiradas air guitars.

Com todo seu saber intuitivo o Sr. L virou referência não só no país, mas também fora e deve ser lembrado durante muito tempo como alguém dono de um estilo próprio.

Para o Sr. R, resta o consolo de seus pares injustiçados que, entocados nos porões do virtuosismo, se exibem uns para os outros.

Não, o mundo não é injusto. A gente é que sabe escolher o que a gente gosta.

A escola

A Escola de Berkelee virou paradigma de virtuosismo musical. Para alguns, é claro. De lá saíram os músicos mais chatos do planeta, emoções esmagadas pela técnica pura, pela afetação exibicionista, uma presunção elitista baseada em enquadrar a música popular na escrita acadêmica.

Sua corrente de pensamento acredita na música como algum tipo de esporte que pode ser medido com exatidão numérica, como se a quantidade de notas num solo ou o número de acordes – sempre bastante complexos – determinasse uma progressão musical.

Os caras fizeram o impossível: pegaram o jazz e o blues e encaretaram ao suprimirem o que tem de melhor nesses estilos: a espontaneidade generosa dos seus intérpretes.

E agora eles tem uma cadeira para DJs. Encaixotaram o scratch!!!

Alguém aí lembra dos nossos armoriais?

A Casta

Existe sempre alguém tentando nos convencer que alguns são absolutamente melhores que os outros. O velho embate do gosto é o esporte favorito das elites para nos convencer que seu dinheiro gerou cultura de qualidade.

Puro engodo retórico!

O sistemas de castas culturais cansa a minha paciência e me faz ter essa horrível sensação de perda de tempo. Lembro-me, por exemplo, de uma palestra onde o venerável Ariano Suassuna ardia em chamas irritado com a presença da guitarra – esse objeto alienígena – na pureza da nossa música brasileira.

Fred Zeroquatro, então um jovem punk, lembrou que o piano – tão usado na construção armorial - era um instrumento europeu.

E o velho mestre corou e engasgou diante da platéia do Centro de Artes.

Seria apenas cômico se tantos não o levassem a sério.

(Ps.: para quem quiser mais da verve do Dj, os textos ainda estão disponíveis aqui)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Batendo o centro do ano

Sim caros leitores, o primeiro post do ano. Uma croniqueta futebolística. Ainda não deste doutor que agora vos assombra com sumiços e aparições esporádicas e que anda de férias com o vernáculo...
E se não escrevo, que escrevam sobre mim, ora pois! Eis um texto para desvendar-me! Brodagens tantas nas folhas de hoje do paulistano jornal dos Otávios Frias... Boa leitura!

ps.: mais uma promessa: como o próximo post é o centésimo desta bodega eletrônica, prometo regularidade, claro, e novidades!

Um homem sem futebol
Por XICO SÁ

AMIGO TORCEDOR , amigo secador, estava aqui com um grupo de chegados, numa simpática taberna do Recife, discutindo os rumos da humanidade, quando um dos nossos cavaleiros da mesa redonda solta o berro: "Golaço!!!".
Você não está entendendo, amigo, não foi um berro qualquer, um grito familiar, nem tampouco um humaníssimo manifesto de rotina do bicho homem. Foi daqueles brados retumbantes, guturais, que irrompem do estômago dos monstros do trash metal e das cavernas do Medievo. De repente aquela tarde à João Gilberto, com barquinhos à bossa nova ao longe, é tomada pelo Iron Maiden e todos os zumbis do outro mundo.
É isso o que o ingrato recesso do futebol causa em nós, marmanjos doentes, eternos Peter Pans ludopédicos. É isso, um simples gol de pelada na praia do Pina, nos contornos de Brasília Teimosa, vira comoção, o ritual mais primitivo do coração das trevas. O pior é que só o amigo Roberto Azoubel, o dono do grito, viu o golaço. Só o "doctor estranho", sua nova alcunha, solitariamente testemunhou o épico. Para nosso desgosto, óbvio. Só nos restou, naquele momento solene, roer as unhas da inveja em busca de um replay impossível, um videoteipe imaginário.
O "golaço" incendiou a fantástica usina de fabulações que é a mente humana privada dos grandes embates. Tivemos de nos contentar com a narrativa da testemunha, que deu conta de uma tabela na canela do rival e um toque sutil por debaixo do último beque que guardava a trave portátil. A bola passou rente ao latifúndio dorsal do zagueiro e foi conduzida caprichosamente, com ajuda de vento e maré, ao fundo do filó. Daí o grito, salivado de testosterona e jejum futebolístico: "Golaço!!!".
Jô, a costela amada da testemunha, teve um susto só comparado à primeira vez que viu "Psicose"; Lirioboy passou a chamar o artilheiro do Pina de Roberto Coração de Leão, grande ídolo do seu Sport Recife; DJ Dolores, entretido com uma "boyzinha" à milanesa-cafuçu, típica modelo das fotos de Bárbara Wagner, também não viu a pintura, mas assinou embaixo. Esse intervalo quase sem futebol, amigo, deixa mesmo os homens sem noção, lesados no paraíso, Adões entregues às vontades pecaminosas e bestiais.
Por ventura e sorte, este cronista acabara de chegar de Juazeiro, onde teve a felicidade de ver a Copa Integração, o que garantiu o sagrado fornecimento de ópio aos torcedores até a véspera do último dia do ano. O torneio reuniu times dos sertões de Ceará, Pernambuco, Piauí e Paraíba.
O Icasa, o verdão da Meca do Cariri, sagrou-se campeão no derby com o rubro-negro Guarani, o Leão do Mercado. No domingo, repetem a peleja, valendo pelo Cearense-2008.
E aos poucos teremos os Estaduais de volta, alvíssaras, porque os embates da aldeia são os mais universais. Porque um homem sem futebol retorna à condição de bárbaro, é ameaça aos contratos sociais, é capaz de atos de um Jack, de um Chico Picadinho, de um Bandido da Luz Vermelha, de um Monstro da Madalena, de um Maníaco do Parque.
Que a terra nos seja leve em 2008 e que gire em torno do sol como na primeira visão de Copérnico, tal e qual a bola manhosa que cisca e se enrosca, carinhosamente, no fundo de uma rede de várzea.