Mostrando postagens com marcador A Louca da Casa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Louca da Casa. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de julho de 2007

Castigo divino - notas dominicais X


"E agora vou propor uma teoria alucinada. Suponhamos que a loucura é o estado primordial do ser humano. Suponhamos que Adão e Eva viviam na loucura, que é a liberdade e a criatividade total, a exuberância imaginativa, a plasticidade. É a imortalidade, porque carece de limites. O que perdemos ao perder o paraíso foi a capacidade de contemplar essa coisa enorme sem nos destruir. 'Se das estrelas chegasse agora o anjo, imponente/ e descesse até aqui,/ as pulsações do meu coração me abateriam', dizia Rilke, que sabia que o ser humano é incapaz de olhar a beleza (o absoluto) cara a cara. O castigo divino foi cair na prisão do nosso próprio eu, a racionalidade manipulável porém empobrecida e efêmera."

(Trecho do livro A louca da casa da escritora espanhola Rosa Montero)

domingo, 8 de julho de 2007

Paredes do mundo - notas dominicais IX


"não acredito somente na eloquência das palavras, mas também na de certos atos; e tenho a sensação de que os comportamentos decentes, por mais que sejam anônimos e passem quase despercebidos, constroem as paredes do nosso mundo. Sem esses atos belos, atos justos, atos bons, a existência seria insurportável."

Trecho de A louca da casa, livro da escritora espanhola Rosa Montero

domingo, 24 de junho de 2007

Irmão gêmeo - notas dominicais VII

"(o escritor) Mark Twain contou a um jornalista que tivera um irmão gêmeo, Bill, com quem se parecia tanto que ninguém podia distingui-los, a ponto de precisarem amarrar fitas coloridas nos pulsos dos dois para se saber quem era quem. Pois um dia os deixaram sozinhos na banheira e um deles se afogou. E como as fitas se haviam desamarrado, 'nunca se soube qual dos dois morrera, Bill ou eu', explicou Twain placidamente ao jornalista."

Ainda do livro A louca da casa, obra de Rosa Montero.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Monstros imaginários


"Talvez a sensação de imortalidade que sentimos quando amamos seja uma intuição do nosso triunfo orgânico; ou talvez seja apenas um truque genético da espécie para nos induzir ao sexo e, portanto, à paternidade (os genes, coitadinhos, ainda não sabem nada de camisinhas e pílulas). Depois, os seres humanos, com essa nossa habilidade para complicar tudo, transformamos a pulsão elementar de sobrevivência no delírio da paixão. E a paixão geralmente não pare filhos, pare monstros imaginários. Ou, o que é a mesma coisa, imaginações monstruosas."

Mais um trecho do livro A louca da casa, obra da escritora espanhola Rosa Montero. Post-homenagem ao dia dos namorados. Aliás, a crônica que este arremedo de editor não foi capaz de escrever para esta data se encontra aqui: A SOLIDÃO NÃO VENDE CELULARES
Ah, velho Reginaldo... mais uma vez derrubastes este pobre miocárdio às avessas...

domingo, 10 de junho de 2007

Substância do mundo - notas dominicais V

"Para mim, a escrita é um caminho espiritual. As filosofias orientais preconizam uma coisa parecida: a superação dos limites mesquinhos do egocentrismo, a dissolução do eu na torrente comum dos outros. Só transcendendo a cegueira do individual podemos entrever a substância do mundo."

Rosa Montero em A louca da casa

domingo, 3 de junho de 2007

Peixes abissais - notas dominicais IV


"Já redigi muitos parágrafos, inúmeras páginas, incontáveis artigos enquanto estou passeando com meus cachorros, por exemplo: na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um verbo por outro, afinando um adjetivo. Muitas vezes escrevo mentalmente a frase perfeita e volta e meia, se não anoto a tempo, ela me escapa da memória. Resmunguei e me desesperei muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exatas que por um momento iluminaram o interior da minha cabeça e depois tornaram a mergulhar na escuridão. As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas em meio às águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que você não consiga pescá-las de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela."

Rosa Montero em "A louca da casa", leitura da semana.