"Algum artista contemporâneo se assumiria como sendo de direita, neoliberal, pró-'mão invisível do mercado' etc? Duvido muito. Como é comum no Brasil, quer-se o melhor de dois mundos: a atitude de esquerda e a prática de direita, e os benefícios de ambas. Para o sistema, o que importa é que as torneiras continuem abertas."
(Luciano Trigo no livro A grande feira)
domingo, 18 de julho de 2010
Torneiras abertas - notas domênicas
domingo, 4 de julho de 2010
Mercado de estrelas - notas domênicas
"Não é à toa que a idéia do 'fim da arte', intelectualmente tão atraente, é mais ou menos contemporânea da idéia do 'fim da História', lançada por Francis Fukuyama. No livro O fim da História e o último homem, o triunfo do liberalismo capitalista foi apresentado como o encerramento da luta imemorial por uma sociedade mais justa e estável. Ou seja, o fim da história nada mais seria que a interrupção da busca histórica por um mundo melhor. Na arte, acontece o mesmo: o sistema neoliberal está satisfeito com a circulação permanente de modelos velhos em novas roupagens, que faz funcionar o mercado de compra e venda de obras e de estrelas."
(Luciano Trigo em A grande arte)
domingo, 27 de junho de 2010
A arte da Caninha 51 - notas domênicas
"Até o final do Modernismo a criação de uma obra de arte implicava uma prática que envolvia técnica, duração, reflexão sobre fundo e forma, diálogo verdadeiro com as referências históricas. A obra acabada era resultado de todos esses elementos. O pós-moderno rejeita essa concepção da arte, deslocando o valor estético para o conceito, no sentido publicitário da palavra: a sacada, a boa idéia. É a arte da Caninha 51 (expressão de Ferreira Gullar)."
(Luciano Trigo no livro A grande feira)
domingo, 20 de junho de 2010
Puro valor de troca - notas domênicas
"Não se pode mais dizer que está em curso um projeto imperialista americano. O próprio mercado que virou uma entidade autônoma: à hegemonia neoliberal globalizada corresponde uma hegemonia cultural, que pede uma arte neutra, sem fronteiras, transnacional, uma Word Art, um international style. Porque assim fica mais fácil reduzir a arte a puro valor de troca. Se, antes, o elitismo na arte estava ligado ao saber, ao domínio de um código de interpretação, hoje o elitismo é baseado na posição social e na senha da conta bancária. Colecionar arte contemporânea é ser reconhecido como integrante de uma elite, da mesma forma que aparecer numa fotografia na Ilha de Caras."
(Mais um trecho de A grande feira, livro de Luciano Trigo)
domingo, 13 de junho de 2010
Revolução conservadora - notas domênicas
"O que vem acontecendo na arte contemporânea é uma revolução conservadora. Não no sentido político estrito, já que diversas manifestações artísticas têm a pretensão de um conteúdo 'de esquerda', mas sim por reverter processos emancipatórios que a arte moderna deflagrou."
(trecho de A grande feira, livro de Luciano Trigo)
domingo, 6 de junho de 2010
Artista como valor de troca - notas domênicas
"Os discursos da arte contemporânea se afinam cada vez mais com o discurso das grandes corporações globalizadas, que promovem a mobilidade, a interconectividade, a ausência de fronteiras e a produção imaterial como os valores que definem a noss época. Os artistas reproduzem e reforçam assim o espírito da globalização neoliberal, cujos principais efeitos têm sido a mercantilização das relações humanas, a ausência de alternativas políticas e a desvalorização do trabalho. Conformados com a impossibilidade pós-moderna de qualquer projeto transformador (como foi o Modernismo), os artistas alimentam a alienação do público e se tornam eles próprios sujeitos alienados, incapazes de refletir criticamente sobre o sistema em que estão inseridos. O mercado reduz a obra de arte e o artista a valores de troca."
(trecho de A grande feira, livro de Luciano Trigo)
domingo, 23 de maio de 2010
A inconsciência alienada do próprio papel - notas domênicas
"Todos os movimentos de vanguarda do século XX que resistiram à prova do tempo - e foram vários - devem boa parte do seu êxito ao fato de terem mobilizado a sociedade em debates produtivos, porque estavam associados a transformações sociais, culturais, psicológicas e tecnológicas que tinham um impacto direto nas vidas das pessoas.
A vanguarda moderna podia ser elitista, prescritiva e utópica, mas ao menos acreditava que um dia seria entendida pela sociedade à qual servia de precursora e guia – e à qual desafiava sempre, tentando abalar a ordem estabelecida. Acreditava-se que a arte era fundadora de sentido. Desfeita essa ilusão, ao artista contemporâneo só resta o cinismo - ou a inconsciência alienada do próprio papel."
(Luciano Trigo em A grande feira)
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O antropófago descolonizado
Beleza de entrevista com Zé Celso Martinez Corrêa na edição de dezembro da revista Fórum, confiram!
domingo, 15 de novembro de 2009
Beethovens - notas domênicas
"O que pode ser repensado é o estatuto da noção de criação, não para dizer que não é mais possível criação, mas para redefini-la de uma maneira criativa, digamos assim. Temos que criar um outro conceito de criação. Trabalhamos atualmente com um conceito, por um lado, velho como o cristianismo (criação bíblica) e, por outro lado, com o do romantismo, a criação como manifestação, emanação de uma sensibilidade sui generis do indivíduo privilegiado. Esses dois modos de conceber a criação não dão mais conta do que está se processando nesse mundo atual. Está havendo tanta criação quanto havia antes, não creio que esteja havendo menos. O que houve foi uma mudança das condições. Mudaram as condições de criação, mudaram as condições de distribuição. Mas Beethoven não vai aparecer de novo, não porque um gênio como Beethoven não pode aparecer de novo, não é esse o problema. Pode aparecer com certeza, se é que já não há um milhão deles por aí, talvez tenha muito mais do que naquela época, já que há muito mais gente no planeta. O que não existe são as condições iguais às que tinha Beethoven para ser um Beethoven. As condições de restrição do ambiente cultural da Europa, o tipo de formação cultural que existia, o tipo de tradição de transmissão da informação. Os 'Beethovens' de hoje tão fazendo outra coisa, não sei o quê exatamente. A criação artística está ficando cada vez mais parecida com a criação científica, que sempre foi um trabalho em rede, em que você trabalha em cima do trabalho dos outros, que exige todo um aparato institucional complexo de produção propriamente coletiva."
(outro trecho da entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no livro culturadigital.br)
domingo, 8 de novembro de 2009
Pequenas divindades românticas - notas domênicas
..."toda nossa teoria da criação é a de que existe uma oposição radical, uma oposição intransponível entre criação e cópia. O criar e o copiar são os dois extremos de um processo, quer dizer, o criador é aquele que precisamente tira de si tudo o que precisa, e o plagiário é aquele que tira dos outros. O plagiário é um saqueador, e o criador é o doador absoluto. A dádiva é uma modalidade da criação, a criação é uma modalidade da dádiva, talvez a criação seja a dádiva pura, e aí você vê bem as raízes teológicas desse modelo: Deus criou o mundo do nada, tirou de si mesmo. A criação é o modelo do poeta, do criador como uma divindade no seu próprio departamento, que é o modelo romântico do gênio como um criador, um pequeno deus, uma pequena divindade, que tira de si mesmo a criação."
(trecho da entrevista do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro no livro culturadigital.br)
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
"Mais fortes são os poderes do povo!" - notas domênicas
"Quando o governo 'facilita as coisas' para as grandes empresas em nome do povo, ou quando as multinacionais fantasiam seu interesse comercial em nome da cultura, cabe ao povo mostrar até que ponto está disposto a tolerar o poder incontrolável das grandes empresas. Quando outros meios democráticos são ineficazes, são as pessoas que têm o poder coletivo de resistir."
Uma derradeira da Chin-Tao Wu no seu Privatização da Cultura.
domingo, 16 de agosto de 2009
Diz, Artista! - notas domênicas
"Se renunciar à 'Arte' é difícil para alguns, é por que talvez ainda não se tenha entendido que a entrega à vida (ou à 'realidade', como alguns preferem chamar) não significa a nulificação do estético.
Muito pelo contrário, o 'artista' aqui é o pensador, o criador de estratégias de ação, o arquiteto de atos que vão reverberar - a intensidade desta reverberação é claro que dependerá dos meios, finalidade e impactos planejados - nesta mesma 'realidade'. Daí então a importância do conceito, desta mesma herança conceitual de que parte da arte brasileira é tão rica, e que tem sido esquecida faz tempo.
Ações pontuais e absolutamente despretensiosas, como a mudança do nome da avenida Roberto Marinho para avenida Vladimir Herzog, pelo Centro de Mídia Independente, em São Paulo, no ano passado, podem não passar por 'Arte' nos cânones vigentes, mas seu poder simbólico é tal que serve para inspirar mais táticas conceituais que desmantelem o arcabouço mental dominante.
Se a arte conceitual tradicional transformou em 'Arte' a rua e os elementos incompatíveis, temporários e cotidianos, atualmente o sentido não é transformar esses lugares e coisas em 'Arte', mas diluir-se 'com arte' neles, ressignificando-os, ressimbolizando-os, efetuando uma transformação subjetiva ou real, semiótica, mitopoética, social ou ritual."
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"Tentativas de trabalhar com comunidades desfavorecidas podem ter diversas nuances possíveis de abordagem, e nisso muito do que é chamado lá fora de 'community art' ou 'new genre public art' pode ter algo a informar. O risco de uma visão simplificada como 'trabalho de ONG' é algo que se corre, mas nada que uma estratégia conceitual bem arquitetada ou uma 'criatividade de artista' não possa solucionar."
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"Brasileiros costumam às vezes ser muito auto-centrados, muito voltados para si mesmos. Em que pese certa elite ser excessivamente internacionalizada ou eurocêntrica, como boa parte do meio acadêmico, grupos mais à margem costumam manter certa distância ou desconhecimento intencional das ações de grupos de fora."
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Trechos do artigo Notas sobre o coletivismo artístico no Brasil, de Ricardo Rosas. Para lê-lo na íntegra, basta clicar aqui!
domingo, 9 de agosto de 2009
"Arte é sexy!" - notas domênicas
"Ser visto como patrono das artes é parte de um estilo de vida distinto exigido e sancionado no interior desse estrato 'sofisticado' da sociedade. O exercício da alta cultura tornou-se uma parte cada vez mais importante da atividade social: é principalmente nos eventos artísticos exclusivos que a elite empresarial e política se reúne e se reconhece. Não é surpresa que os nomes dos executivos estejam sempre associados ao patrocínio das artes nas reportagens da mídia. Sem meias palavras, há um grão de verdade no comentário cínico de Thomas Hoving: 'Arte é sexy! Arte é dinheiro-sexy! Arte é dinheiro-sexy-ascenção-social-fantástica!'"
Da taiwanesa Chin-Tao Wu (foto ao lado) em Privatização da Cultura.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Libres! (em cima da hora!)
Começa hoje pela manhã na Torre Malakoff no Recife o Libres, evento multimídia de arte e tecnologia que contará com a participação de artistas e desenvolvedores nacionais e internacionais. Na função serão realizados debates, desconferências, oficinas e performances. Para mais infos é só clicar no nome do evento escrito acima ou na imagem ao lado. Apareçam que vale a pena!
terça-feira, 21 de julho de 2009
A arte da democracia
Apenas 13% dos brasileiros freqüentam cinema pelo menos uma vez por ano;
92% nunca entraram num museu;
93,4% jamais frequentaram uma exposição de arte;
78% nunca assistiram a um espetáculo de dança, embora 28,8% saiam para dançar regularmente;
90% dos municípios brasileiros não possuem pelo menos um desses equipamentos: salas de cinema, teatro, museu ou espaços culturais multiuso;
600 municípios brasileiros não possuem qualquer tipo de biblioteca (405 deles ficam no Nordeste e apenas 2 no Sudeste);
1,8 livro per capita/ano é a média de leitura do brasileiro (contra 2,4 na Colômbia e 7 na França);
25 reais é o preço médio do livro de leitura corrente no país;
56,7% da população ocupada na área de cultura não têm carteira assinada.
Os números acima são do IBGE...
domingo, 19 de julho de 2009
Arte s/a - notas domênicas
"...a intervenção do mundo dos negócios nas artes deve ser vista e entendida em termos do poder político no interior do Estado moderno, que pode ser criado e controlado de muitas formas diferentes - a influência cultural é apenas um dos meios à mão para chegar a esse fim. Em virtude de sua riqueza privada, as corporações, bem como seus principais executivos individualmente, exercem considerável poder e influência na sociedade. O interesse nas atividades culturais, em particular quando são publicamente endossadas pelo governo, deve ser visto como parte de uma estratégia global para reunir o poder econômico privado e a autoridade cultural pública. Isso é feito com a expectativa de que o capital cultural assim criado possa, no devido tempo e na conjuntura adequada, transformar-se em poder político para atender, abertamente ou não, o interesse específico dessas corporações."
Pedrada da taiwanesa Chin-Tao Wu em Privatização da Cultura, livro de cabeceira do momento (Editora Boitempo, capa ao lado).
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
E de que lado você samba?
Em minha atual odisséia livresca, hoje me deparei com esta que é das maiores questões do pensamento ocidental, senão a maior. Um verdadeiro Fla x Flu do juízo, que revela interpretações de vidas, que divide nossos combalidos espíritos nos binômios idealista/materialista, direita/esquerda, arte/cultura e tantos outros pares existenciais/conceituais. Tava lá no velho livro Teoria da Literatura do crítico Rene Wellek, na forma do problema estético:
"Em certo sentido, poder-se-ia dizer que o problema, no campo da estética, se situa entre a concepção que afirma a existência de uma 'experiência estética' isolada, irredutível (reino autônomo da arte), e a concepção das artes como instrumentos da ciência e da sociedade, que nega a existência de um tertium quid como 'valor estético'."
Para os simpatizantes da primeira concepção, da arte pela arte, trago um ótimo trecho que encontrei por esses dias do poeta francês Théophile Gautier (influenciou um tal de Baudelaire), que no seu romance Mademoiselle de Maupin escreveu:
"Não há verdadeiramente belo senão o que não pode servir para nada; tudo o que é útil é feio, porque é a expressão de qualquer necessidade, e as necessidades do homem são ignóbeis. - O local mais útil de uma casa, são as latrinas."
Aos devotos da segunda, ofereço a fina ironia de Terry Eagleton, botando a literatura na berlinda no seu Teoria da Literatura: uma introdução:
"A literatura foi, sob vários aspectos, um candidato bem adequado a essa empresa ideológica (a de substituir a religião na passagem da sociedade feudal para a moderna-capitalista). Como atividade liberal, 'humanizadora', podia proporcionar um antídoto poderoso ao excesso religioso e ao extremismo ideológico. Como a literatura, tal como a conhecemos, trata de valores humanos universais e não de trivialidades históricas como as guerras civis, a opressão das mulheres ou a exploração das classes camponesas inglesas, poderia servir para colocar numa perspectiva cósmica as pequenas exigências dos trabalhadores por condições decentes de vida ou por um maior controle de suas próprias vidas; com alguma sorte, poderia até mesmo levá-los a esquecer tais questões, numa contemplação elevada das verdades e das belezas eternas."
E então, de que lado você samba?
