Esta é uma pergunta que constantemente as pessoas me fazem quando falo sobre a área de conhecimento que desenvolvo meus trabalhos e a que, não por acaso, prefiro investir meus estudos. Para uma definição mais precisa dos Estudos Culturais existe hoje no Brasil uma bibliografia introdutória que responde bem a questão-título deste post. Cito algumas obras: Introdução aos Estudos Culturais, dos franceses Armand Matterlart e Erik Neveu; Dez lições sobre Estudos Culturais, da Maria Elisa Cevasco; O que é, afinal, Estudos Culturais?, organizado por Tomaz Tadeu da Silva; entre outros trabalhos.
No entanto, no meio das mencionadas leituras que fiz neste verão, encontrei uma definição interessante que serve de boa síntese para este campo de estudos. Ela encontra-se no livro O universalismo europeu, do sociólogo americano Immanuel Wallerstein. Eis a esclarecedora passagem:
"O movimento dos estudos culturais foi igualmente uma rejeição do conceito básico que configurava as ciências humanas: a existência de cânones universais de beleza e de normas do bem na lei natural que podem ser aprendidos, ensinados e legitimados. Embora as humanidades sempre tenham afirmado favorecer o particular essencialista (contra os universais científicos), os proponentes dos estudos culturais insistiam que os ensinamentos tradicionais das humanidades incorporavam os valores de um grupo específico - homens brancos ocidentais de grupos étnicos dominantes -, que afirmavam de maneira arrogante que seus conjuntos particulares de valores eram universais. Nos estudos culturais, insistia-se, ao contrário, no contexto social de todos os juízos de valor e, portanto, na importância de estudar e valorizar as contribuições de todos os outros grupos - grupos que foram historicamente ignorados ou denegridos. Professava-se então o conceito demótico de que todo leitor, todo espectador, traz às produções artísticas uma percepção que não é só diferente, como igualmente válida."
Respondida a pergunta-título?
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
O que é, afinal, Estudos Culturais?
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Leituras de verão e o (meu) materialismo posto em xeque
Desde novembro no Recife, aproveitei, entre uma farra e outra, pra por, na medida do possível, a leitura em dia. Romances, antropologia, filosofia, artigos, li de tudo um pouco. Eis a lista com a qual curei minhas ressacas e acumulei um pouco mais de sabidice: Música e simbolização, tese sobre o Manguebeat da professora e consultora de pesquisa Rejane Sá Markman; Homem comum, breve romance do americano Philip Roth; Beato Lourenço e Caballeros solitários rumo ao sol poente, ambos de Xico Sá; Nova luz sobre a Antropologia, Clifford Geertz; Administradores, quem somos nós?, Luiz Otávio Cavalcanti; Aprendendo a viver, do filósofo e ex-ministro da educação da França Luc Ferry; O Universalismo europeu, do sociólogo Immanuel Wallerstein; e, por fim, Crime e castigo, romance cânone da literatura mundial do russo Fiodor Dostoiévski, este último ainda em processo de leitura.
Pois bem, uns mais e outros menos, como era de se esperar, gastaram meu juízo com trechos e questões interessantes. Por hora, trago uma passagem do livro do Luc Ferry bastante provocadora para aqueles que, como eu, acreditam que a existência precede a essência:
"Para formular mais uma vez o princípio dessas contradições, eu lhe diria apenas que a cruz do materialismo é que ele jamais consegue pensar seu próprio pensamento. A fórmula pode parecer difícil; no entanto, significa algo de muito simples. O materialismo diz, por exemplo, que não somos livres, mas está convencido, é claro, de que afirma tal coisa livremente, que ninguém o obriga de fato a fazê-lo, nem seus pais, nem seu meio social, nem sua natureza biológica. Ele diz que somos inteiramente determinados por nossa história, mas não deixa de nos convidar a nos emancipar dela, a mudá-la, a, se possível, fazer a revolução! Ele diz que é preciso amar o mundo tal como ele é, reconciliar-se com ele, fugir do passado e do futuro para viver o presente, mas, como eu e você quando o presente nos pesa, não deixa de tentar mudá-lo na esperança de um mundo melhor. Em resumo, o materialismo anuncia teses filosóficas profundas, mas sempre para os outros, nunca para ele mesmo. Ele está sempre introduzindo transcendência, liberdade, projeto, ideal, pois, na verdade, ele não pode se acreditar livre e requisitado por valores superiores à natureza e à história."
Socorram-me o velho barbudo Karl e o bigodudo Friedrich! Para quem gasta neurônios com questões filosóficas, cartas a esta redação, por favor....
