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domingo, 2 de maio de 2010

Sem chance - notas domênicas

"Toda cultura é cultura de classe"
(José Ramos Tinhorão em depoimento para matéria de Luiz Fernando Vianna, Publica da no caderno Mais!(FSP, 25/04/10), mostando-se mais interessante do que eu pensava. Para ler o texto na íntegra, clique aqui)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O "X" da questão do pixo

Segue nesse link ótima entrevista com o curador Moacir dos Anjos que foi publicada hoje nas folhas dos Frias.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tudo como antes no quartel do Abrantes!

Ana Hickmann apresentará evento tucano

O PSDB contratou a apresentadora e modelo Ana Hickmann para apresentar o evento que lançará a pré-candidatura à Presidência do ex-governador José Serra (PSDB-SP).

Amanhã, as legendas de oposição -PSDB, DEM e PPS- farão em Brasília o chamado "Encontro de Partidos", que na prática lançará Serra na disputa presidencial. Os organizadores esperam levar cerca de 3.000 simpatizantes ao evento. (Folha de São Paulo, 09/04/10)

É o ou não é a cara do PSDB?

quarta-feira, 24 de março de 2010

Que oposição, hein!?

Oposição "clona" emenda de petrolíferas
da Folha Online

Três deputados federais de oposição apresentaram separadamente emendas aos projetos do pré-sal que, além de coincidirem com os interesses das grandes empresas do setor petrolífero, têm redação idêntica, segundo reportagem de Ranier Bragon, Fernanda Odilla e Valdo Cruz, na edição da Folha desta sexta-feira (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

As propostas foram apresentadas pelos deputados José Carlos Aleluia (DEM-BA), Eduardo Gomes (PSDB-TO) e Eduardo Sciarra (DEM-PR). Segundo a Folha, as emendas clonadas eram parte de versões preliminares preparadas por petrolíferas e repassadas aos deputados por consultores e representantes de empresas. Entre as modificações em relação ao projeto do governo está a de que a Petrobras não seja a operadora exclusiva dos campos.

"O IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo), que reúne as principais empresas do setor, confirmou que procurou em Brasília lideranças de oito partidos, entre quarta e ontem, mas negou a autoria das emendas 'clonadas', embora o teor coincida com o que o setor defende", diz a reportagem.

No último dia 8, o presidente do IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo), João Carlos de Luca, afirmou que a exploração dos reservatórios pós-sal localizados nas regiões sujeitas à nova regulação proposta pelo governo para o pré-sal pode ser prejudicada.

Para ele, a Petrobras, que será operadora única dos blocos, poderia não ter interesse em explorar um poço com capacidade menor diante de possibilidades mais rentáveis no pré-sal. "O (petróleo do) pré-sal não é definido no projeto. O que é definido é a área do pré-sal", disse De Luca durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Pelo projeto de lei enviado ao Congresso estarão sujeitas às novas regras a exploração e produção nas áreas do pré-sal e estratégicas. As demais áreas continuam sob regime de concessão.

O novo marco regulatório propõe um modelo de partilha, que deixa nas mãos do Estado uma parcela da produção. As novas regras, se aprovadas, também dão à Petrobras o monopólio da operação dos reservatórios com uma parcela mínima de 30% em cada bloco.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Contra a unanimidade bem comportada

O homem comum

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O que falta em mim é o medo que está por trás da unanimidade bem comportada
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COMO DIZIA o filósofo alemão Franz Rosenzweig (1886 -1929): "Hoje só me interessa o que as pessoas comuns me perguntam". Como ele, não me interessa mais me esconder atrás de alguma teoria pra negar minha insegurança. Segundo o crítico literário canadense Northop Frye (século 20), muitos acadêmicos são pessoas inseguras que se escondem atrás de teorias porque não são capazes de falar em primeira pessoa. Sendo medrosos e pouco criativos, morremos de medo da opinião dos pares. Ao final, o que importa é o corporativismo e o aniquilamento dos desafetos.
Sei que o leitor irritado pensa que sou um elitista. Reconheço minha culpa, minha máxima culpa: tenho dado razão pra que você pense assim. Mas, como diz um personagem interpretado pelo ator Harrison Ford no filme "Divisão de Homicídios", quando é chamado por um subalterno de "sir": "Don't call me sir, I work for living" (não me chame de "sir", eu trabalho pra sobreviver).
Esse é o meu caso, sou um nordestino, entre tantos, que veio pra São Paulo e aqui me virei como pude, fazendo contas todo mês e lidando com medos e crises repetidas de baixa autoestima ao longo do caminho. Como todo mortal, faço o que posso diante da opacidade do mundo e da mentira geral que permeia a ordem das coisas.
Mas não sou um pessimista. Existe a beleza e a generosidade no mundo, elas se misturam a tudo mais, como o ouro se mistura ao lixo, à lama e à violência do garimpo. O próprio fato de que hoje estou aqui falando com você é a prova cabal de que não posso negar a felicidade e o sucesso que existem como possibilidade na vida dos homens comuns.
O que a leitora indignada não entende é que não compactuo com a repressão que hoje tende a destruir o pensamento livre em nome dos ofendidos. Mas não pense que, por isso, eu acredite que esteja "construindo um mundo melhor", porque não compactuo com esta ditadura dos ofendidos. Não acredito num mundo melhor. Como diz meu filho médico de 26 anos: "O sofrimento é uma constante, quando sai de um lugar, aparece em outro". O fato de eu não compactuar com a mentira do bom-mocismo é, em mim, uma condição quase fisiológica, sai como um grito de horror incontrolável. Não é uma virtude, é um vício. É uma dor que pede alívio imediato.
Quer exemplos de máximas que me fazem urrar de dor? "Todos os homens são iguais e legais", "não diga coisas que façam as pessoas desacreditarem em si mesmas", "o mal é uma construção social e não uma constante da natureza humana", "não existem culturas melhores do que outras", "jornalistas de respeito não falam coisas feias em seus artigos", "as mulheres não estão solitárias em suas carreiras profissionais bem-sucedidas", "os homens modernos não sentem que são manipulados pelas mulheres, agora emancipadas, mas que continuem a fazer chantagens emocionais como suas avós faziam pra submetê-los a sua vontade dominadora", "a natureza é uma mãe".
O que falta em mim é o medo que está por trás da unanimidade bem comportada. Não tenho medo que usem contra mim clichês bobos como machista, elitista, fascista, racista. Não sou nada disso, como todo brasileiro, sou uma mistura de europeu, índio e negro. Como todo mundo, tenho alguns preconceitos e quem diz que não os têm são os verdadeiros preconceituosos.
Vou continuar a falar coisas que a ditadura dos ofendidos detesta e eles vão continuar a tentar destruir a liberdade de pensamento, mesmo que se digam defensores da democracia. Se existe alguma democracia defendida pela ditadura dos ofendidos é a democracia da mediocridade, do silêncio e do medo.
Quando falo em pessoas comuns, penso no homem comum do livro "O Homem Comum", de Philip Roth. Penso naquele homem ou naquela mulher que, quando vai ao cemitério e vê um caixão baixando ao solo, inevitavelmente sente um frio na barriga e um desespero na alma. Penso naquela mulher que se vê abandonada depois de anos de dedicação a um homem só porque chegou aos 40 anos e porque não consegue mais sorrir tão fácil. Penso naquele homem que sabe que sua vida está pendurada por uma corda que aperta seu pescoço cada vez que os juros do seu cartão de crédito sobem. Penso naquele idoso que não vê mais seus filhos porque envelheceu pobre.
Penso, enfim, em você, aí sozinho, tomando café da manhã, sonhando com um amor que não existe, com uma família perdida e com um sucesso efêmero como o vento. Imerso na solidão de todos nós.

(Texto do Luiz Felipe Pondé publicado na Folha se São Paulo de ontem, 01/02/10)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Ilustrada é nossa!

Na sequência da crítica do novo disco de Otto, a Folha de São Paulo publica hoje matéria e crítica sobre mais um fenômeno musical pernambucano:

João do Morro conquista o Nordeste
THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

Junte na mesma canção pagode, samba, funk e afoxé. Tempere com letras que retratam pequenos fatos do cotidiano com humor afiado. Bem, assim é João Pereira da Silva Júnior. Aos 32 anos, ele adotou o nome João do Morro e é hoje um dos principais nomes da borbulhante cena de Recife.
João do Morro faz cerca de 20 shows por mês na capital pernambucana, suas apresentações estão documentadas e (bem) visualizadas no YouTube e ele lançará o primeiro disco "oficial" em 14 de dezembro.
"Oficial" entre aspas porque nas carrocinhas que passeiam pelas ruas de Recife vendendo CDs piratas há diversos disquinhos com faixas como "Papa-Frango" e "Frentinha", hits de João do Morro.
"As carrocinhas fizeram com que minhas músicas ficassem conhecidas, que chegassem ao interior de Pernambuco, em Alagoas, Rio Grande do Norte. Por isso não posso ser contra a pirataria", afirma à Folha.
João do Morro não é contra a pirataria e não é contra a internet. Possui conta no Twitter (twitter.com/joaodomorro) e no MySpace (www.myspace.com/joaodomorro), por exemplo. "A internet foi um dos mecanismos que me ajudaram na divulgação."
Mas, claro: o que adianta Twitter, MySpace, carrocinhas, se as músicas não ajudam? As músicas de João do Morro são uma síntese de como ritmos regionais e populares podem ser trabalhados como algo de apelo pop e universal.
"Não consegui definir ainda", diz ele, sobre suas músicas. "É uma fusão entre pagode, samba, afoxé e swingueira. Fiz essa misturada, mas não sei dizer qual é o resultado."
Swingueira? "É um pagode mais suingado, em que fazemos coreografias, passos de dança", explica o cantor.
Um dos principais sucessos de João do Morro, "Papa-Frango" nos apresenta a história de um garoto gay que é sustentado por um homem mais velho.
"A inspiração veio de quadrilhas juninas, muito frequentadas por gays. É algo antigo até."
A música fez com que o cantor fosse acusado de homofobia por associações de Pernambuco. E o que fez João do Morro? Compôs "Frentinha".
"Eu não tenho preconceito/ Se você olhar direito/ Hoje em dia o mundo é gay/ É boyzinho com boyzinho/ E boyzinha com boyzinha/ É todo mundo se beijando/ Se amando, se abraçando", diz a pepita.
João do Morro foi criado no Morro da Conceição (daí o apelido). Pai e irmãos tocavam na Galeria do Ritmo, uma escola de música que desfila no Carnaval pernambucano. Com autorização do pai, desde os 16 anos participa de shows de pagode. E, até pouco tempo atrás, trabalhava como açougueiro.
"Eu achava que ficaria restrito ao pagode e à periferia. Mas hoje faço shows na zona sul de Recife, em boates badaladas [e em festivais como o Rec Beat]. Tanto o cara do morro como o cara que tem uma cobertura em Boa Viagem curtem as músicas, pois as letras falam do dia a dia de forma humorada."
Sobre o que o inspira, João do Morro elenca: "Peguei um pouco de cada coisa. Um pouco da personalidade do Zeca Pagodinho, que faz sucesso mas não perdeu a cabeça. De outras coisas, peguei a postura de palco. O deboche veio com Mamonas Assassinas, Tom Cavalcante. Mas, desde 1992, quando descobri Bob Marley, gosto de reggae. Já fiz uma versão "enrolation" de "No Woman No Cry", porque não falo inglês...".

A arte do fenômeno "cafuçu"
XICO SÁ
COLUNISTA DA FOLHA

Não há mistério algum no samba de João do Morro, caros apanhadores de folclores e exotismos. Nem samba é, na maioria das vezes, é gréia, como se traduz livremente no Recife a arte do chiste, da zorra, da tiração de onda.
A graça da sua fuleiragem social clube é usar nas letras o dicionário mais "cafuçu" possível, o glossário peba, tosco, além do brega sentimental e da simples filosofia popular de consolação do corno -algo tão comum na canção romântica.
No pagode do artista, entra o boyzinho (rapaz) suburbano que recebe mimos e é sustentado pelo frango (gay no Recife). E que fique claro: o ativo, nessa pegada, nunca é considerado homossexual. O "Papa-frango", título da faixa de sucesso, é motivo de chacota pela moral econômica de não bancar sua vida.
Para o ouvinte que não conhece as expressões recifenses, o enredo pode soar um pouco incompreensível na primeira audiência. O show de João é o seu vocabulário, como diz em "As Nêga Endoida", dirigindo-se a quem o chama para animar os bailes.
A crônica sobre a boyzinha (garota) que corre da chuva com medo de estragar a chapinha todo mundo entende. A letra relata o fenômeno de abertura dos salões de beleza nas periferias e rima o estoque inteiro de técnicas e produtos para o cabelo: "Umas passam easy, outras biorene/henê, hairfly, guarnidina e kolene".
Badalado a partir das carrocinhas e "publicicletas", veículos que vendem CDs e DVDs piratas, João do Morro e a banda "Os cara" esticaram seus hits para a internet, via blogs e Myspace etc. "Chupa que é de uva", diz o "cronista da comunidade", como se define, usando a provocação que dá nome a um outro dos tantos sucessos.
Sua origem é o Morro da Conceição, no bairro de Casa Amarela, zona norte, o mais populoso da cidade. Não há segredo no pagode. É a linguagem da "poeira" (povão no dicionário popular do Recife) nas letras e música fácil e sem frescura emepebística. Como diz Fred 04 em um dos seus sambas esquema noise, não tem mistério. Tem não.

domingo, 10 de maio de 2009

A descoberta da roda

Saiu no caderno Mais!("tarde eu leio!") da Folha de São Paulo de hoje:

O chique na berlinda

Em entrevista à Folha, o filósofo australiano Peter Singer diz que o consumo de luxo aumenta a pobreza

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Peter Singer acha que as pessoas que gastam [dinheiro] com vinhos caros e viagens luxuosas em vez de ajudar crianças pobres são, de certa maneira, responsáveis pela morte destas.
É o que ele defende em seu livro mais recente, "The Life You Can Save" [A Vida Que Você Pode Salvar, Random House, 206 págs., US$ 22, R$ 47], um manifesto humanitário embasado nos preceitos da bioética.
É a mais nova faceta do polêmico filósofo australiano de 62 anos, que ensina esse ramo da ética na Universidade Princeton, em Nova Jersey (EUA).
As outras são a do militante pelos direitos dos animais, posição defendida em outro livro, "Animal Liberation" [Libertação Animal, Random House, 1975], considerada a obra que iniciou a faceta radical desse movimento, e "Should the Baby Live? - The Problem of Handicapped Infants" (Deve o Bebê Viver? - O Problema das Crianças com Deficiências, Oxford Univesrity Press, 1985), em que defende a eutanásia.
Leia abaixo trechos da entrevista que concedeu à Folha por e-mail.


FOLHA - Segundo a Unicef, 27 mil crianças morrerão hoje. O que devemos fazer a respeito e não fazemos?
PETER SINGER - Essas mortes são evitáveis. Elas são decorrência de situações que podem ser mudadas -ausência de água limpa, falta de postos médicos locais, ausência de redes contra a malária e assim por diante. Acima de tudo, acontecem por conta da extrema pobreza, e isso também pode ser mudado.
Nós deveríamos usar uma parte de nossa riqueza para ajudar a tirar as pessoas da armadilha da extrema pobreza. É errado gastarmos tanto com coisas supérfluas, enquanto outros não têm o suficiente para comer ou não têm condições de mandar suas crianças para a escola.

FOLHA - Ao mesmo tempo, 20 mil americanos perderão seus empregos hoje. O quão difícil é ser coerente em uma época de derretimento econômico?
SINGER - O problema não é coerência, mas fazer com que as pessoas pensem outras enquanto estão preocupadas com os próprios interesses. Somos egoístas por natureza, e não espero que as pessoas se tornem altruístas se estão preocupadas em pagar o aluguel.

FOLHA - O sr. dá um terço de seus rendimentos à rede de assistência global Oxfam. É suficiente? Recomenda que outros façam o mesmo?
SINGER - Eu não diria que é o suficiente; se eu fosse uma pessoa melhor, daria mais.
Ao mesmo tempo, porém, não seria preciso que ninguém desse tanto quanto eu dou se apenas as pessoas mais ricas doassem algo de suas rendas.
Então, em meu livro, recomendo uma porcentagem muito menor, começando por 1% da renda das pessoas. É possível ver a tabela completa no livro ou no site www.thelifeyoucansave.com, [onde você pode fazer sua doação também.

FOLHA - O sr. escreveu: "Quando nós gastamos nossa sobra de dinheiro em shows, sapatos da moda, jantares sofisticados, vinhos caros ou em viagens de férias para lugares distantes, estamos fazendo algo errado". Mas pode-se argumentar que, ao fazer isso, ajudamos a criar ou manter empregos, algo que hoje em dia é mais do que necessário. Como equilibrar esforço humanitário e capitalismo?
SINGER - A maior parte do que gastamos no que você menciona vai para pessoas que já são ricas. Se o que você compra ajuda realmente os mais pobres -talvez por meio de um esquema de comércio justo-, tudo bem, não me oponho.
Mas é importante ajudar os pobres diretamente também, pois de outra maneira eles não podem se integrar à economia global. Os países mais pobres não têm a infraestrutura necessária para essa integração.

FOLHA - O sr. acha que uma das consequências da atual crise pode ser que as pessoas passem a ter uma vida mais frugal?
SINGER - Seria bom em certo sentido, especialmente do ponto de vista do ambiente, do aquecimento global.
Mas duvido que aconteça. A crise vai passar, e em alguns anos voltaremos aos nossos hábitos antigos.

FOLHA - Do ponto de vista da bioética, qual é a diferença entre George W. Bush e Obama na Casa Branca?
SINGER - Uma diferença enorme. Bush e seus capangas adotaram uma atitude arrogante em relação ao resto do mundo -os EUA são o chefe, disseram, não apenas mais um membro da comunidade internacional.
Obama tem uma atitude diferente, e isso é importante.
Igualmente importante, é claro, é sua recusa em torturar, seu plano de fechar [a prisão da base militar de] Guantánamo, sua disposição em apoiar organizações de planejamento familiar que também incluem aborto entre os meios de ajudar as mulheres a controlar sua fertilidade, sua aceitação de pesquisa usando células-tronco de embriões humanos e, acima de tudo, uma atitude positiva em relação à ciência.

FOLHA - Não há contradição entre o que defende em "Deve o Bebê Viver?" e "A Vida Que Você Pode Salvar"?
SINGER - Nenhuma. Minha preocupação primária é a redução do sofrimento desnecessário.
Há uma enorme diferença entre tentar salvar a vida de crianças cujos pais querem que elas vivam e cujas vidas podem ser salvas com quantias modestas de dinheiro e manter vivas crianças extremamente incapacitadas, usando tecnologia médica moderna e caríssima, quando os pais acham que seria melhor para a criança e a família se o bebê não sobrevivesse.

FOLHA - A propósito de um de seus primeiros livros, "Libertação Animal", e a gripe suína, o sr. acha que há uma lição moral nessa quase pandemia?
SINGER - Não creio. A razão moral para não colocar porcos nas "fábricas rurais" em que estão é que é uma vida horrível para os porcos, e não há necessidade de que os tratemos assim.
Talvez uma consequência secundária de colocar milhões de animais juntos em condições precárias é que eles cultivam novas doenças, que podem gerar pandemias globais.
Mas seja isso verdade ou não, o fato é que, para começar, não deveríamos estar tratando os animais dessa maneira.

terça-feira, 31 de março de 2009

Coragem de carrão

Li ontem na Folha de São Paulo a crítica do Luiz Felipe Pondé sobre o Gran Torino, último filme do Clint Eastwood. Dela transcrevo a seguinte passagem:

"A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do 'bem comum' e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou 'progressista' (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o 'outro' é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética. Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em Gran Torino (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): 'o mundo nunca foi justo'. Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos 'clichês de presépio', como sendo contra a liberdade humana."

Deslocado do texto na íntegra, o trecho, que é bastante áspero, talvez necessite de algum esclarecimento. O alvo de Pondé é a esquerda cultural que tem como matriz geográfica os EUA com seu multiculturalismo quase doutrinário, chato, cheio de nota de rodapé e que arregimenta pessoas como gado. Dada a informação, também faço coro com o personagem do filme em sua óbvia máxima: o mundo nunca foi justo . Do mais abastado ao mais fodido dos homens, todos sabemos disso.

Para além deste truísmo (que, reitero, concordo), a passagem acima também induz que os preceitos do multiculturalismo ianque descamba no que o autor chama de "covardia estética". Nenhuma lorota. Porém, eis que o dilema cultural surge por trás da moita: e como o mundo considera a "liberdade humana" e a "coragem estética" dos que estão nos grotões esquecidos da civilização pós-industrial e livres (ou na luta por se livrar) do catecismo polido do tal multiculturalismo? (alguém já ouviu falar de folclore? e world music?)

A retórica dos que dão as cartas pode se arvorar inclusive de um ousado pessimismo no future. E a "coragem estética" parece sempre assentar melhor quando vem a bordo de um carrão estiloso...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Contra o relativismo

Definitivamente, o mundo não é um lugar para os bonzinhos. Mas é um lugar de lugares. E estes continuam sendo os mesmos: o dos incluídos e o dos excluídos da farra global. O texto abaixo - publicado hoje na Folha de São Paulo - nada altera a ordem das coisas. Apenas faxina as falsas generosidades. Tudo está no seu lugar, mas, para alguns, não seria o caso de dizer graças a deus...

Blablablá
Por Luiz Felipe Pondé

O QUE você faria se estivesse a ponto de assistir a um ritual de antropofagia? Interromperia (sem risco para você)? Ou deixaria acontecer em nome do relativismo cultural (essa ideia que afirma que cada um é cada um, que as culturas devem ser respeitadas em sua individualidade e que não podemos compará-las)?
No primeiro caso, você seria um horroroso descendente dos "jesuítas"; no segundo você seria um relativista chique. Sempre suspeitei que esse papo relativista fosse blablablá. Funciona bem em aula de antropologia, em bares, em parques temáticos e lojas de curiosidades. É evidente que "jesuítas" de todos os tipos fizeram horrores nas Américas. Todo adulto bem educado sabe que é feio condenar cultos à lua ou à chuva. Mas há algo no relativismo cultural que me soa conversa fiada: o relativismo cultural morre na praia quando você é obrigado a conviver com o Outro. E o "Outro" nem sempre é legal.
Se você aceita a antropofagia em nome do respeito à "cultura", aceita implicitamente a ideia de que o valor da vida humana seja subordinado à "cultura". A vida humana não tem valor em si. Todo estudante de antropologia sabe recitar esse credo. Quando confrontado com dilemas como esse, o relativista diz que se trata de uma situação meramente hipotética (hoje não existe mais antropofagia). Mas a verdade é que quando o relativista diz que a antropofagia é hoje quase nula, e, portanto, esse dilema não tem "validade científica", está literalmente correndo do pau porque "alguém" acabou com a antropofagia, não? Por que a antropofagia "acabou"?
Algumas hipóteses: 1) os antropófagos foram mortos por gripes ou em batalhas; 2) foram convertidos pelos horrorosos "jesuítas" e seus descendentes; 3) descobriram formas mais fáceis de comer e rituais que deixam as pessoas (isto é, os Outros) menos irritadas e com menos nojo. É importante conhecer o "lugar" da antropofagia nas religiões dos canibais, mas isso é apenas um "dado" antropológico. Uma descrição de hábitos (ruins). Mas o relativista tem que correr do pau mesmo, porque seu credo funciona bem apenas nas conversas de salão. A vida é sempre pior do que as festas. Relativistas culturais são, no fundo, puritanos disfarçados, gostam de "aquários humanos".
Os seres humanos são culturalmente promíscuos, e "a cultura" sem promiscuidade (trocas, misturas, confusões) só existe nos livros. Use internet, televisão, celulares, aviões e estradas, faça sexo ou guerra, e o papo do relativismo cultural vira piada. Na realidade, as pessoas lançam mão do argumento relativista somente quando lhes interessa defender a "tribo" com a qual ganha dinheiro e fama. O problema com o debate sobre os índios (ou qualquer outra cultura considerada "coitada") é a mitologia que ela provoca. Se, de um lado, alguns falaram dos índios (erradamente) como inferiores, bárbaros ou inúteis, por outro lado, os que "defendem" os índios normalmente caem no mito oposto: eles são legais e só querem viver "sua cultura", e eles não são "capitalistas" como nós, e blablablá. Índios gostam de poder como todo mundo, vide os índios "conscientes de seus direitos" devorando computadores, celulares e internet no Fórum Social, em Belém -ou ficam na idade da pedra mesmo e precisam que o Estado os defenda do mundo.
As culturas mais bem-sucedidas são predadoras e seduzem as mais fracas (ser mais bem-sucedida não implica ser legal). Por que levar medicina científica (invenção dos "opressores") para as aldeias? Não seria contaminação "cultural"? Vamos ou não brincar de "curandeiros"? Que tal abraçar árvores? Se você é católico e quer ser fiel aos seus princípios, você é um retrógrado; se você quer viver no meio da selva (com direitos adquiridos porque você é de uma cultura "coitada"), você é apenas uma tribo com direito a integridade cultural. O conceito de cultura é quase um fetiche do mercado das ciências humanas. Não que não existam culturas, mas o conceito na sua inércia preguiçosa só funciona no laboratório morto da sala de aula ou do museu. A vida se dá de forma muito mais violenta, se misturando, se devorando.
Nada disso é "contra" os índios, mas sim contra o relativismo como ética festiva. O oposto dele não é o obscurantismo, mas a dinâmica da vida real. O relativismo é um (velho) problema filosófico e um "dado" antropológico. Um drama, e não uma solução.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Revolução na Urca: Zizek!


Esqueci de divulgar nesta bodega eletrônica a conferência que o filósofo Slavoj Zizek proferiu ontem no campus da UFRJ na Urca (este é um blog cada dia menos sério...) . O Dr. E. foi lá e conferiu a verve retórica do esloveno (que, aliás, não é fraca, não!). A exposição ficou um tanto desamarrada, pois ele fala como um cavalo brabo que se solta no campo - é um intelectual "sujo", no melhor sentido rock'n'roll da palavra. Cuspirei, no mesmo estilo, alguns pontos que foram abordados:
- começou argumentando que se debruça sobre o cinema hollywoodiano pois é nele que a ideologia se apresenta de forma mais clara para o grande público. Exemplificou com dois filmes recente: Batman - O Cavaleiro das Trevas e o desenho animado Kung-Fu Panda;
- o comentário acima parece óbvio, mas serviu de ótima introdução para o principal tema de sua fala: ideologia;
- comentou sobre o filme Eles vivem (segundo ele, em matéria recente do caderno Mais!, uma das obras-primas esquecidas da esquerda de Hollywood), de Jonh Carpenter, no qual o protagonista ao usar um óculos estranho que encontrou passa a enxergar todas as mensagens reais da publicidade (tipo: "não pense, consuma!");
- discorreu sobre os estágios históricos da publicidade, classificando-os em três: 1) quando a mensagem dizia diretamente ao produto (ex.: esse é o carro mais econômico, mais forte etc.); 2) quando ela fazia o consumo do produto implicar em status (ex.: seu vizinho não tem um carro desse); 3) o atual, quando o produto lhe arranca deste mundo em ruínas (ex.: entre nesse carro e deixe pra trás todas as mazelas que lhe aflingem);
- criticou alguns modismos do mundo contemporâneo como o consumo de orgânicos e do espiritualismo oriental. Atacou também a nova campanha da rede Starbucks que concede 5% do dinheiro de um café aos pobres de algum país do terceiro mundo. Considerou tudo isso como formas de descarrego da culpa, mecanismos que aliviam as pessoas, não levando-as a realmente pensarem sobre o funcionamento do planeta (mais um modelo ideológico);
- condenou certos tipos de lutas minoritárias que, para ele, são muitas vezes falsos embates previstos (e estimulados) pela ideologia dominante;
- sobre a América Latina atual, chamou a atenção para um perigo populista em Hugo Chávez, ressaltando, no entanto, que gosta de sua luta;
- meteu o pau no clima dos fóruns sociais mundiais, classificando-os de eventos "carnavalizantes", no sentido do termo empregado pelo teórico russo Mikhail Bakhtin (que também foi alvo). Para ele o melhor seria que o carnaval não fosse o evento, e sim a normalidade da vida.
- desceu a lenha também no cineasta Emir Kusturica, a quem acusou de folclorizar os balcãs (usou o termo "balcanismo" em analogia ao "orientalismo" de Edward Said);
- Por fim, concluiu dizendo que segue acreditando, acredite, na revolução.

Bom, quem quiser conhecer mais sobre o Zizek, ele acaba de lançar um livro no Brasil chamado A visão em paralaxe (pela editora Boitempo) e escreve na seção "Autores" do citado Mais!, suplemento dominical do jornal Folha de São Paulo. Ah! encontrei também este vídeo no canal de televisão de todos, o Youtube (a tradução é em português de Portugal, única na língua que encontrei):

sábado, 9 de agosto de 2008

Faxina na existência e o nosso velho samba exaltação

Há dias não escrevo por aqui. Uma série de razões me inviabilizaram, desde um texto para uma revista acadêmica as curtas férias em São Paulo. Em última instância, faço também uma faxina na vida - o que não tem sido fácil. Balanço geral e doloroso, daqueles que põe em xeque meu próprio ato de escrever (seca criativa, falta de manha?). Não se preocupem, não me alongarei com querelas umbilicais.
Bom, como a vida não desapeia e algumas leituras ainda não me deixam indiferente, compartilho o texto do José Geraldo Couto publicado hoje no caderno de esportes da Folha de São Paulo. Prosa sobre nosso nacionalismo, bastante em voga na atual maré olímpica. Coisa simples e direta, como costumam fazer os craques de verdade.

Acaso de migrações
Em tempos olímpicos, cabe indagar o que significam hoje termos como pátria e nacionalidade

"NENHUM BRASIL existe. E acaso existirão os brasileiros?" O verso que encerra o poema "Hino Nacional", de Carlos Drummond de Andrade, sempre me volta à memória em ocasiões como esta, de "exaltação da nacionalidade".
De dois em dois anos, graças às Olimpíadas e às Copas do Mundo, lembramos que somos brasileiros, que nossa bandeira é verde e amarela, que o nosso hino é o "Virundum" e que Galvão Bueno tem o dom da onipresença.
Mas a provocação de Drummond soa cada vez mais atual. O que é uma nacionalidade num mundo cada vez mais globalizado, no qual o poder do dinheiro desconhece fronteiras, línguas, culturas? O que vale mais: o distintivo de um país ou o logotipo de um grande patrocinador? Já faz tempo que a seleção brasileira de futebol, por exemplo, não é mais vista como o ápice onde almejam chegar os atletas, mas como mera vitrine para valorizar seu passe no exterior. Não é mais fim, é meio.
Nestes dias de Olimpíada, fiquei sabendo que uma dupla brasileira de vôlei de praia, Renato Gomes e Jorge Terceiro, vai disputar as medalhas pela Geórgia, ex-república soviética que eles mal conhecem e cuja língua, obviamente, não falam.
Voltando ao futebol, a revista "Placar" deste mês traz uma lista espantosa: a dos mais de 60 futebolistas brasileiros que defendem seleções de outros países.
Há jogadores brasileiros vestindo as camisas da Alemanha, do Qatar, de Hong Kong, da Macedônia, de Honduras, do Vietnã...
O fato é que a noção de nacionalidade se esgarçou muito nos tempos atuais, tornando cada vez mais vazio e retórico o discurso patriótico. O que é a "pátria", afinal? Para uns, é a bandeira, o hino, as glórias da história oficial. Para outros, a pátria é o McDonald's, a Microsoft ou a Daslu. Eu disse uma vez que a minha pátria é o futebol, mas isso é uma simplificação brutal. É, sim, o futebol, mas um certo futebol, aquele que eu cresci vendo e tentando praticar.
É também uma música, um humor, um sotaque. Alguns aromas e sabores. Uma afetividade. "A verdadeira pátria é a infância", disse Baudelaire. É o lugar -real ou imaginário- em que nos sentimos em casa.
Por isso, por mais que admire os feitos de atletas como Rodrigo Pessoa, os irmãos Grael e Robert Scheidt, não consigo vibrar com eles, porque a equitação e o iatismo não fazem parte da "minha pátria".
Não é porque eles ostentam o verde e o amarelo em algum lugar da indumentária que vou me sentir mais próximo deles, assim como não sinto afeto (positivo ou negativo) pelos mauricinhos brasileiros da F-1.
E já que abri esta coluna com Drummond, encerro com versos de outro Andrade, o Mário, que expressam o que não fui capaz de dizer: "Brasil amado não porque seja a minha pátria,/ pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der.../ Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,/ o gosto dos meus descansos,/ o balanço das minhas cantigas amores e danças./ Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/ porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir".

domingo, 29 de junho de 2008

Vida, esta felicidade! (variações sobre o mesmo tema) - notas dominicais

"Não acredito na felicidade - estou lhe dizendo a verdade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo - sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho - naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto."
Umberto Eco, trecho de entrevista publicada na Folha de São Paulo (11/05/2008)


"Sempre senti que a vida é uma confusão muito grande. Tenho uma visão sombria e pessimista da vida e da fé do homem, da condição humana. Mas acho que há alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem. Há momentos de prazer e momentos que são divertidos, mas, basicamente, a vida é trágica."
­Woddy Allen, colhido em algum lugar poraí...

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sexta no juízo...

...com o texto do Contardo Calligaris publicado ontem nas folhas dos Frias. Evitem algomerações (salvo o compromisso cívico com suas agremiações futebolísticas) e bom final de semana à tous...

A turba do "pega e lincha"

NA ÚLTIMA sexta-feira, passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado.
O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas. Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar "assassinos" quando eles aparecessem, pedindo "justiça" e linchamento.
Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina. Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão -quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?
Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.
Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do "ao vivo" como se fossem "extras", pagos por uma produção de cinema. Qual é o script?
Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.
Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.
Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela. Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: "nós", que não matamos Isabella; "nós", que amamos e respeitamos as crianças -em suma: "nós", que somos diferentes dos assassinos; "nós", que, portanto, vamos linchar os "culpados".
Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do "pega e lincha" tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir.
As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.
O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.
Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. Se não bastar, leia a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de domingo passado.
A turba do "pega e lincha" representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.

domingo, 23 de março de 2008

Cartoon free - notas dominicais

"Me diga, Robert", pergunta Aline durante o jantar, "o LSD afetou seu traço nos anos 1960?". "Sim, é claro", ele responde. "Tomei umas 15 vezes, depois desisti. Primeiro deixei as anfetaminas, depois o ácido, os baseados, o álcool e, finalmente, a América."




Diálogo do cartunista americano Robert Crumb com Aline Kominsky, sua mulher, retirado de matéria assinada por Iker Seisdedos - publicada no caderno Mais!(tarde eu leio!) da Folha de São Paulo domingo passado (16/03/08).

sexta-feira, 14 de março de 2008

Miséria coletiva

Pode-se questionar a retaliação brasileira, pois, já que a ordem é única e neoliberal, que vivamos de fato num mundo sem porteiras, ora! Mas, o texto que o Contardo Calligaris publicou ontem na Folha de São Paulo não diz respeito apenas a crise diplomática atual. Diz respeito a arte de se viver nesse planeta e a nossa miséria coletiva.

É proibido viajar
Por Contardo Calligaris

No episódio dos jovens pesquisadores brasileiros barrados em Madri, as autoridades espanholas agiram como se o cônsul-geral do Brasil contasse lorotas para facilitar o trânsito de imigrantes ilegais. O desrespeito justifica a "retaliação" brasileira.
No mais, a cada dia, as fronteiras do mundo (não só do primeiro) barram alguém que tenta viajar, sobretudo se for jovem, solteiro e sem as aparências de uma "vida feita".
Ao atravessar uma fronteira, o passaporte prova que estamos em paz com a Justiça de nosso país. As outras nações devem decidir se somos hóspedes desejáveis. Nas últimas décadas, as "condições" para ser desejável se multiplicaram. Hoje, no caso da Espanha: 1) 70 por dia de permanência planejada; 2) passagem de volta marcada; 3) reserva de hotel, já pago; 4) para quem se hospedar com parentes, formulário preenchido pelos mesmos; 5) quem se desloca para trabalhar deve dispor de um contrato assinado. Normas muito parecidas valem na maioria dos países.
O escândalo é que essas condições podem nos parecer "aceitáveis". Afinal, qualquer Estado quer proteger o emprego de seus cidadãos impedindo a chegada de imigrantes não-autorizados, não é? Pois é, Michel Foucault é mesmo o pensador para os nossos tempos: o sistema social e produtivo dominante ordena nossas vidas furtivamente, convencendo-nos de que não há opressão, mas apenas necessidades "racionais". Se achamos essas regras "aceitáveis", é porque já adotamos a idéia de que, no nosso mundo, só é legítimo ter moradia fixa e profissão estável.
As pessoas com moradia fixa podem, quando elas dispõem dos meios necessários, adquirir uma passagem de ida e volta e sair de seu lar seguindo um programa pré-estabelecido -ou seja, podem ser, ocasionalmente, turistas.
Escárnio: prefere-se que os turistas sejam otários, pagando de antemão. Há uma pousada melhor da que estava prevista? Você quer encurtar a viagem? Pena, você já pagou. Mas isso é o de menos. Importa o seguinte. A modernidade, que começou com a circulação (livre ou forçada) de todos os agentes econômicos, acaba parindo, nem mais nem menos, a proibição da viagem. Como assim? Pois é, viajar não tem nada a ver com férias num resort ou com ser transportado de cidade em cidade para que os cicerones nos mostrem as coisas "memoráveis".
Para começar, viajar é usar uma passagem só de ida.
- Quanto tempo você vai ficar?
- Não faço a menor idéia. Um dia? Três meses? Um ano?
- E você vai para onde?
- Não sei. Talvez eu curta uma pequena enseada, alugue um quarto numa casa de pescadores e fique comendo caranguejos com os pés na areia. Talvez, já no avião ou pelas ruas de Barcelona, eu me apaixone por uma holandesa, um russo ou uma argelina e os siga até o país deles, por uma semana ou um mês.
Se a paixão durar, ficarei por lá.
- E o dinheiro?
- Não sei, meu amigo. Toco violão, posso ganhar um trocado numa esquina ou no metrô. Também posso lavar pratos, ajudar na colheita, cortar lenha, lavar carros e vender pulôveres. E, se a coisa apertar, tenho endereços de parentes e conhecidos que nem sabem que estou viajando, mas não me recusarão uma sopa e um banho quente. Além disso, em Paris, quando fecha o mercado da rua Saint Antoine, sobram na calçada as frutas e as saladas que não foram vendidas; em São Paulo, Londres e Nova York, conheço dezenas de igrejas que oferecem um pão com manteiga; em Varanasi, ao meio dia, distribuem riso com curry e carne aos peregrinos.
Cem anos depois da invenção do passaporte com fotografia, chegamos nisto: uma ordem que só permite se movimentar para consumir férias ou para se relocar segundo os imperativos da produção.
As regras que barram o viajante expressam nossa própria miséria coletiva: perdemos de vez o sentimento de que a vida é uma aventura. Preferimos a vida feita à vida para fazer.
Para quem quiser ler sobre a história da documentação de viagem, uma sugestão: "Invention of the Passport: Surveillance, Citizenship and the State" (invenção do passaporte: vigilância, cidadania e o Estado), de Torpey, Chanuk e Arup (Cambridge University Press).
Para quem quiser viajar, outra sugestão: a mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Batendo o centro do ano

Sim caros leitores, o primeiro post do ano. Uma croniqueta futebolística. Ainda não deste doutor que agora vos assombra com sumiços e aparições esporádicas e que anda de férias com o vernáculo...
E se não escrevo, que escrevam sobre mim, ora pois! Eis um texto para desvendar-me! Brodagens tantas nas folhas de hoje do paulistano jornal dos Otávios Frias... Boa leitura!

ps.: mais uma promessa: como o próximo post é o centésimo desta bodega eletrônica, prometo regularidade, claro, e novidades!

Um homem sem futebol
Por XICO SÁ

AMIGO TORCEDOR , amigo secador, estava aqui com um grupo de chegados, numa simpática taberna do Recife, discutindo os rumos da humanidade, quando um dos nossos cavaleiros da mesa redonda solta o berro: "Golaço!!!".
Você não está entendendo, amigo, não foi um berro qualquer, um grito familiar, nem tampouco um humaníssimo manifesto de rotina do bicho homem. Foi daqueles brados retumbantes, guturais, que irrompem do estômago dos monstros do trash metal e das cavernas do Medievo. De repente aquela tarde à João Gilberto, com barquinhos à bossa nova ao longe, é tomada pelo Iron Maiden e todos os zumbis do outro mundo.
É isso o que o ingrato recesso do futebol causa em nós, marmanjos doentes, eternos Peter Pans ludopédicos. É isso, um simples gol de pelada na praia do Pina, nos contornos de Brasília Teimosa, vira comoção, o ritual mais primitivo do coração das trevas. O pior é que só o amigo Roberto Azoubel, o dono do grito, viu o golaço. Só o "doctor estranho", sua nova alcunha, solitariamente testemunhou o épico. Para nosso desgosto, óbvio. Só nos restou, naquele momento solene, roer as unhas da inveja em busca de um replay impossível, um videoteipe imaginário.
O "golaço" incendiou a fantástica usina de fabulações que é a mente humana privada dos grandes embates. Tivemos de nos contentar com a narrativa da testemunha, que deu conta de uma tabela na canela do rival e um toque sutil por debaixo do último beque que guardava a trave portátil. A bola passou rente ao latifúndio dorsal do zagueiro e foi conduzida caprichosamente, com ajuda de vento e maré, ao fundo do filó. Daí o grito, salivado de testosterona e jejum futebolístico: "Golaço!!!".
Jô, a costela amada da testemunha, teve um susto só comparado à primeira vez que viu "Psicose"; Lirioboy passou a chamar o artilheiro do Pina de Roberto Coração de Leão, grande ídolo do seu Sport Recife; DJ Dolores, entretido com uma "boyzinha" à milanesa-cafuçu, típica modelo das fotos de Bárbara Wagner, também não viu a pintura, mas assinou embaixo. Esse intervalo quase sem futebol, amigo, deixa mesmo os homens sem noção, lesados no paraíso, Adões entregues às vontades pecaminosas e bestiais.
Por ventura e sorte, este cronista acabara de chegar de Juazeiro, onde teve a felicidade de ver a Copa Integração, o que garantiu o sagrado fornecimento de ópio aos torcedores até a véspera do último dia do ano. O torneio reuniu times dos sertões de Ceará, Pernambuco, Piauí e Paraíba.
O Icasa, o verdão da Meca do Cariri, sagrou-se campeão no derby com o rubro-negro Guarani, o Leão do Mercado. No domingo, repetem a peleja, valendo pelo Cearense-2008.
E aos poucos teremos os Estaduais de volta, alvíssaras, porque os embates da aldeia são os mais universais. Porque um homem sem futebol retorna à condição de bárbaro, é ameaça aos contratos sociais, é capaz de atos de um Jack, de um Chico Picadinho, de um Bandido da Luz Vermelha, de um Monstro da Madalena, de um Maníaco do Parque.
Que a terra nos seja leve em 2008 e que gire em torno do sol como na primeira visão de Copérnico, tal e qual a bola manhosa que cisca e se enrosca, carinhosamente, no fundo de uma rede de várzea.