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domingo, 15 de junho de 2008

A legitimação da cachaça - notas dominicais

"A situação revolucionária desta bosta mental sul-americana apresentava-se assim: o contrário do burguês não era o proletário - era o boêmio."

(Oswald de Andrade em Serafim Ponte Grande)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A cárie da fome universal

No ano de 1950, Oswald de Andrade, já então professor concursado da cadeira de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia da USP, andava com a idéia de prestar um outro concurso na mesma instituição, desta vez para a cadeira de Filosofia. Tal iniciativa, no entanto, era desencorajada pelo amigo e também colega de trabalho (ninguém nada menos que) Antônio Cândido, que alegava ser o processo uma situação muito técnica, para a qual o homem da antropofagia não estaria preparado e que isso poderia comprometê-lo inultilmente (o próprio Cândido admitiu que na época não entendia que um grande talento poderia valer muito mais do que toneladas de professores "tecnicamente preparados"). Oswald protestava, dizendo que a Universidade precisava se abrir, que era um direito dele, coisa e tals. A peleja terminou gerando o seguinte diálogo:

- Mas você não tem cultura filosófica organizada. Imagine se na defesa da tese Fulano (um examinador potencial, famoso pela truculência) faz perguntas em terminologia que você não domina - argumentava Cândido.
- Dê um exemplo - retrucava Oswald.
- Não sei. Não entendo disto; mas anda por aí um vocabulário tão arrevezado de "ser-no-outro", "por-si", "orifício existencial" e não sei mais o quê...
- Mas dê um exemplo - insistiu.
- Bem, só para ilustrar: se ele pergunta pernosticamente: "Diga-me V.S. qual é a impostação hodierna da problemática ontológica?"
- Eu respondo: "V.Excia. está muito atrasado. Em nossa era de devoração universal o problema não é ontológico, é odontológico!"

(Diálogo retirado e adaptado do artigo "Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade", que está no livro Vários escritos de Antônio Cândido)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Vira e mexe, identidade

O título deste post parafraseia o nome do último livro da professora e crítica de literatura Leyla Perrone-Moisés, Vira e mexe, nacionalismo (uma frase, como ela mesma revela na epígrafe, de Mário de Andrade). A autora é tida por muitos da área dos estudos literários como defensora dos cânones da literatura em detrimento das análises de cunho mais culturalistas (nas quais geralmente me enquadro). Não julgarei aqui seus méritos ou deméritos. Aliás, correndo riscos com meus pares(?), julgarei sim: como escreve bem a tal Leyla! É daquelas(es) escritoras(es) cujas construções textuais e ideológicas, mesmo que se venha a discordar de seus pontos de vistas, sempre geram questionamentos férteis e inquietações intelectuais (é incrível como atualmente tenho mais prazer na leitura de autores que tendo a discordar de suas idéias e universos, mas que escrevem com muita destreza e/ou inteligência, como é o caso de Harold Bloom, Luc Ferry, Clarice Lispector, entre outros).


Bom, o livro, como título já aponta, traz 13 artigos que se ocupam basicamente com o tema da identidade - nossa(?) e alhures. No texto intitulado "Paradoxos do nacionalismo literário na América Latina"(trata-se de uma tradução da conferência que autora fez no Canadá em 1994, na ocasião do Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada), Perrone-Moisés constrói este belo parágrafo:


"O grande problema é que esses (olhares)lugares-comuns europeus sobre a América Latina são em parte verdadeiros. Apesar de todas as misérias, os países latino-americanos têm, de fato, uma natureza exuberante, e seus habitantes, uma vitalidade, uma imaginação e um gosto pela festa que se devem a certos arcaísmos preservados, ao simples desejo de sobreviver ou a uma venturosa inconsciência. A questão não é nos desfazermos dessas características, que agradam aos outros, mas vivê-las com lucidez, e não como uma compensação do que falta ao outro."


Na minha leitura, este trecho desfaz a máxima oswaldiana da alegria como prova dos nove*. Latino-americanos, brasileiros e outras identidades periféricas não têm que provar nada e a ninguém. Carecem apenas, conforme a citação acima deixa subentender, de fazer uso da lúcida sabedoria popular: "Deixa a vida dos outros, faz o teu!"


* Ao ler o parágrafo citado me lembrei imediatamente de um poema da amiga Camila do Valle que toma como paródia a referida frase de Oswald de Andrade:
"A minha alegria não é prova dos nove: é ajuste de contas."
Na época em que foi publicado, adorei esta boutade. Hoje, no entanto, mesmo longe de ignorar o peso e a influência das heranças históricas (e tantos traumas coloniais), não creio nas contas a ajustar. Pelo menos não no sentido da questão colocada por Leyla Perrone-Moisés - "não como uma compensação do que falta ao outro". Isto talvez seja energia demais gasta com o alheio.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A fome de tudo da periferia


A fome de tudo da periferia devora Oswald de Andrade e seus afilhados. E o banquete está servido: esta semana rola em São Paulo a Semana de Arte Moderna da Periferia - Antropofagia Periférica, evento promovido pela Cooperifa – Cooperativa Cultural da Periferia. Ainda dá tempo de dar uma passada por lá - é de 04 a 10/11. A programação (com horários e locais) está neste link. Quem puder, acho que vale a pena dar uma fuçada nas exposições, mostras de vídeos, shows e apresentações. Abaixo segue o manifesto fodíssimo do evento escrito pelo poeta Sérgio Vaz, idealizador da função.


Manifesto da Antropofagia Periférica
Sérgio Vaz

A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.

Do teatro que não vem do "ter ou não ter...". Do cinema real que transmite ilusão.

Das Artes Plásticas, que, de concreto, querem substituir os barracos de madeira.

Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos.

Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.

A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.

Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que, armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.

Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.

Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.

Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? "Me ame pra nós!".

Contra os carrascos e as vítimas do sistema.

Contra os covardes e eruditos de aquário.

Contra o artista serviçal escravo da vaidade.

Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!