
Minha infância roubada, eis o sentimento. Fui criado no bairro do Arruda, o Santa Cruz está proustianamente em cada parágrafo de minhas memórias. O Mais Querido, o Terror do Nordeste, não merece a situação. Passará, assim como minha vida e a de todos. O Santinha jamais passará.
O silêncio do Terror (texto publicado hoje no Blog do Roberto*)
Hoje, o Recife é uma cidade em silêncio. O povo humilde nas ruas já não canta. A pobreza subitamente ficou mais triste. O Santa Cruz, antigo Terror do Nordeste, acordou quase na Série D do futebol brasileiro. O Mundão do Arruda com sua legião de fiéis está vazio.
Porque o Santa Cruz não é um clube de anéis de diamante. Carros importados. O Santa Cruz não nasceu em berço de ouro. O Santa Cruz é um clube feito de mangue e lágrimas. Mocambos e favelas. Longe dos palacetes de Rosa e Silva. Distante da fortuna da Abdias de Carvalho.
O Santa Cruz é a expressão mais perfeita de uma cidade feita de constrastes. Das pontes que cruzam o Capibaribe, holandesas. Das crianças que moram sob as pontes, africanas. Mas, se resta um consolo aos torcedores que guardaram suas surradas camisas tricolores na saudade. É a certeza de que a torcida tricolor não foi derrotada. Pois a paixão destes abnegados que só pensam no Santa Cruz com o coração permanece invicta.
Derrotados foram os dirigentes que durante décadas se aproveitaram do amor da torcida coral para se elegerem semideuses. Para serem heróis da mídia. Para multiplicarem seus haveres. Estes senhores não possuem a dignidade deste povo que hoje sofre em silêncio. Porque hoje o Recife é uma cidade em silêncio. A pobreza, subitamente, ficou mais triste...
*Roberto Vieira é escritor e blogueiro
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
O Terror do Nordeste
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Dr. E. em desespero

Tem jeito não. Nem fim. Só com o descanso eterno ou com o final dos tempos. É trabalho chato até uma horas, dor de cabeça, de amor, aluguel, fraqueza nas pernas, no juízo... certo tava o velho Graça: vida=angústia. Agora é a vez do trabalho (ruim com ele, pior sem ele) apertar este estranho arremedo de editor-escritor. Aos frequentadores deste pergaminho eletrônico peço licença e compreensão para um ligeiro sumiço. A ôia tá pesadíssima e deve durar até a próxima semana. Mas, não deixem de aparecer, prometo volta triunfal, tal qual um Ulisses do Arruda com fome de tudo...
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Ponto de Parada

Tio,
recebi seu livro ontem a noite. Do que vi e li (algumas crônicas, na verdade, já conhecia), o bom gosto me chamou a atenção. O prefácio, os agradecimentos (a criação sempre será um ato coletivo!), o poema do Bandeira (volta e meia penso nele em meu exílio carioca - o "gatilho" do retorno vive eternamente puxado), a introdução e, sobretudo, a orelha com aquela passagem da experiência de nossa condição familiar diaspórica: recepção, flexibilidade e tradição. Penso que essas três coisas bem misturadas resultam numa sabedoria antropológica indubitavelmente salutar - isto é o que se pode chamar de saúde cultural! (roubo a expresão de Caetano Veloso acerca de Jorge Ben)
Das crônicas que (re)passei o olho, o trecho de um parágrafo me comoveu enormemente:
"Existem dois tipos de heróis: existem aqueles que se tornam heróis porque praticam um ato dramático, trágico ou incisivo de heroísmo num momento particularmente intenso e, desse modo, se consagram e são consagrados, recebem as láureas da fama e as medalhas da glória; mas existem pessoas que diluem o seu heroísmo ao longo da sua vida, na rotina do dia a dia, na capacidade silenciosa para suportar o sofrimento e a renúncia, para impor a sua coragem e obstinação de um modo próprio, coerente. São o que eu chamaria de heróis da rotina. O seu 'defeito' é que possuem uma vocação para a grandiosidade que nem aparece direito, pois a modéstia e a humildade são, igualmente, características suas e impregnam de tal modo os seus atos mais importantes, que chegam a lhes dar a aparência das trivialidades. São pessoas que se parecem, em tudo, em quase tudo, com pessoas comuns (e na verdade são pessoas comuns), porém contêm a fímbria dos fortes, pertencem a uma estirpe superior."
(em "Adeus, suave Raquelzinha")
Qualquer comentário meu do que foi dito acima, tornaria sua interpretação de herói - já tão bem escrita - menor. Esta crônica me alimentou ainda mais o ânimo para a leitura.
Por fim, a capa. De antemão lhe confidencio que não gosto de definições identitárias - acho-as constantemente essencialistas e limitadoras. Mas quando me perguntam o que sou, brinco, tencionando com a verdade, que sou antes de tudo da zona norte de Recife - Encruzilhada, Arruda, Água Fria, o extinto e aqui reverenciado Ponto de Parada... Lembra que foi nesta região, bem perto da fábrica Irmãos Azoubel, que meu pai e sua irmã construíram casa? Vivi nela os meus primeiros dezeseis anos de vida. A fábrica era como se fosse uma extensão do nosso quintal nuclear, eu, meus irmãos e primos, passávamos lá diversas tardes durante a semana. Tanto texto que gasto aqui é para tentar lhe traduzir meu encanto ao ver a foto da capa com o chafariz "menino-mijão sentado no globo" que ficava no jardim da velha fábrica. O mais proustiano (ou seria José Lins?) dos abre-alas, meu tio!
Vou parar por aqui, pois a labuta me chama. Agradeço e parabenizo o senhor pelo trabalho feito com tanto carinho - esse sentimento está explicito em cada pedacinho de papel do livro. Muito me emocionou também ter recebido o envelope que guardava o danado e verificar a procedência ribeirão-pretana, quanto esmero...
Mais uma vez, gratíssimo.
terça-feira, 1 de maio de 2007
Bem-vindo ao mundo Estranho...
Depois de amigos, parentes, personalidades e toda sorte de gente engarrafarem o ciberespaço, lanço a pergunta da clássica piada-Juquinha (quantos anos a enfant terrible teria hoje?) escutada na infância do Arruda, Encruzilhada e adjacências*: "e tem lugar pro meu jipinho?" Pois parece que tem, sopra a velha voz misteriosa. Foi no seu bafo, portanto, após hesitações e queijandos tantos, que surge agora o blog do Dr. Estranho - este mesmo que vos aluga nestas mal-traçadas.
Sem muito arrodeio, a intenção da página é funcionar como um misto de homepage pessoal, disponibilizando permanentemente currículo, textos publicados etc. (localizados no lado direito da interface), e blog clássico, com atualizações frequentes(!) de textos literários e/ou informativos, fotos, vídeos, entre outros atrativos do mundo www.
Visitem, estranhem, comentem e, se for do agrado, reapareçam!
*Para os que não conhecem a zona norte do Recife, vai a nota de rodapé com o melhor de todos os guias:
Jornal da Palmeira de Erasto Vasconcelos (Candeeiro Records, 2005), sensacional tradução contemporânea da África recifense. Maiores informações aqui

