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domingo, 1 de novembro de 2009

Quer que embrulhe? - notas domênicas

"A prática recombinante, para a indústria cultural, foi banida. Ela é banida a partir do momento que você precisa construir uma lógica mercantil da cultura. Então aquilo que é o estilo basicamente comunitário, comum de uma dada região. Para falar como surge o jazz, o que é preciso fazer? Você tem que começar a especializar os caras que tocam jazz, especializar cada um na sua função. Você precisa dar, cada vez mais, uma lógica de individualidade, de autoria. Você faz isso e a partir desse momento você pode começar a dizer que é importante para a cultura aquele fenômeno que é vinculado à genialidade, e essa genialidade se expressa basicamente numa coisa que é quase mística. 'Eu crio porque eu sou genial'. Eu não tenho nenhum contato com a cultura, ou esse contato é extremamente secundário. Isso acontece também na ciência, mas menos. É tipicamente das artes, porque as artes foram empacotadas e transformadas em mercadorias, e aí você precisa claramente criar uma figura que é acima da cultura, acima do comum, acima da produção coletiva. E essa figura é o autor, que é genial e que cria uma obra completamente original, sem precedentes. Então a indústria cultural está sempre atrás disso."
(trecho da entrevista de Sérgio Amadeu no livro culturadigital.br)

domingo, 30 de agosto de 2009

Lógica da invenção - notas domênicas

"Como você valora o trabalho de um programador, como você sabe que uma proposta criativa vale mais que outra? É muito complicado isso e há uma série de dificuldades para o capital trabalhar com a lógica do trabalho imaterial, mas a mais difícil de todas talvez é que ele não sofre com as restrições de outros bens, não tem escassez e nem desgaste no uso. A questão é eu multiplicar um software, uma música, o custo de eu multiplicar isso para mil ou milhões é similar. O custo marginal da cópia é zero, se resume ao custo do suporte ou do tempo de cópia. É uma outra realidade, isso muda completamente o cenário. Portanto, como ressalta o economista americano Steven Weber, o bem imaterial é chamado de não-rival, ou seja, se eu passo uma cópia desse software pra milhares de pessoas, todas podem usar ao mesmo tempo. Mas o bem imaterial não é só não-rival, é anti-rival, pois é melhor compartilhar porque quanto mais compartilho, mais ele cresce. É o contrário do pneu de carro que quanto mais uso, mais desgaste tenho. Se eu codifico informações e repasso pra centenas de pessoas, a possibilidade de ele melhorar é muito maior do que se ele ficar só comigo. Compartilhar na rede é mais eficiente do que guardar ou competir. Isso coloca em questão a idéia de eficiência na rede e a dificuldade do capitalismo industrial. A lógica da repetição já foi alterada para a lógica da invenção, vale mais ser capaz de inventar do que de reproduzir. Isso, em um ambiente de rede, com compartilhamento de bens imateriais, é mais eficiente do que o bloqueio. A pergunta é: isso vai alterar a lógica de reprodução do capital? Não sei a resposta, porque o capitalismo tanto pode incorporar isso quanto essa lógica pode arrebentar seu núcleo fundamental. É por isso que indústrias como as do copyright atuam de forma tão contundente mundo afora, porque acreditam que, com a força do Estado, vão conseguir inverter essa situação. Estamos vivendo um grande embate entre as forças que apostam no compartilhamento dos bens imateriais e aqueles que querem manter o processo de apropriação privada."
(trecho de uma entrevista de Ségio Amadeu para a Revista Fórum - para ler na íntegra, clique aqui!)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sobre a I Conferência Nacional de Comunicação

Em um post da semana passada, prometi comentar mais sobre a I Conferência Nacional de Comunicação, evento que está previsto para o começo de dezembro deste ano. Pois bem, passo agora algumas informações básica sobre a conferência, através de um mix que fiz de textos retirados do Blog do Sérgio Amadeu e do próprio site da Comissão Nacional Pró-Conferência de Comunicação (quem se dispuser a mais informações, acione-os!), e também de um vídeo informativo disponibilizado no Youtube. Segue:

Durante o Fórum Social Mundial realizado no final de janeiro, em Belém, o presidente Lula defendeu a idéia de uma Conferência Nacional de Comunicação. Reivindicação que surgiu em 2007, a Conferência é defendida pelas Comissões de Direitos Humanos e Minorias e de Ciência e Tecnologia, bem como, por diversas entidades da sociedade civil.

A nota oficial da Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação defende que seus objetivos sejam os seguintes:

1. Identificar os principais desafios relativos ao setor da comunicação no Brasil.
2. Fazer um balanço das ações do poder público na área.
3. Propor diretrizes para as políticas públicas de comunicação.
4. Apontar prioridades de ações governamentais dentro destas diretrizes.

De acordo com o Decreto Presidencial publicado no dia 16 de abril de 2009, a I Conferência Nacional de Comunicação terá como tema “Comunicação: meios para a construção de direitos e de cidadania na era digital” e será realizada nos dias 01, 02 e 03 de dezembro de 2009.

Ela será presidida pelo Ministério das Comunicações e contará com a colaboração direta da Secretaria Geral da Presidência e da Secretaria de Comunicação Social. Na Portaria 185, de 20 de abril de 2009, foram instituídos os órgãos do poder público e as instituições da sociedade civil que compõem a Comissão Organizadora, responsável por regular todos os aspectos da Conferência. Ela é composta por oito representantes do Executivo Federal, dezesseis representantes da sociedade civil, divididos entre entidades do movimento social (7) , organizações do setor privado-comercial (8) e mídia pública (1). Os trabalhos serão encaminhados por meio de três comissões internas: 1) Comissão de Logística; 2) Comissão de Metodologia e Sistematização; e 3) Comissão de Divulgação.


A hora é agora e vamo que vamo...

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Para entender a internet - utilidade pública

Ilustres navegantes, neste blog aqui, tem um link para baixar o Para entender a internet (ilustra ao lado), livro com verbetes relacionados ao ambiente da grande rede que foram escritos por feras como Ronaldo Lemos, Sérgio Amadeu e outros bambas. Vão lá, é de graça!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Feudalismo informacional

Bom, cá estou de volta ao lar de pixels após uma semana de viagem. Conforme tinha informado, fui participar do II Simpósio Nacional de Pesquisadores em Cibercultura, onde apresentei uma pesquisa inicial sobre crônica esportiva na web (texto disponível aqui), tema que venho pensando em desenvolver.
Na verdade, o lado mais teórico da cibercultura nunca foi alvo de grandes investimentos de minha parte. Trabalhei com coisas ligadas a esse universo, mas sempre me esquivei de adentrar em suas questões mais técnicas. Decidi ir ao simpósio justamente para iniciar um contato mais próximo com elas.
Pois bem, vi exposições bem interessantes na função. E entre elas destaco a de Sérgio Amadeu, professor da pós-graduação da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, intitulada Cibercultura, Commons e Feudalismo Informacional. Nela, o expositor mostrou como o controle do conhecimento e o bloqueio de seus fluxos, postos em prática pela política do copyright, têm nos conduzido a uma espécie "feudalismo informacional" - expressão que ele tomou emprestada de Peter Drahos, diretor do Centro para Governança do Conhecimento e Desenvolvimento da Australian National University.
A exposição ainda não foi publicada. No entanto, Amadeu me disponibilizou uma cópia. Só para se ter uma idéia do seu conteúdo, trago aqui um parágrafo de palhinha:

"Para um desavisado, a privatização completa da produção intelectual e o tratamento das idéias como se fossem bens materiais, sem limites para a apropriação privada, poderia soar como algo ultra­ eficiente e hipercapitalista. Drahos e Braithwaite demonstram que o resultado seria completamente adverso e seus efeitos podem ser muito próximos aos impactos econômico do feudalismo. Tal como as guildas que controlavam as atividades profissionais colocando interesses corporativos acima dos demais interesses, o controle privatizado do conhecimento somente feudalizará a economia informacional. Colocará em risco uma das principais fontes da criatividade, o conhecimento público e disponível para sua reutilização e recombinação pela coletividade. É relevante observar que '70% dos artigos científicos citados nas patentes biotecnológicas têm origem exclusivamente em instituições públicas comparado com 16,5% provenientes do setor privado'."(DRAHOS; BRAITHWAITE, 212)

Creio que em breve o autor disponibilizará sua apresentação em forma de artigo. Aguardem. É uma aula imperdível, garanto.


ps.: e já que o tema do post é sobre liberdade para geração de idéias, coloquei no lado direito do blog um link para a petição que rola pelo ciberespaço contra o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Tal projeto visa bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral (mais info no Xô Censura!). Vão lá!