E não é com o Dia Mastrorianni, seu segundo romance recém saído do forno da editora Agir e que este editor ainda não leu - se manter a pegada do Corpo presente, continua maravilha; mas sim com sua coluna publicada hoje (que já é ontem enquanto posto) no Megazine (caderno juvenil) d'O Globo. Num é que o menino parece que tá acertando a mão nas crônicas?! Leiam e digam:
Tintim Festival e outras estórias
1. Uma vez por ano, um grupo de artistas da região metropolitana do globo aporta em terras periféricas. Nos subúrbios iluminados do planeta, nababescos picadeiros são erguidos especialmente para o festival de música, realizado em torno de uma plêiade internacional eleita por seitas secretas em rituais ainda mais secretos.
Dias depois, a sede cosmopolita dos habitantes desse povoado distante estará saciada — até a próxima grande atração estrangeira, também patrocinada por algum conglomerado multinacional.
2. Postados ao redor de uma praça na cidade do interior, os palcos que recebem tão prestigiosas atrações normalmente têm a lotação esgotada, apesar do estratosférico preço dos ingressos — que podem ser bastante mais caros do que os da metrópole.
Mas o que é um par de cobres perto da glória terrena? Durante dois dias, a praça do festival se transforma no centro nervoso da intelligentsia e elite locais, onde se reúnem os filhos dos capitalistas da província, seus trovadores, poetas, bobos da corte, estudantes, periodistas, damas de honra — e de companhia. Todos vestidos com roupa de missa no feriado.
3. O que causa espécie aos forasteiros que convivem com esse aglomerado humano tão especial é que, se todos pagaram caro para ter acesso aos palcos da quermesse, a maioria não está exatamente preocupada com o que se passa por cima deles.
Os espetáculos e seus performers estrangeiros são figuras secundárias ao lado de tão influentes presenças locais. Durante as apresentações, a selecionada platéia não pára de olhar sobre os ombros, se lamber com a vista, desfilar suas belezas e falar e falar — especialmente quando nada há a dizer.
4. No esperado show da Björk, durante as canções mais atmosféricas, este observador, que estava ali, na meiúca da muvuca, pôde testemunhar o murmurinho incontrolável.
Olhei ao meu lado e vi: a consagrada coreógrafa, o crítico musical paulistano, a atriz sub-18, o diretor de TV e seus figurantes de camisa justa, os formadores de opinião do balneário, e eles não paravam de ruminar palavras sobre palavras, como se precisassem da música para se esquecer da música. A atração no palco é coadjuvante desse espetáculo.
O brasileiro é a musa de si mesmo. Todos nós, na voluptuosa platéia, éramos infinitamente mais relevantes do que a pobre islandesa que se esgoelava no palco. A pequena só ganhava a atenção e as palminhas da turba quando dizia um desastrado “obrigado” — em português, “ooohs!” de admiração e orgulho pátrio etc.
5. Essa indiferença absurda e terrível chegou ao paroxismo no show do Antony and the Johnsons, que tentei ouvir duas vezes na mesma noite, sem sucesso em nenhuma das tentativas. O respeitável público não deixou.
Já que a música parece tão desimportante para essa audiência surda, acho que os bem-intencionados organizadores do festival poderiam, nos próximos anos, simplesmente fornecer a estrutura e, no lugar dos shows, projetar nos palcos imagens do público e suas vozes amplificadas.
6. Talvez pelo volume do som, o único show que vi e que não foi atrapalhado pela turba foi o do The Killers, de Las Vegas. A banda dândi, liderada por um mórmon de bigodinho, é tão grandiloqüente e cafona, que me faz pensar que se trata do Asia dos anos 00. (Alguém aí sabe o que é o Asia, ou estou, mais uma vez, falando sozinho e comigo mesmo?).
De qualquer forma, o Killers, que só tem dois discos, fez um show que parecia uma coletânea de sucessos em clima de comoção: uma moça ao meu lado chorou durante o concerto inteiro, jovens senhores berraram as letras em macarrônico inglês e voltaram para casa roucos e banhados de cerveja.
7. O Lasciva Lula, banda que possivelmente faria o melhor show do Tintim Festival deste ano, não pode acabar. Visite o site (www.lascivalula.com.br), ouça as músicas e incomode o quarteto.
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Bom, não conheço o Lasciva Lula, mas a coluna traz ótimos instantâneos das terras de São Sebastião...
terça-feira, 6 de novembro de 2007
João Paulo Cuenca strikes again!
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Referências bibliográficas
A farra já se distancia uns dois dias, pero (el portunhol selvagem se deve a ela) minhas mãos ainda tremem ao tentar equilibrar café e cigarro. Definitivamente, não sou mais um profissional. Tento me recompor através da ôia, do batente que me põe a comida na barriga, pero, una vez más, estoy como un náufrago. Entremear patuscada e obrigação é como um sonho interrompido por guilhotina, para a qual você é empurrado com o gosto de angu de sangue ainda na boca...
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Este final de semana rolou no Rio o evento literário "Popular" organizado pelo gaúcho Paulo Scott (outras edições já tinham ocorrido em POA e Sampa). Na ocasião, tive o prazer de conhecer Joca Reiners Terron, de quem já conhecia suas duas pérolas: a musa - nossa princesa do Cariri! - e a literatura, e Marcelino Freire, cujo Contos negreiros é o desejo de quem quer fazer da arte da escrita uma coisa popular nesse país. Dois salves e muitíssimo prazer! E ainda sobrou dois dedos de prosa com João Paulo Cuenca, autor que já conhecia de Corpo presente, pelo livro e por uma mesa que mediei certa vez na Puc-Rio. É de Cuenca a crônica que compilo abaixo, publicada n'O Globo de hoje e que diz respeito ao filme tratado no penúltimo post deste blog. Classe A, confiram!
Tropa de elite: Osso duro de roer
Se precisasse definir o Brasil numa frase, diria que é o país do perdão. O país da anistia ampla, geral e irrestrita. Anistia que, em lei aprovada pelo governo Figueiredo, não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos “oficiais”. Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldade de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.
O Brasil, e isso costuma chocar mais nossos companheiros latino-americanos do que a nós mesmos, é o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar. Para o bem da “paz e harmonia nacionais”, o governo e a sociedade preguiçosa abaixam as orelhas e deixam pra lá. No país da anistia, tudo é perdoado com esquecimento. O que aconteceu deixa de ter acontecido, como se a roda da história se alimentasse de si mesma, num processo autofágico e irreversível.
O custo dessa amnésia tão simpática e conveniente é alto. Esse déficit moral faz com que o brasileiro aceite a idéia de tortura e violência policial como quem come um pastel de carne moída.
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Escrevo esses parágrafos, como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de “Tropa de elite”, na última quinta-feira, no Odeon. Além da equipe do filme e usuais papagaios de pirata, a sessão contou com a presença, in loco, de Harvey Weinstein, criador da Miramax, vencedor de 45 oscars, produtor de blockbusters como “Pulp Fiction” e “Senhor dos Anéis” e, claro, co-produtor de “Tropa de elite”. Weinstein, segundo perfil publicado pela New Yorker, é conhecido como “Harvey mãos de tesoura” pelo seu hábito de interferir na montagem dos filmes que produz. Imagino que não tenha sido o caso.
Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe e que, apesar (e por causa) da pirataria, será um sucesso de bilheteria estrondoso. Ainda poderia escrever que “Tropa de elite” na maior parte do tempo parece um institucional nauseante do BOPE – no final, só faltou o “Aliste-se já!”. Apesar disso, levanta algumas lebres, dá um par de tiros certeiros e deixa pelo menos uma cena na memória – aquela do policial Matias invadindo uma passeata pela paz na PUC.
Ao mesmo tempo, o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelos na história do cinema nacional. O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o BOPE é incorruptível. Só o BOPE, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que “Tropa de elite” reproduz é cristalina.
O problema começa quando esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores. E aí, “Tropa de elite” pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. O público torce pelo herói torturador e mata com ele, tortura com ele, em repetidas cenas à la Abu Ghraib – ou “Guantanamo no Rio de Janeiro”, como disse meu amigo Daniel Alarcón. As celebridades enfiadas em black-tie aplaudem cada porrada, num frisson de adrenalina, e todos se convertem instantaneamente em perfumados torturadores de gabinete.
Depois, é claro, sabe-se que vem o perdão, nossa querida e mui conhecida anistia, para o torturador assassino justiceiro e para nós, apêndices conexos dessa violência, como diz a lei número 6.683. Porque, para o bem da “paz e harmonia nacionais”, os fins justificarão os meios até o (nosso) fim. Enquanto isso, o pastel de carne moída segue descendo bem pela goela de todos. O uísquinho servido em coquetéis de estréia como a de “Tropa de elite” pode ajudar.
domingo, 26 de agosto de 2007
Originalidade - notas dominicais XVI

"Toda vez que Alberto senta para escrever, não consegue desenvolver nenhuma idéia, acha tudo coisa passada, já escrita, sente-se como uma criança montando um quebra-cabeça montado e desmontado milhares de vezes. Alberto imagina todos os outros que já estiveram debruçados em sacadas, olhando para o céu, fumando, tomando decisões idiotas, sem perspectiva. Alberto é ingênuo o suficiente para pretender ser original e acreditar nisso. Escreve por orgulho. Além de talento, falta-lhe vergonha na cara - como tem pânico de morrer, acha que o que escreve pode sobreviver a si mesmo."
(trecho de Corpo presente, romance de João Paulo Cuenca)
domingo, 19 de agosto de 2007
Versão viciada dos fatos - notas dominicais XV

"Essa realidade espelhada me faz temer estar ficando louco de desesperança, como se não conseguisse enxergar além das paredes do cubículo e de um corpo suado. Não há perspectiva alguma além de um emprego barato e uma ou outra foda embebida em álcool. As portas estão fechadas ou abertas demais. Não há sentido pra essa versão viciada dos fatos."
(mais um trecho do romance Corpo presente, obra de João Paulo Cuenca)
domingo, 5 de agosto de 2007
Cemitério de idéias - notas dominicais XIII

"O calor evapora as poças do Baixo Gávea, pra você ver a falta de opção, e copos entornam enquanto mulheres mal depiladas a quarenta e cinco graus olham pra nossa mesa. Eu não aguento mais essa encheção de saco, sabe Alberto? Esse cemitério de idéias, o som vazio de todas essas bocas abrindo e fechando, bebendo e comendo pizzas tão requentadas quanto os seus pensamentos. Você pode sentir o nada sobre a nossa cabeça, é só um enorme murmúrio sem sentido nem direção. Não há o que tirar daqui, não há matéria-prima pra nada, a fonte secou. Toda essa sofisticação babaca e deslumbrada e eu só enxergo aves de rapina comendo merda num deserto estéril."
(mais um trecho do romance Corpo presente de João Paulo Cuenca)
domingo, 29 de julho de 2007
Um dia cai - notas dominicais XII
"É um orgulho estranho, a confirmação de um talento nato pra não trabalhar. Como levar um fora de uma mulher que você sabe que não te merece. Enche um homem de certezas. Não tenho, mas sei que o dinheiro está lá. Existe, espalhado pelos bolsos de quem risca as ruas com carros importados, lota restaurantes, shoppings, bares, hotéis caros, está nos bancos, em barcos, boates, aparelhos de ginástica, maconha da boa, pó, tarjas pretas, eletrodomésticos, vista pro mar, putas de cabelo amarelo; eu posso sentir, eu posso tocar o dinheiro, posso sentir seu cheiro de vestiário, esse cheiro de cu, o tato nojento do dinheiro, o caminho de intestino que o dinheiro faz até nós. Um dia cai no meu bolso. Continuo fazendo o que eu faço, esses empregos de merda, escrevendo isso aqui. Um dia cai. E me abaixo pra pegar."
(trecho de Corpo presente, romance de João Paulo Cuenca)
domingo, 22 de julho de 2007
Auto-sabotagem - notas dominicais XI
"Eu vivo em estado de celebração quando penso em você, e eu sempre estou sempre em você. E pensar em você não pode me fazer sentir mal. Eu nunca me senti sujo. Eu andei pelo subsolo dessa cidade com as figuras mais absurdas, entrei em ruelas, becos, desci escadas apertadas embaixo da terra, pisei descalço em poças imundas, mas eu nunca, nunca, me senti sujo, porque eu estava com você, de uma forma ou de outra. Como se você fosse um tipo de entidade, logo eu que sempre nunca acreditei nessas merdas, Carmen.
Você me segue, eu sei. E de algum jeito ou de outro, você acaba sentindo tudo. Tá no ar, meu amor, e você capta. Não precisa se preocupar. Nunca nenhuma mulher me fodeu como você. E você nunca fodeu como nenhuma delas. Mas isso não importa, Carmen. Nunca importou.
Você percebe que a única categoria de infidelidade realmente existente é a autocometida? No limite, eu só devo fidelidade a uma pessoa. Eu preciso ser sincero comigo mesmo - não posso continuar escondendo coisas de mim. Eu não quero continuar mudando de assunto e driblando pensamentos, ninguém precisa disso. Eu não posso continuar me sabotando. E não há quem me obrigue a não ser sincero. Não pode haver. Eu não preciso do medo de pensar até o limite sujo e viscoso da minha consciência. Eu quero ir além, eu quero ir até onde eu não puder mais e, se você quiser me dar a mão e perder o medo, eu estou aqui, eu vou sempre estar, Carmen."
(trecho do romance Corpo presente, obra de João Paulo Cuenca)
