Um trailer do filme O Poeta do Castelo, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, sobre Manuel Bandeira - das poucas permissões líricas desse estranho dotô...
domingo, 6 de julho de 2008
O último poema - filme dominical
quarta-feira, 25 de junho de 2008
100 Trindade (eraOdito)
Em meio as comemorações do centenário de morte de Machado de Assis, passou em branco os 100 anos de nascimento do poeta Solano Trindade completados ontem. Não para o escritor Marcelino Freire, que no seu eraOdito (blog de primeiríssima!) lhe dedicou a homenagem que transcrevo abaixo.
Dois vivas para os dois!!
100 TRINDADE
Beirei-me à tarde lembrando dos cem anos, hoje, do poeta Solano Trindade. Nascido negro, em 1908, na cidade do Recife. E aí pensei em artistas assim: como o Pernalonga. Que morreu por falta de socorro. Explico: era ator marginal de Olinda. Portador do vírus da AIDS. Fazia campanha de prevenção e todo mundo sabia. Da sua alegria doente. Foi assaltado-esfaqueado, de repente. E mingüou em uma das ladeiras de Olinda. Sangrou sem ajuda. O povo não queria ser contaminado. Deixaram-no, feito cachorro, morrer. Mas por que estou rosnando isto? Em dia tão festim-festivo? Repito: centenário do Solano. E eu recordando alguns versos do pernambucano, gingados-recitados, outrora, pelo Pátio de São Pedro. Pelos meus amigos atores, como o Pernalonga. Por escritores teimosos de minha terra. E aí vem outra imagem: a do poeta Miró. Do bairro da Muribeca. Este, uma vez espancado porque estava sorrindo, sozinho, a caminho de casa. Por que este riso na cara? E a polícia caiu de pau. E Miró hoje tem uma poesia visceral. Cantada de dor. Rasgada. E tanta coisa chega à minha caixola. Morro da Providência. Sem providência. Esse meu coração abobalhado. Demagógico. Sei, sei. Ora, ora. Memorializo o tempo em que eu fazia teatro no bairro cariado de Água Fria. E da professora Ilza Cavalcanti que disse-me um dia: "você tem futuro". Quando eu escrevia coisa sem vida. Branca pele pálida. E aí vim para São Paulo. Desde 91. E sempre me indagam de onde vem este meu som inflamado. Esses meus contos-descasos. Descamisados parágrafos. E eu lembro do Solano. E do Bandeira, em outra beira. De beco. Tuberculoso. E eu sinto saudades e raiva. E aí eu penso em tanta gente por aqui. Dentro da cidade de São Paulo. Sérgio Vaz, por exemplo. E eu saúdo o Solano. No exibido ano do Machado. E eu deixo aí embaixo um poema do Trindade. E mais não deixo. Talvez um beijo e aquelabraço. Fui.
Gravata Colorida (S.T.)
Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...
sábado, 17 de novembro de 2007
Maurícia Vila Morena - notas dominicais XXVII

Há quanto tempo que não te vejo!
Não foi por querer, não pude.
Nesse ponto a vida me foi madrasta,
Recife.
Mas não houve dia em não te sentisse dentro de mim:
Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne,
Recife.
Não como és hoje,
Mas como eras na minha infância,
Quando as crianças brincavam no meio da rua
(Não havia ainda automóveis)
E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas
(Continuavas província, Recife)
Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas
Sem Arraes, e com arroz,
Muito arroz,
De água e sal,
Recife.
Um Recife ainda do tempo em que o meu avô materno
Alforriava espontaneamente
A moça preta Tomásia, sua escrava,
Que depois foi a nossa cozinheira
Até morrer,
Recife.
Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro?
Meu sonho era acabar morando e morrendo
Na velha casa do Monteiro.
Já que não pode ser,
Quero, na hora da morte, estar lúcido
Para mandar a ti o meu último pensamento,
Recife.
Ah Recife, Recife, non possidebis ossa mea!
Nem os ossos nem o busto.
Que me adianta um busto depois de eu morto?
Depois de morto não me interessará senão, se possível,
Um cantinho no céu,
"Se o não sonharam", como disse meu querido João de Deus,
Recife.
(Recife, poema de Manuel Bandeira)
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Ponto de Parada

Tio,
recebi seu livro ontem a noite. Do que vi e li (algumas crônicas, na verdade, já conhecia), o bom gosto me chamou a atenção. O prefácio, os agradecimentos (a criação sempre será um ato coletivo!), o poema do Bandeira (volta e meia penso nele em meu exílio carioca - o "gatilho" do retorno vive eternamente puxado), a introdução e, sobretudo, a orelha com aquela passagem da experiência de nossa condição familiar diaspórica: recepção, flexibilidade e tradição. Penso que essas três coisas bem misturadas resultam numa sabedoria antropológica indubitavelmente salutar - isto é o que se pode chamar de saúde cultural! (roubo a expresão de Caetano Veloso acerca de Jorge Ben)
Das crônicas que (re)passei o olho, o trecho de um parágrafo me comoveu enormemente:
"Existem dois tipos de heróis: existem aqueles que se tornam heróis porque praticam um ato dramático, trágico ou incisivo de heroísmo num momento particularmente intenso e, desse modo, se consagram e são consagrados, recebem as láureas da fama e as medalhas da glória; mas existem pessoas que diluem o seu heroísmo ao longo da sua vida, na rotina do dia a dia, na capacidade silenciosa para suportar o sofrimento e a renúncia, para impor a sua coragem e obstinação de um modo próprio, coerente. São o que eu chamaria de heróis da rotina. O seu 'defeito' é que possuem uma vocação para a grandiosidade que nem aparece direito, pois a modéstia e a humildade são, igualmente, características suas e impregnam de tal modo os seus atos mais importantes, que chegam a lhes dar a aparência das trivialidades. São pessoas que se parecem, em tudo, em quase tudo, com pessoas comuns (e na verdade são pessoas comuns), porém contêm a fímbria dos fortes, pertencem a uma estirpe superior."
(em "Adeus, suave Raquelzinha")
Qualquer comentário meu do que foi dito acima, tornaria sua interpretação de herói - já tão bem escrita - menor. Esta crônica me alimentou ainda mais o ânimo para a leitura.
Por fim, a capa. De antemão lhe confidencio que não gosto de definições identitárias - acho-as constantemente essencialistas e limitadoras. Mas quando me perguntam o que sou, brinco, tencionando com a verdade, que sou antes de tudo da zona norte de Recife - Encruzilhada, Arruda, Água Fria, o extinto e aqui reverenciado Ponto de Parada... Lembra que foi nesta região, bem perto da fábrica Irmãos Azoubel, que meu pai e sua irmã construíram casa? Vivi nela os meus primeiros dezeseis anos de vida. A fábrica era como se fosse uma extensão do nosso quintal nuclear, eu, meus irmãos e primos, passávamos lá diversas tardes durante a semana. Tanto texto que gasto aqui é para tentar lhe traduzir meu encanto ao ver a foto da capa com o chafariz "menino-mijão sentado no globo" que ficava no jardim da velha fábrica. O mais proustiano (ou seria José Lins?) dos abre-alas, meu tio!
Vou parar por aqui, pois a labuta me chama. Agradeço e parabenizo o senhor pelo trabalho feito com tanto carinho - esse sentimento está explicito em cada pedacinho de papel do livro. Muito me emocionou também ter recebido o envelope que guardava o danado e verificar a procedência ribeirão-pretana, quanto esmero...
Mais uma vez, gratíssimo.
