Mostrando postagens com marcador Marcel Proust. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcel Proust. Mostrar todas as postagens

domingo, 16 de novembro de 2008

Câmera secreta de tortura - notas dominicais

"Ele jamais lhe falou dessa desventura, e até mesmo parou de pensar no assunto. Mas, de quando em vez, seus pensamentos vagantes se deparavam com essa lembrança, quieta, despercebida, despertavam-na e faziam com que ela revivesse, surgindo no seu consciente, causando-lhe uma dor cortante e profunda. Como se fosse uma dor física, a sensação não podia ser aliviada pela mente de Swann; mas, ao menos no caso de dor física, por ser independente da mente, esta pode sobre ela se deter, perceber que diminuiu, que, por um momento, parou. Mas, nesse caso, a mente, ao relembrar a dor, conseguiu recriá-la. Decidir não pensar na dor era o mesmo que nela pensar, por ela ainda sofrer. E quando, em conversa com os amigos, ele se esquecia da dor, de súbito, uma palavra dita casualmente provocava-lhe uma alteração de fisionomia, como um homem cujo membro ferido é tocado por mão canhestra. Quando deixou a companhia de Odette, ele estava feliz, sentia-se calmo, lembrava-se dos seus sorrisos, da troça sutil, quando falava de fulano ou beltrano, da ternura para consigo mesmo; lembrava-se da gravidade da cabeça dela, que parecia retirada do eixo para pender e rolar, como que voluntariamente, sobre os lábios dele, conforme ela fizera naquela primeira noite, na carruagem, os olhares lânguidos que ela lhe dirigira, enquanto estava em seus braços, apoiando a cabeça sobre o próprio ombro, como quem se encolhe de frio.
Mas, de repente, o ciúme, como se fosse a sombra do seu amor, apresentou-lhe o complemento, a familiaridade daquele novo sorriso com que ela o saudara naquela noite - e que, agora, de modo perverso, zombava de Swann e brilhava de amor por outro - da cena da cabeça pendida, agora afundando em outros lábios, todas as manifestações de afeto (agora dirigida a outro) que ela lhe demonstrara. E todas as lembranças voluptuosas que ele levou da casa dela, por assim dizer, tantos esboços, rascunhos como os que um decorador submete ao cliente, permitindo a Swann formar uma idéia das diversas atitudes, flamejantes ou lânguidas de paixão, que ela adotaria com outros. O resultado foi que ele passou a deplorar cada satisfação que desfrutava em sua companhia, cada nova carícia da qual ele cometera a imprudência de apontar-lhe o prazer, cada novo encanto que encontrava nela, pois sabia que, em algum momento mais tarde, tudo isso enriqueceria a coleção de instrumentos de sua câmera secreta de tortura."
(Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido)