No último domingo, Renato L, jornalista e conhecido com ministro da informação do Mangue, publicou no Manguetronic um ótimo texto chamado “Por que (ainda) precisamos de ‘gênios’?”. Para responder a pergunta-título, o autor começa:
“Antes de tudo, porque ainda estamos presos a um conceito romântico de Arte, que faz da inspiração uma dádiva divina e do indivíduo o centro do ato criativo. Não sobra espaço, aqui, para a materialidade inerente ao metabolismo social da vida humana e para o reconhecimento do coletivo como instância definidora fundamental de nossos atos – inclusive os criativos.”
Já neste início, Renato deixa claro que sua posição na interpretação dos objetos artísticos é materialista. Quando escrevo materialista, não me refiro ao sentido corrente da palavra que designa normalmente pessoa interesseira e/ou apegada a bens materiais, mas sim àquele utilizado na filosofia ocidental. Mas, o que seria uma posição interpretativa materialista? Ou melhor o que é ser materialista?
Pois bem, ontem coincidentemente comecei a ler o último livro do Joel Rufino dos Santos, Quem ama literatura não estuda literatura, e logo na página 17 encontro o seguinte parágrafo (e que terminou por motivar este post):
“O materialista é apenas aquele que vê na base material da existência – a natureza, o universo, a sociedade, a cultura, o corpo humano etc. – a explicação última para tudo; última, mas não única. Nas suas análises, o materialista busca sempre identificar a materialidade dos fenômenos. Por exemplo, ao analisar o conceito de literatura dominante em nossas faculdades de letras, critério final pelo qual se incluem e excluem autores dos currículos, em vez de aceitar esse conceito em si mesmo como válido e correto (ou mesmo inválido e incorreto), o crítico materialista procura as razões materiais (algumas inconscientes) que nos levaram a adotá-lo. Para ele não se trata apenas de razões ideais, como o bom gosto, o cânone, a tradição, a literalidade etc. Ele se pergunta pela materialidade dessas idéias e definições, indo encontrá-las em fatores materiais, tais como a história da língua, o poder das instituições sociais (a Academia Brasileira de Letras, por exemplo), o movimento editorial, o mercado do livro, a classe dos professores de literatura, seus interesses profissionais (a começar pelo salário) e assim por diante.”
Após ler este trecho, uma ponte com a primeira citação me pareceu evidente e inevitável. Ao questionar a necessidade de gênios (e de cânones), Renato ataca as razões ideais de suas existências refletidas, por exemplo, na encarnação de valores eternos (comumente transformados na palavra mágica "tradição") por eles. Mostra também certos mecanismos de seus cultos criados pela indústria cultural, que os tornam acriticamente em celebridades unânimes. Denuncia, sobretudo, a falta de suas materialidades:
“nós cultuamos os 'gênios' porque não os conhecemos. Não trepamos com eles. Não sentimos os seus cheiros. Não fomos vítimas de suas vinganças mesquinhas. Não privamos de sua humanidade.”
Se quiserem mais, não deixem de ler o “texto” na íntegra!
terça-feira, 1 de abril de 2008
Sobre genialidades e (falta de) materialidades
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Nação cevada
O título deste post é aparentemente provocativo. Aparentemente apenas, tendo em vista que a provocação que ele pode conter não é óbvia como o seu enunciado. Explico-me adiante.
Após a apresentação da Nação Zumbi no último sábado, na festa do bloco Sala da Justiça, começou um zum-zum-zum pela cidade do Recife de que a banda tinha se vendido a uma grande marca de cerveja, pois antes de emendar o hit “Quando a Maré Encher”, ela tocou um jingle comercial de tal cervejaria. Esta polêmica lembrou a mesma que ocorreu envolvendo a mundo livre s/a que no ano passado negociou um de seus sucessos com um fabricante de sandálias. Celeuma besta, já que a marca nunca interferiu no processo criativo nem no conteúdo da mlsa que continua disseminando seu som e, sobretudo, sua contra-informação por onde passa. O mesmo, assim espero, deve ocorrer com a Nação. Não me alongarei nesta discussão que é bastante clara para mim. E concordo inteiramente com os argumentos de Renato L no Manguetronic - não os reproduzirei aqui, basta dar um clique no título do blog para vê-los - sobre o assunto.
A discussão ou pensamento que acho mais pertinente criada pela situação, creio eu, diz respeito ao envolvimento da banda numa publicidade de bebida alcoólica. Isto porque, por princípios, não concordo com a divulgação de tais produtos pelos veículos de comunicação de massa nem em lugares públicos de uma forma geral. Moralismo? Hippismo? ReQuem apostou nestes juízos errou os dois tiros – os amigos deste estranho dotô me conhecem... O que penso e acredito é que a sociedade não carece - pelamor de Deus, não entendam mal, não sou contra esses produtos e sim contra suas divulgações massivas pela pub cada vez mais pesada. Como ia dizendo, a sociedade não precisa, não precisa da banalização entorpecedora do consumo de drogas legais - que comumente são mais pesadas que algumas ilegais – promovida pelas grandes agências publicitárias. Sou categoricamente contra a liberdade concedida pela legislação que autoriza a divulgação de tais produtos – o que aconteceu em relação ao tabaco foi um acerto que deveria se estender aos outros produtos com substâncias alucinógenas. Da publicidade e suas pedagogias na relação com as drogas legais, eis a discussão que, para mim, deveria mais interessar nessa história toda.
Creio na idéia de que as sociedades necessitam de seus mistérios e ritualizações, instâncias nas quais as presenças do álcool e/ou de outros “avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência” são praticamente imprescindíveis. Sempre na manha e na festa, aí sim!, na criação de uma nação cevada...
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Novos links!
Ontem aproveitei a gripe que me tira de ação desde segunda para dar uma geral na seção de links que fica no canto esquerdo da tela deste blog. Corrigi os que tavam fora da rede, como eram os casos dos das bandas Nação Zumbi (a partir de hoje vai direto para o belíssimo site do último disco Fome de tudo) e da mundo livre s/a (agora cai no diário da banda que é atualizado pelo super Walter Areia, baixista do grupo), e do Manguebit que estava destivado e que foi trocado pelo novo Manguetronic - recauchutado em formato blog e atualizado pelo ministro da informação da cena de Recife Renato L (visitem!).
Mas novidade mesmo foi a inclusão de dois novos links: um para o site da musa Maria Rita Kehl , psicanalista de primeira que já escreveu para vários veículos de comunicação do país; e o outro para o Palestina do Espetáculo Triunfante, blog de pegada situacionista da sista Katarina Peixoto, autora da frase genial: "Deus nos dê fígado, pois temos o mundo inteiro pela frente..." (contida na faixa "E a Vida Se Fez de Louca" do O Outro Mundo de Manuela Rosário, quinto disco da mundo livre s/a).
Aproveitem, música e contra-informação nesse latifúndio de ninguém que é a web. E o melhor é o precinho: R$0,00!
