quinta-feira, 12 de julho de 2007

Política latino-americana e a mídia oligárquica

Para os que temem a atual conjuntura política latino-americana, creio que o momento deva ser, no mínimo, de desconfiança. Desconfiança com todos os lados, sobretudo com aquele lado que fabrica notícias no nosso país e que sempre representou os interesses da tacanha elite brasileira. Se você antipatiza com os rumos políticos que vêm sendo traçados na região e que têm na figura de Hugo Chávez a sua maior representação, troque o nome do presidente da Venezuela por qualquer outro no texto que transcrevo abaixo, só não deixe de prestar atenção no que está sendo dito. Lembre-se: o mundo não é uma mercadoria e a tal mão invisível jamais agarrará os dribles da história - muito menos nossos sonhos. O mundo não é tão óbvio como o que ela tenta nos impor. Graças a Deus...
Boa reflexão e, como já disse certa vez Jorge Du Peixe da Nação Zumbi, "pilote a sua cabeça!"

Decálogo para falar mal de Hugo Chávez
Por Emir Sader

Lembrete pendurado na frente de jornalistas da mídia oligárquica:

1. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele recupera o papel do Estado, desqualificado e enterrado por nós há tempos.

2. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele se diz anti-imperialista e esse é um tema proibido na mídia há tempos.

3. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele funda um novo partido, quando martelamos todos os dias que todos os partidos são iguais, que são negativos, que sempre refletem interesses de grupinhos.

4. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele recupera o papel da política, quando todo o trabalho cotidiano da mídia é para dizer que a política é irrecuperável, que só a economia vale a pena.

5. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele vende petróleo subsidiado aos países que não podem pagar o preço do mercado - inclusive a pobres dos Estados Unidos -, o que evidentemente fere as leis do mercado, pelo qual tanto zela a midia.

6. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele é um mau exemplo para os militares, que só devem intervir na política quando seja necessário um golpe militar e nunca para defender os interesses de cada nação.

7. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele ataca a mídia privada e fortalece a mídia pública. Porque ele acabou com o analfabetismo na Venezuela, tema sobre oqual devemos calar. Porque ele vai diminuir a jornada de trabalho em 2010 para 6 horas e esse tema é odiado pelos patrões.

8. Devo falar mal de Hugo Chávez porque assim me identifico com os interesses do dono do meio em que trabalho, garanto o emprego, fortaleço os partidos e as empresas aliadas do patrão.

9. Devo falar mal de Hugo Chávez porque ele faz com que se volte a falar do socialismo, depois que nos deu muito trabalho tratar de enterrar esse sistema, inimigo do capitalismo, a que estamos profundamente integrados.

10. Devo falar mal de Hugo Chávez (e de Evo Morales e de Lula e de todos os nao brancos), senão eles vão querer dirigir os países, os jornais, as televisões, as empresas, o mundo. Será o nosso fim.

(texto retirado do site Carta Maior)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Ao público


Antes de descer até vocês para arrancar seus dentes podres, suas orelhas purulentas, suas línguas cheias de feridas.
Antes de quebrar seus ossos pútridos,
Antes de abrir suas barrigas infestadas de cólera e retirá-las para usar como fertilizantes de seus fígados gordurosos, seus baços ignóbeis e seus rins diabéticos,
Antes de rasgar seus órgãos sexuais horrorosos, incontinentes e viscosos,
Antes de extinguir seu gosto pela beleza, pelo êxtase, pelo açúcar, pela filosofia, pela matemática, pelos pepinos,
Antes de desinfetá-los com vitríolo, limpá-los e surrá-los com paixão,
Antes de tudo isso,
Vamos tomar um grande banho anti-séptico,
E nós avisamos:
Somos assassinos.

(Comício dadaísta em Paris, fevereiro de 1920)

domingo, 8 de julho de 2007

Paredes do mundo - notas dominicais IX


"não acredito somente na eloquência das palavras, mas também na de certos atos; e tenho a sensação de que os comportamentos decentes, por mais que sejam anônimos e passem quase despercebidos, constroem as paredes do nosso mundo. Sem esses atos belos, atos justos, atos bons, a existência seria insurportável."

Trecho de A louca da casa, livro da escritora espanhola Rosa Montero

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Três foiçadas


"Tem dia que a noite é assim", ecoou ontem o sample popular na boca do meu compadre marinheiro. Mas hoje parece ser dia que a noite não tem fim: acordei com a Indesejada num movimento de três foiçadas.


Antes da leitura matinal do jornal, soube por telefone do falecimento do cineasta Sérgio Bernardes, pessoa que conheci na época em que a produtora Pólo de Imagem ainda funcionava no Poço da Panela, bairrinho do Recife. Conheci Sérgio muito rapidamente através de minha ex-mulher com quem trabalhava. Recordo-me de um aniversário de sua filha que fui na casa que lhe deu a guarita recifense e onde tive tratamento fino. Pareceu-me um homem de generosidade e bastante afetuoso.


Ao abrir o jornal, leio no obituário a morte de José Agrippino de Paula, o autor de Panamérica, obra basilar para o Tropicalismo. Este livro talvez tenha sido o primeiro romance a trazer a cultura pop para a literatura brasileira. Nunca o li, mas sempre me foi uma promessa, tendo em vista que ele é daqueles textos que permeiam o universo de todo sujeito que invereda pelos caminhos da discussão cultural no Brasil - ainda devo a leitura, assim como a d' O romance da Pedra do Reino do velho Suassuna. Não pude cumprir minha promessa com o escritor em vida, uma pena.


Por fim, já a postos para o trabalho na web, tomo conhecimento da partida do menino Rafa, flautista da Mombojó. Confidencio ter sido esta a perda mais sentida - e que fique claro aqui que a intensidade da dor em nada rima com valor. Escrevo estas mal-traçadas por relações afetivas e só - todos de alguma forma me faltarão. Não que eu fosse amigo do músico, com quem só troquei duas palavras no Garagem, espécie de CBGB do miserê. Afora sua pouquíssima idade (tinha 24 anos), quem ouviu comme il faut o Nada de novo, primeiro disco da banda, talvez tenha dimensão da lágrima que derramo. Quem ainda não o escutou clique aqui, baixe o álbum inteiro (salve o copyleft!) e vá direto para a faixa "Duas Cores", obra-prima em que Rafa tatua suas notas em nossos tortos e líricos corações. Que o destino o carregue para o reino da alegria, sempre.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

"Neolombrismos"

Depois de quase um ano reencontrei ontem a noite meu compadre, Guga, o homem do Atlântico e suas quebradas. Dois Domecqs e um mar de histórias a se abrir - como aquele que fez Moisés atravessar o povo judeu e cujo nome a minha cuca ruim nunca guardou no já gasto hd (Morto ou Vermelho?). Pena que nosso tempo era curto. Mesmo assim, contou-me rapidamente da vida e do mundo: Sardinha, cadelinha e novo amor que encontrou mamado numa farra no Carmo, Olanda - será afilhada de Xôla, a tabaca e seu duplo?!; a futura viagem dos pais para a Argentina; a regata grã-fina que irá correr no próximo final de semana em Ilhabela-SP; e até comentários acerca deste blog. Sobre o último assunto, perguntou se poderia me mandar uns textos para publicação, no que respondi de bate-pronto:
- Claro!
- Mas tem o seguinte, pontuou. - Todo texto que eu enviar e que tiver palavras grifadas é pra deixar como está! Não é erro de português, nem de digitação, nem porra nehuma!
- Sei, são neologismos...
- Não, são neolombrismos mesmos.

domingo, 1 de julho de 2007

Cem outonos - notas dominicais VIII



"Os antigos livros do hinduísmo determinam que no poente do dia do seu casamento, o casal deve sentar-se em silêncio até que as estrelas comecem a piscar no céu. Quando a estrela polar aparecer, o marido deve mostrá-la à mulher e, dirigindo-se à estrela, dizer: 'Firme és tu, vejo-te, a ti que és firme. Firme sejas tu comigo, ó florescente!' Em seguida, voltando-se para a mulher, deve dizer: 'Tu me foste dada por Brihaspati; tendo frutos por meu intermédio, viverás comigo cem outonos'. A intenção da cerimônia é, evidentemente, proteger-se contra a instabilidade da fortuna e da felicidade terrena graças à influência da estrela constante."

Passagem do livro O Ramo de Ouro de James Frazer, primeiro clássico da Antropologia.

Este postinho vai para o amigo Marcelo Luna que casou neste final de semana com Lu.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Eleição do Comitê Gestor da Internet no Brasil

Caros leitores,
publico abaixo um mail importante que recebi:

Olá pessoal!

Estamos precisando de ajuda nesse processo. A direita se articulando e nós não podemos deixar eles tomarem conta dessa questão, ainda mais com a lei do senador eduardo azeredo (psdb-mg) de controle da internet. Mando abaixo um texto que explica todo o processo.

A última novidade é que a Febraban ta financiando 80 entidades da sociedade civil e também para as vagas do setor empresarial. Se eles levarem essa eleição a discussão de controle da internet no Brasil ficará mais complexa para nós.

Espero que possam ajudar.
Everton

PRAZO PARA INSCRIÇÕES (de entidades) COLÉGIO ELEITORAL DO CGI.BR TERMINA DIA 3 DE JULHO

A Casa Civil homologou o calendário do processo eleitoral do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br ). Todos os representantes titulares atuais das entidades civis ("terceiro setor"), Gustavo Gindre, Marcelo Fernandes, Mário Teza e Carlos Afonso, são candidatos à reeleição -- eles acham que houve importantes conquistas desde 2003-2004 mas ainda há um trabalho importante a fazer para consolidar o CG como uma organização pluralista que siga garantindo os nomes de domínio brasileiros como um bem da comunidade e não uma mercadoria, e que o CGI.br permaneça como uma referência mundial de qualidade na governança da Internet.

Agora mesmo, depois de um processo prolongado, os representantes das entidades civis conseguiram que o CGI.br aprovasse critérios para projetos externos (apresentados por entidades civis, pesquisadores etc) que o CGI.br possa apoiar. Espera-se que ainda este ano seja publicado um primeiro edital de chamada de projetos. Mas há muito mais a fazer.

A Internet possibilita que muitos cidadãos possam ter acesso a informações, educação, cidadania, cultura e comunicação. A Internet é acessível ainda para uma minoria da população brasileira e ela não é livre nem neutra. Por isso é preciso que as entidades organizadas da sociedade acompanhem de perto as decisões relativas a Internet no Brasil e no mundo.

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) foi criado em 1995 para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados.

O CGI.br representa um modelo de governança na Internet pioneiro, com base nos princípios de transparência e democracia. Isso, na prática, significa que a sociedade possui vagas no conselho. São 21 membros, sendo 9 representantes do Governo Federal, 4 representantes do setor empresarial, 4 representantes do terceiro setor, 3 representantes da comunidade científica e tecnológica e 1 representante de notório saber em assuntos de Internet.

As entidades civis devem inscrever-se no Colégio Eleitoral do CGI.br. O prazo já esta curto -- até 3 de julho – para essa inscrição. Desta vez não será exigido um certificado digital para ingressar no Colégio Eleitoral, para estimular que um número bem maior de entidades participe. Na primeira eleição, pouco mais de 50 ONGs se inscreveram, o que é muito pouco.

Importante: não é preciso indicar candidatos. A indicação de candidatos tem um prazo muito maior e os membros do Colégio Eleitoral não precisam indicar candidatos -- basta, na data de eleição, votar nos candidatos de sua preferência, segundo as regras eleitorais.

A inscrição é muito fácil: basta entrar no endereço https://registro.br/eleicoes-cg/cadastro/ e preencher o formulário para cadastrar a entidade. O requisito para as ONGs que tenham pelo menos dois (2) anos de registro formal como sociedade civil sem fins de lucro continua valendo.

Se tiver dificuldade para se cadastrar acesse o site abaixo para ler passo-a-passo:

Também até o dia 3 de julho é preciso que seja enviado a seguinte
documentação:

I - Cópia simples do CNPJ da Entidade;
II - Cópia simples do estatuto de formação da Entidade; III - Cópias simples das alterações estatutárias ocorridas até a data da publicação deste Edital; IV - Cópias simples da última ata de assembléia de eleição e da posse da diretoria; V Procuração, se necessário for, designando o Representante Legal da Entidade para fins deste processo eleitoral; e VI - Cópia do CPF e da Identidade do Representante Legal.

Importante: Nesse momento o Senador Eduardo Azeredo apresentou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei anti-democrática de Controle da Internet no Brasil. A sociedade civil já se mobiliza exigindo debate e transparência no tema. Mais informações acesse:
http://www.safernet.org.br/petitioner/projeto_lei_azeredo/

Todas as informações sobre o processo eleitoral estão em http://www.cgi.br/eleicao2007/index.htm.

Mais detalhes sobre nossa campanha visite nossa página:
http://debatecomitegestor.softwarelivre.org

Inscreva-se já: https://registro.br/eleicoes-cg/cadastro/

Depois de cadastrar-se envie e-mail para Everton Rodrigues no email:
everton@softwarelivre.org

Saudações Livres,
Everton Rodrigues
Coordenação da Campanha para as vagas da Sociedade Civil ao CGiBr
ICQ: 342727323
Jabber: volverine@jabber.org
MSN: everton_volverine@hotmail.com
Skype: gnueverton

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Balanço junino



Em Pernambuco o remelexo do xote no São João foi assim:
A Secretaria de Defesa Social (SDS) divulgou ontem à tarde o balanço dos homicídios no São João. Das 18h da quinta-feira, às 6h de segunda-feira, foram contabilizados, oficialmente, 59 assassinatos no Estado.

Produção: Neoliberalismo & Barbárie

terça-feira, 26 de junho de 2007

Balanço semestral

É incrível, mas o primeiro semestre de 2007 já se foi e parece que o ano começou ontem. E começou com mais uma rodada no poder para o mesmo governo federal que, novamente, conta com minha cansada defesa frente aos deleites daqueles que não se entristecem com os desvãos da história - mas, confeso que meu cansaço aumenta a cada dia, tal como a inércia e as confusões da administração petista.

Entre os fatos e acontecimentos importantes ocorridos nestes 6 meses, me vem a cabeça no momento o caso bárbaro do menino João Hélio Fernandes aqui no Rio, os problemas com os operadores de vôos, a morte de Octavio Frias e agora o espancamento da doméstica Sirley Dias por jovens classe média na Barra da Tijuca sob alegação de que era prostituta(!) - se outras coisas relevantes me escapam, peço perdão pelo torto juízo. Deixando de lado a política e veredas maiores, na vida miúda o período foi de realizações, frustrações, dores, alegrias e de tantos outros pares antinômicos aos quais a existência teve direito (ou foi condenada). A falta de um canto com meus livros desencaixotados foi a agonia maior em meio a outras tristezas e felicidades substanciais. Eis um apanhado delas: defesa de tese, mesa de seminário (remunerado pela primeira vez!), carnaval no Rio, bolsa para orientar monografias num programa de educação à distância (a ôia!), as aulas na ong, Sport bi-campeão pernambucano, derrotas em São Januário e no Maracanã, aniversário no Cardosão, texto em revista, laptop, saudades de Recife, viagens (São Paulo, Araras, Ouro Preto), a entrega do velho apartamento, a falta do novo, a não resolução da documentação do carro vendido, Youtube, os shows do Lee Perry, da Nação Zumbi e do mundo livre, a falta dos exemplares definitivos da tese, Cartola - música para os olhos e Baixio das bestas, o artigo para um livro que não consigo fazer andar, São João na feira de São Cristóvão e, finalmente, o blog de onde sai esta prosa capenga. Ah!, e antes que ela e o semestre acabem, trago um último fato que foi a manchete de jornal com a qual me acordei hoje pela manhã:

Juiz nega a Cicarelli pedido de idenização do Youtube.

Com esta boa nova começo meu segundo semestre. Tá com pinta que será melhor...

domingo, 24 de junho de 2007

Irmão gêmeo - notas dominicais VII

"(o escritor) Mark Twain contou a um jornalista que tivera um irmão gêmeo, Bill, com quem se parecia tanto que ninguém podia distingui-los, a ponto de precisarem amarrar fitas coloridas nos pulsos dos dois para se saber quem era quem. Pois um dia os deixaram sozinhos na banheira e um deles se afogou. E como as fitas se haviam desamarrado, 'nunca se soube qual dos dois morrera, Bill ou eu', explicou Twain placidamente ao jornalista."

Ainda do livro A louca da casa, obra de Rosa Montero.