"Urubu come carniça
E voa."
Miró, poeta do Recife (epígrafe roubada de Rasif, novo livro de contos de Marcelino Freire)
domingo, 21 de dezembro de 2008
Aditivado - notas domênicas
quarta-feira, 25 de junho de 2008
100 Trindade (eraOdito)
Em meio as comemorações do centenário de morte de Machado de Assis, passou em branco os 100 anos de nascimento do poeta Solano Trindade completados ontem. Não para o escritor Marcelino Freire, que no seu eraOdito (blog de primeiríssima!) lhe dedicou a homenagem que transcrevo abaixo.
Dois vivas para os dois!!
100 TRINDADE
Beirei-me à tarde lembrando dos cem anos, hoje, do poeta Solano Trindade. Nascido negro, em 1908, na cidade do Recife. E aí pensei em artistas assim: como o Pernalonga. Que morreu por falta de socorro. Explico: era ator marginal de Olinda. Portador do vírus da AIDS. Fazia campanha de prevenção e todo mundo sabia. Da sua alegria doente. Foi assaltado-esfaqueado, de repente. E mingüou em uma das ladeiras de Olinda. Sangrou sem ajuda. O povo não queria ser contaminado. Deixaram-no, feito cachorro, morrer. Mas por que estou rosnando isto? Em dia tão festim-festivo? Repito: centenário do Solano. E eu recordando alguns versos do pernambucano, gingados-recitados, outrora, pelo Pátio de São Pedro. Pelos meus amigos atores, como o Pernalonga. Por escritores teimosos de minha terra. E aí vem outra imagem: a do poeta Miró. Do bairro da Muribeca. Este, uma vez espancado porque estava sorrindo, sozinho, a caminho de casa. Por que este riso na cara? E a polícia caiu de pau. E Miró hoje tem uma poesia visceral. Cantada de dor. Rasgada. E tanta coisa chega à minha caixola. Morro da Providência. Sem providência. Esse meu coração abobalhado. Demagógico. Sei, sei. Ora, ora. Memorializo o tempo em que eu fazia teatro no bairro cariado de Água Fria. E da professora Ilza Cavalcanti que disse-me um dia: "você tem futuro". Quando eu escrevia coisa sem vida. Branca pele pálida. E aí vim para São Paulo. Desde 91. E sempre me indagam de onde vem este meu som inflamado. Esses meus contos-descasos. Descamisados parágrafos. E eu lembro do Solano. E do Bandeira, em outra beira. De beco. Tuberculoso. E eu sinto saudades e raiva. E aí eu penso em tanta gente por aqui. Dentro da cidade de São Paulo. Sérgio Vaz, por exemplo. E eu saúdo o Solano. No exibido ano do Machado. E eu deixo aí embaixo um poema do Trindade. E mais não deixo. Talvez um beijo e aquelabraço. Fui.
Gravata Colorida (S.T.)
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Referências bibliográficas
A farra já se distancia uns dois dias, pero (el portunhol selvagem se deve a ela) minhas mãos ainda tremem ao tentar equilibrar café e cigarro. Definitivamente, não sou mais um profissional. Tento me recompor através da ôia, do batente que me põe a comida na barriga, pero, una vez más, estoy como un náufrago. Entremear patuscada e obrigação é como um sonho interrompido por guilhotina, para a qual você é empurrado com o gosto de angu de sangue ainda na boca...
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Este final de semana rolou no Rio o evento literário "Popular" organizado pelo gaúcho Paulo Scott (outras edições já tinham ocorrido em POA e Sampa). Na ocasião, tive o prazer de conhecer Joca Reiners Terron, de quem já conhecia suas duas pérolas: a musa - nossa princesa do Cariri! - e a literatura, e Marcelino Freire, cujo Contos negreiros é o desejo de quem quer fazer da arte da escrita uma coisa popular nesse país. Dois salves e muitíssimo prazer! E ainda sobrou dois dedos de prosa com João Paulo Cuenca, autor que já conhecia de Corpo presente, pelo livro e por uma mesa que mediei certa vez na Puc-Rio. É de Cuenca a crônica que compilo abaixo, publicada n'O Globo de hoje e que diz respeito ao filme tratado no penúltimo post deste blog. Classe A, confiram!
Tropa de elite: Osso duro de roer
Se precisasse definir o Brasil numa frase, diria que é o país do perdão. O país da anistia ampla, geral e irrestrita. Anistia que, em lei aprovada pelo governo Figueiredo, não somente livrou a cara dos perseguidos pela ditadura entre 1964 e 1979, mas que também abriu as asas da liberdade aos perseguidores e criminosos “oficiais”. Neste país de consciência livre, estupradores, torturadores e assassinos hoje jogam peteca na praia de Copacabana e curtem sua tranqüila aposentadoria. Depois de encher os bolsos, mandar bater e lotear estatais por duas décadas com sobrinhos com dificuldade de aprendizado, os milicos têm a vida que pediram a Opus Dei.
O Brasil, e isso costuma chocar mais nossos companheiros latino-americanos do que a nós mesmos, é o país mais atrasado do continente quando se fala em punir os responsáveis pelos abusos cometidos pelo regime militar. Para o bem da “paz e harmonia nacionais”, o governo e a sociedade preguiçosa abaixam as orelhas e deixam pra lá. No país da anistia, tudo é perdoado com esquecimento. O que aconteceu deixa de ter acontecido, como se a roda da história se alimentasse de si mesma, num processo autofágico e irreversível.
O custo dessa amnésia tão simpática e conveniente é alto. Esse déficit moral faz com que o brasileiro aceite a idéia de tortura e violência policial como quem come um pastel de carne moída.
***
Escrevo esses parágrafos, como vocês devem imaginar, movido pela experiência de assistir à pré-estréia de “Tropa de elite”, na última quinta-feira, no Odeon. Além da equipe do filme e usuais papagaios de pirata, a sessão contou com a presença, in loco, de Harvey Weinstein, criador da Miramax, vencedor de 45 oscars, produtor de blockbusters como “Pulp Fiction” e “Senhor dos Anéis” e, claro, co-produtor de “Tropa de elite”. Weinstein, segundo perfil publicado pela New Yorker, é conhecido como “Harvey mãos de tesoura” pelo seu hábito de interferir na montagem dos filmes que produz. Imagino que não tenha sido o caso.
Poderia entrar no mérito exclusivo do filme e dizer que é impecável no que se propõe e que, apesar (e por causa) da pirataria, será um sucesso de bilheteria estrondoso. Ainda poderia escrever que “Tropa de elite” na maior parte do tempo parece um institucional nauseante do BOPE – no final, só faltou o “Aliste-se já!”. Apesar disso, levanta algumas lebres, dá um par de tiros certeiros e deixa pelo menos uma cena na memória – aquela do policial Matias invadindo uma passeata pela paz na PUC.
Ao mesmo tempo, o filme é de um reacionarismo que talvez não tenha paralelos na história do cinema nacional. O texto é claro como pó de mármore: o tráfico de drogas é um câncer, a elite branca é hipócrita, a PM é corrupta, e o BOPE é incorruptível. Só o BOPE, através de seus imaculados princípios, nos salvará das trevas. E para isso, tem certas licenças nada poéticas – a tortura é a principal delas. Eles, que são puros, fazem o serviço sujo que nós, hipócritas de classe média, não encaramos. A lógica do discurso policial que “Tropa de elite” reproduz é cristalina.
O problema começa quando esse monstro disforme chamado opinião pública faz uma leitura do filme que corrobora esses métodos e valores. E aí, “Tropa de elite” pode perigosamente entrar para a história como o filme da geração “Cansei”. O público torce pelo herói torturador e mata com ele, tortura com ele, em repetidas cenas à la Abu Ghraib – ou “Guantanamo no Rio de Janeiro”, como disse meu amigo Daniel Alarcón. As celebridades enfiadas em black-tie aplaudem cada porrada, num frisson de adrenalina, e todos se convertem instantaneamente em perfumados torturadores de gabinete.
Depois, é claro, sabe-se que vem o perdão, nossa querida e mui conhecida anistia, para o torturador assassino justiceiro e para nós, apêndices conexos dessa violência, como diz a lei número 6.683. Porque, para o bem da “paz e harmonia nacionais”, os fins justificarão os meios até o (nosso) fim. Enquanto isso, o pastel de carne moída segue descendo bem pela goela de todos. O uísquinho servido em coquetéis de estréia como a de “Tropa de elite” pode ajudar.
