quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

No mesmo barco - mensagem de ano novo do blog


"Era um peixe pequeno, um peixinho, com o comprimento de meio dedo, com escamas prateadas e nadadeiras delicadas, branquiadas, espelhadas e trêmulas. Um olho de peixe redondo e arregalado ao máximo mirou os dois por um instante como se sugerisse a Maia e Mati que todos nós, todos os seres vivos sobre este planeta, pessoas e animais, aves, répteis, larvas e peixes, na realidade todos nós estamos bem próximos uns dos outros, apesar de todas as muitas diferenças entre nós: pois quase todos nós temos olhos para ver formas, movimentos e cores, e quase todos nós ouvimos vozes e ecos, ou pelo menos sentimos a passagem da luz e da escuridão através da nossa pele. E todos nós captamos e classificamos, sem parar, cheiros, gostos e sensações.
Isso e mais: todos nós sem exceção nos assustamos às vezes e até ficamos apavorados, e às vezes todos ficamos cansados, ou com fome, e cada um de nós gosta de certas coisas e detesta outras, que nos inspiram temor ou aversão. Além disso, todos nós sem exceção somos sensíveis ao extremo. E todos nós, pessoas répteis insetos e peixes, todos nós dormimos e acordamos e de novo dormimos e acordamos, todos nós nos empenhamos muito para que fique tudo bem para nós, não muito quente nem frio, todos nós sem exceção tentamos a maior parte do tempo nos preservar e nos guardar de tudo o que corta, morde e fura. Pois cada um de nós pode ser amassado com facilidade. E todos nós, pássaro e minhoca, gato menino e lobo, todos nós nos esforçamos a maior parte do tempo em tomar o máximo de cuidado possível contra a dor e o perigo, e apesar disso nós nos arriscamos muito sempre que saímos para correr atrás de comida, atrás de uma brincadeira e também atrás de aventuras emocionantes.
E assim, disse Maia depois de refletir sobre esse pensamento, e assim no fundo é possível dizer que todos nós sem exceção estamos no mesmo barco: não apenas todas as crianças, não apenas toda a aldeia, não apenas todas as pessoas, mas todos os seres vivos. Todos nós. E ainda não sei bem dizer se plantas são um pouco nossos parentes distantes.
Logo, disse Mati, quem debocha dos outros passageiros na realidade é um bobo que está no mesmo barco. E não existe aqui nenhum outro barco."

Amós Oz em De repente, nas profundezas do bosque - trecho que acabei de ler nesse instantinho... Um ótimo ano novo para todos!

domingo, 21 de dezembro de 2008

Aditivado - notas domênicas

"Urubu come carniça
E voa."
Miró, poeta do Recife (epígrafe roubada de Rasif, novo livro de contos de Marcelino Freire)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Primeiro parágrafo de estação

Como ocorreu no verão passado, escrever tem sido difícil na vila maurícia. Desta vez a tecnologia tem até ajudado com banda larga, boa máquina, tous que'il faut, como dizem os mais finos. Mas peço perdão pela ausência e confidencio. O problema talvez esteja no vento oceânico que invade o lar materno onde estou hospedado: décimo sexto andar no Rosarinho, um dos bairros portais para a zona norte da cidade - daqui enxerga-se o Atlântico, o porto e seus gigantes de ferro revezarem-se no cais. "Mas, como assim?" Perguntaria com toda legitimidade o leitor mais curioso e preciso. É que antes de alcançar o mar, minha vista atinge, em primeiro plano, o cruzamento da rua João de Barros com a avenida Norte. Uma encruzilhada que fez parte de minha infância, caminho do colégio, tanto quanto o estalar do galo de campina de meu pai e o jingle do programa "Manhã da Saudade" - para ficar apenas nas lembranças das primeiras horas do dia de minha pequena África da década de setenta. Mirá-la lambido por tal brisa, esmorece-me juízo e miocárdio. Eis a razão. A esta altura e comoção, falta-me um paraquedas em mi corazón (além da rima ruim, imaginar Wander Wildner como um precavido, era só o que me faltava!). Então suicido minha escrita. Ok, exagerei, peço-lhe clinche. Sou vencido pelas reminiscências de minha geografia sentimental. Mais uma vez, perdão. Entrego meus pontos ao vento-cruzamento, ao amor pelo Recife...



Volto quando me recompor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

À Fundação Bienal de São Paulo e ao Ministério Público do Estado de São Paulo

Repasso um abaixo assinado criado por um amigo:
No dia da abertura da 28ª Bienal de Artes de São Paulo, 40 pichadores entraram no Pavilhão e "atacaram" com seu design gráfico todo particular o segundo andar o prédio, o local que estava o chamado "vazio" proposto pela curadoria que consistia de paredes e pilastras brancas. Na ocasião, a pichadora Caroline Piveta Mota foi a única detida sob a alegação de depredar o patrimônio público. Acusada de se associar a "milicianos" para "destruir as dependências do prédio", a jovem continua presa.
O que nós, agentes culturais, estranhamos é que existe um paradoxo nesse caso, pois se trata de patrimônio público, mas também de uma mostra de arte contemporânea, local propício para esse tipo de manifestação desde o começo do século 20.
Como escreveu o professor e artista Artur Matuck: "As paredes foram pichadas e repintadas e a mostra não foi prejudicada. Independente da discussao estética, se a pichaçao é ou não arte, se se justifica ou não, a atuação deste grupo ao invadir o prédio da Bienal com um grupo de pichadores, foi também um ato expressivo, foi inequivocamente uma manifestaçao cultural. [...] Uma discussão ampla e bem informada sobre o fenômeno cultural da pichaçao é relevante desde que na medida em que não é validado enquanto expressao artistica pode ser considerado como vandalismo e justificar repressão".
Repressão essa que faz Caroline estar presa até hoje e ainda pegar uma pena de 3 anos.
Por isso pedimos: LIBERTEM A PICHADORA CAROLINE PIVETA DA MOTA!

Para assinar, clique aqui!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Questão de propaganda - notas dominicais

"É doloroso verificar que encontramos erros semelhantes em duas escolas opostas: a escola burguesa e a escola socialista. Moralizemos! Moralizemos! exclamam ambas com uma febre de missionários. Naturalmente, uma prega a moral burguesa e a outra a moral socialista. Desde então a arte não é mais do que uma questão de propaganda."
(Charles Baudelaire em Les drames et les romans honnêtes)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

É cumbia!


Volver a Recife...
Bom final de semana!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

E de que lado você samba?

Em minha atual odisséia livresca, hoje me deparei com esta que é das maiores questões do pensamento ocidental, senão a maior. Um verdadeiro Fla x Flu do juízo, que revela interpretações de vidas, que divide nossos combalidos espíritos nos binômios idealista/materialista, direita/esquerda, arte/cultura e tantos outros pares existenciais/conceituais. Tava lá no velho livro Teoria da Literatura do crítico Rene Wellek, na forma do problema estético:

"Em certo sentido, poder-se-ia dizer que o problema, no campo da estética, se situa entre a concepção que afirma a existência de uma 'experiência estética' isolada, irredutível (reino autônomo da arte), e a concepção das artes como instrumentos da ciência e da sociedade, que nega a existência de um tertium quid como 'valor estético'."

Para os simpatizantes da primeira concepção, da arte pela arte, trago um ótimo trecho que encontrei por esses dias do poeta francês Théophile Gautier (influenciou um tal de Baudelaire), que no seu romance Mademoiselle de Maupin escreveu:

"Não há verdadeiramente belo senão o que não pode servir para nada; tudo o que é útil é feio, porque é a expressão de qualquer necessidade, e as necessidades do homem são ignóbeis. - O local mais útil de uma casa, são as latrinas."

Aos devotos da segunda, ofereço a fina ironia de Terry Eagleton, botando a literatura na berlinda no seu Teoria da Literatura: uma introdução:

"A literatura foi, sob vários aspectos, um candidato bem adequado a essa empresa ideológica (a de substituir a religião na passagem da sociedade feudal para a moderna-capitalista). Como atividade liberal, 'humanizadora', podia proporcionar um antídoto poderoso ao excesso religioso e ao extremismo ideológico. Como a literatura, tal como a conhecemos, trata de valores humanos universais e não de trivialidades históricas como as guerras civis, a opressão das mulheres ou a exploração das classes camponesas inglesas, poderia servir para colocar numa perspectiva cósmica as pequenas exigências dos trabalhadores por condições decentes de vida ou por um maior controle de suas próprias vidas; com alguma sorte, poderia até mesmo levá-los a esquecer tais questões, numa contemplação elevada das verdades e das belezas eternas."


E então, de que lado você samba?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Convite


Lançamento do livro Leituras sobre música popular: reflexões sobre sonoridades e cultura no Rio nessa próxima sexta, dia 05/12. Todas as informações na imagem-convite (amplia clicando em cima). Apareçam!!!
(Ps.: Escrevi um dos artigos do livro. Quem não quiser comprá-lo, mas quiser ter acesso ao meu texto, ele tá disponível - com umas poucas modificações - na seção Outros textos estranhos, lado direito da tela deste blog.)

domingo, 30 de novembro de 2008

Calculadora - notas dominicais

"E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?"
Almeida Garrett (1799-1854), poeta e romancista português, em Viagens na Minha Terra.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

La Cosecha de Mujeres (cumbia for all) e o beijo roubado

Após a gravidade do post anterior, seguem 3 bilhetes de passeios pela web para aliviar nossas tristes almas. O primeiro, um caso publicado hoje na revista jurídica Última Instância sobre a absolvição de um sujeito que tentou roubar um beijo de uma passageira numa van (clique aqui). Los otros, para bailar...





Bom final de semana à tous...

Santa Catarina S.O.S. - Utilidade pública

Seguem abaixo os números de contas para doações às vítimas das enchentes.

Contas do Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ 04.426.883/0001-57:

Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
Besc - Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
Bradesco - Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1

São mais de 100 mortos e 60 mil desabrigados no lindíssimo estado barriga-verde. Ajude a divulgar ou deixe lá uma contribuição, se puder.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Não tem preço (notas de contentamento)


1 - Ver que o Som Barato voltou a rede!!!
2 - Também no ciberespaço visitar o site novo da mundo livre s/a.
3 - Saber que finalmente o livro Leituras sobre música popular (com um artigo deste anotador aqui - há um tempo disponível neste blog na seção "Outros textos estranhos", lado direito da tela) será lançado: dia 5 de dezembro, a partir das 19h na Livraria DaConde - R. Conde de Bernadotte, 26, loja 125 - Leblon, Rio de Janeiro.
4 - Informar que Carnaval no Inferno (pense num título!), disco novo do Eddie, está prontíssimo pra ser lançado no verão.
5 - Receber Fabinho Trummer (Eddie) em casa e ficar, até surgir a barra do dia, escutando som, jogando conversa e, claro, tomando uns birinaites...
6 - Abrir o blog e ler um comentário de Francisco Reginaldo no post anterior...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Pense num post!!!

Nós pernambucanos somos, de uma forma geral, materialistas. Não, não somos apegados as coisas materiais, mesquinhos, escrevo no sentido filosófico do adjetivo. A razão de tal característica talvez esteja na história, talvez se deva ao fato de termos sofrido muito diretamente as consequências da dissolução do primeiro dos ciclos econômicos nacionais, o do açúcar. Fomos (e ainda somos) educados pela pedra e pela miséria. Repetimos na vida o velho preceito marxista da infra-estrutura (economia, modos de produção) determinando a superestrutura (cultura, instituições etc.). Não luxamos com pantins ou quaisquer rebolados. Ficou difícil? Mesmo assim, acredite, faz sentido.
No entanto, nós pernambucanos (logo, materialistas) bradamos ao mundo a mais platônica, a mais idealista das expressões populares, quase que soletrada no verbo-interjeição "Peeense!!!". Pense num paradoxo! Nós, da pedagogia mineral e da fudição, diante de qualquer historieta, admiração ou assombro evocamos o velho Platão no mais metafísico dos suspiros: "Pense!!!". Ou ainda, conforme ilustrei três linhas atrás, colocamos o verbo no início da frase imperativa cujo complemento pode ser qualquer coisa, contanto que venha após a contração EM (preposição) + UM(A) (artigo): "Pense numa gramática!".
Seremos contraditórios? Respondo também com o velho Giba, Conde de Apipucos, estendendo ainda mais no plural a sua loa-lesa, sample da pergunta: Os mais contraditórios dos homens!


Ps.: "Pense!", eis a inscrição (sobre a foto da obra clássica "O pensador") do folder da exposição do escultor francês Auguste Rodin que esteve em cartaz no Recife no cabalístico ano de 2000. A mostra bateu recorde de público do MAMAM, com mais de 70.000 visitações. Pense num povo culto!

domingo, 23 de novembro de 2008

O que é (ainda) literatura? - notas dominicais

"Uma definição de literatura é sempre uma preferência (um preconceito) erigido em universal.(...)a literatura é uma inevitável petição de princípio. Literatura é literatura, aquilo que as autoridades (os professores, os editores) incluem na literatura. Seus limites, às vezes se alteram, lentamente, moderadamente, mas é impossível passar de sua extensão à sua compreensão, do cânone à essência. Não digamos, entretanto, que não progredimos, porque o prazer da caça, como lembrava Montaigne, não é a captura, é o caçador."
(Antoine Compagnon em O Demônio da Teoria)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O que é literatura?

Como diríamos nós pernambucanos: pense numa pergunta!!! Já que respondê-la não vou, conto, ao menos, como esse nó chegou até aqui. Aliás, faço mais, receito a própria obra de onde ela foi retirada como solução pro seu (im)possível desenlace.
A história teve início nesta semana, quando criei coragem e comecei a me preparar para mais um concurso a vaga de professor numa universidade pública. Mais uma vez, Letras. E de novo um programa de estudo que não me é muito favorável nem animador: teoria literária. Mas, como canso de escutar dos mais otimistas que toda experiência é válida e tals... Allez!!
Fui ontem na biblioteca da universidade, peguei uns livros e iniciei minhas primeiras leituras. Chaaaatas... Até que olhei pra minha estante e vi um dos títulos que a bibliografia do concurso indica: Teoria da Literatura: uma introdução, do crítico marxista Terry Eagleton. Pois bem, ao reler sua introdução (homônima a este post) me deparei com trechos que me amenizaram o enfado e a solidão de "candidato determinado em busca do objetivo". Passagens um tanto óbvias para conversas que tenho com certos amigos, é verdade, mas que continuam inteiramente válidas e que podem despertar um olhar crítico em alguns curiosos pelo tema. Compartilho-as abaixo (valem a leitura para os interessados em estética de uma forma geral!):

"Não existe uma obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si, a despeito do que se tenha dito, ou se venha a dizer, sobre isso. 'Valor' é um termo transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à luz de determinados objetivos. Assim, é possível que, ocorrendo uma transformação bastante profunda em nossa história, possamos no futuro produzir uma sociedade incapaz de atribuir qualquer valor a Shakespeare."

“a sugestão de que 'literatura' é um tipo de escrita altamente valorizada é esclarecedora. Contudo, ela tem uma consequência bastante devastadora. Significa que podemos abandonar, de uma vez por todas, a ilusão de que a categoria 'literatura' é 'objetiva', no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser literatura, e qualquer coisa que é considerada literatura, inalterável e inquestionavelmente – Shakespeare, por exemplo -, pode deixar de sê-lo. Qualquer idéia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera.(...)A literatura, no sentido de uma coleção de obras de valor real e inalterável, distinguida por certas propriedades comuns, não existe.”

Bom, repleta de parágrafos do mesmo nível, a introdução (que é bem curta) merece um drop completo (para os mais entusiasmados, aconselho o livro inteiro). Confidencio que teoria assim alivia o isolamento e até regojiza(!). Que Deus me alivie as "pedras" pela frente e... a labuta!!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Aos pós-graduados com interesse em docência universitária (Abaixo-Assinado ao MEC)

Este post é de interesse dos pós-graduados com currículos de formação interdisciplinar. Como tal configuração curricular tem impedido a inscrição de candidatos em concursos para docentes nas universidades públicas (essas instituições têm exigido um currículo "limpo", ou seja, graduação e pós na mesma área), uma amiga resolveu escrever uma carta com um abaixo-assinado para o MEC reivindicando uma maior flexibilidade disciplinar nos editais dos processos de seleção. Quem se interessar e quiser assinar bastar clicar aqui (deixarei a petição fixa no lado direito do blog). É isso!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

70 anos do Pássaro Preto

O Íbis, aquele que é considerado o pior time de futebol do mundo, está comemorando 70 anos de existência. Para homenagear a gloriosa data, o jornalista Gabriel Acetti (em parceria com os colegas Felipe Villar e João Ricardo Henriques) realizou como projeto de conclusão de curso o filme Exercício de sacrifício, no qual conta a história do Pássaro Preto. Dividido nas 3 partes que seguem abaixo, vale um confere e umas risadas!


(parte 1)


(parte 2)


(parte 3)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Feudalismo informacional

Bom, cá estou de volta ao lar de pixels após uma semana de viagem. Conforme tinha informado, fui participar do II Simpósio Nacional de Pesquisadores em Cibercultura, onde apresentei uma pesquisa inicial sobre crônica esportiva na web (texto disponível aqui), tema que venho pensando em desenvolver.
Na verdade, o lado mais teórico da cibercultura nunca foi alvo de grandes investimentos de minha parte. Trabalhei com coisas ligadas a esse universo, mas sempre me esquivei de adentrar em suas questões mais técnicas. Decidi ir ao simpósio justamente para iniciar um contato mais próximo com elas.
Pois bem, vi exposições bem interessantes na função. E entre elas destaco a de Sérgio Amadeu, professor da pós-graduação da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, intitulada Cibercultura, Commons e Feudalismo Informacional. Nela, o expositor mostrou como o controle do conhecimento e o bloqueio de seus fluxos, postos em prática pela política do copyright, têm nos conduzido a uma espécie "feudalismo informacional" - expressão que ele tomou emprestada de Peter Drahos, diretor do Centro para Governança do Conhecimento e Desenvolvimento da Australian National University.
A exposição ainda não foi publicada. No entanto, Amadeu me disponibilizou uma cópia. Só para se ter uma idéia do seu conteúdo, trago aqui um parágrafo de palhinha:

"Para um desavisado, a privatização completa da produção intelectual e o tratamento das idéias como se fossem bens materiais, sem limites para a apropriação privada, poderia soar como algo ultra­ eficiente e hipercapitalista. Drahos e Braithwaite demonstram que o resultado seria completamente adverso e seus efeitos podem ser muito próximos aos impactos econômico do feudalismo. Tal como as guildas que controlavam as atividades profissionais colocando interesses corporativos acima dos demais interesses, o controle privatizado do conhecimento somente feudalizará a economia informacional. Colocará em risco uma das principais fontes da criatividade, o conhecimento público e disponível para sua reutilização e recombinação pela coletividade. É relevante observar que '70% dos artigos científicos citados nas patentes biotecnológicas têm origem exclusivamente em instituições públicas comparado com 16,5% provenientes do setor privado'."(DRAHOS; BRAITHWAITE, 212)

Creio que em breve o autor disponibilizará sua apresentação em forma de artigo. Aguardem. É uma aula imperdível, garanto.


ps.: e já que o tema do post é sobre liberdade para geração de idéias, coloquei no lado direito do blog um link para a petição que rola pelo ciberespaço contra o projeto de lei do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Tal projeto visa bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral (mais info no Xô Censura!). Vão lá!

domingo, 16 de novembro de 2008

Câmera secreta de tortura - notas dominicais

"Ele jamais lhe falou dessa desventura, e até mesmo parou de pensar no assunto. Mas, de quando em vez, seus pensamentos vagantes se deparavam com essa lembrança, quieta, despercebida, despertavam-na e faziam com que ela revivesse, surgindo no seu consciente, causando-lhe uma dor cortante e profunda. Como se fosse uma dor física, a sensação não podia ser aliviada pela mente de Swann; mas, ao menos no caso de dor física, por ser independente da mente, esta pode sobre ela se deter, perceber que diminuiu, que, por um momento, parou. Mas, nesse caso, a mente, ao relembrar a dor, conseguiu recriá-la. Decidir não pensar na dor era o mesmo que nela pensar, por ela ainda sofrer. E quando, em conversa com os amigos, ele se esquecia da dor, de súbito, uma palavra dita casualmente provocava-lhe uma alteração de fisionomia, como um homem cujo membro ferido é tocado por mão canhestra. Quando deixou a companhia de Odette, ele estava feliz, sentia-se calmo, lembrava-se dos seus sorrisos, da troça sutil, quando falava de fulano ou beltrano, da ternura para consigo mesmo; lembrava-se da gravidade da cabeça dela, que parecia retirada do eixo para pender e rolar, como que voluntariamente, sobre os lábios dele, conforme ela fizera naquela primeira noite, na carruagem, os olhares lânguidos que ela lhe dirigira, enquanto estava em seus braços, apoiando a cabeça sobre o próprio ombro, como quem se encolhe de frio.
Mas, de repente, o ciúme, como se fosse a sombra do seu amor, apresentou-lhe o complemento, a familiaridade daquele novo sorriso com que ela o saudara naquela noite - e que, agora, de modo perverso, zombava de Swann e brilhava de amor por outro - da cena da cabeça pendida, agora afundando em outros lábios, todas as manifestações de afeto (agora dirigida a outro) que ela lhe demonstrara. E todas as lembranças voluptuosas que ele levou da casa dela, por assim dizer, tantos esboços, rascunhos como os que um decorador submete ao cliente, permitindo a Swann formar uma idéia das diversas atitudes, flamejantes ou lânguidas de paixão, que ela adotaria com outros. O resultado foi que ele passou a deplorar cada satisfação que desfrutava em sua companhia, cada nova carícia da qual ele cometera a imprudência de apontar-lhe o prazer, cada novo encanto que encontrava nela, pois sabia que, em algum momento mais tarde, tudo isso enriqueceria a coleção de instrumentos de sua câmera secreta de tortura."
(Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido)

domingo, 9 de novembro de 2008

Notas domênicas e poéticas


"Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé."
(p. leminski em O ex-estranho)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Semana Sampa

Aos ilustres visitantes desta bodega eletrônica:
vou ali na metrópole de São Paulo participar de um simpósio. Como não faço idéia de como será minha vida ciberespacial em solo bandeirante, provavelmente ficarei ausente poraqui no prazo de, pelo menos, uma semana. Espero voltar o mais rápido possível... até!

ps.: na seção Sonsestranhos deste blog tem um link novo e bacaníssimo para o Myspace do Estúdio Batuka (arte ao lado) do grande Berna Vieira. Confiram a faixa "Estacionada" (pérola antiga da extinta banda Variant TL) e depois digam. É primeira!

E salve Osam..ops! Obama!

domingo, 2 de novembro de 2008

Sabedoria maori - notas domênicas e antropológicas


"Dá tudo quanto recebes, tudo estará muito bem."
(Provérbio maori)

sábado, 1 de novembro de 2008

Ainda política

Em algum lugar profundo linka com o link do post anterior:

Ainda sobre ideologia

Reparo que entre os navegantes muitos acreditam no enterro da ideologia. É algo assim como acreditar que o homem deixou de pensar. A simples idéia de que a ideologia veio a falecer trai uma ideologia. Dá-se que inúmeros cidadãos, em boa ou má fé, entendem a palavra como sinônimo de comunismo, socialismo, marxismo, etc. Donde, ao ruir o muro de Berlim, assunto encerrado. De minha parte, sei que em países como o Brasil, ainda atados à Idade Média de vários pontos de vista, ainda a padecerem a falta de uma revolução burguesa, nem se diga popular, é indispensável posição clara e firme a favor dos desvalidos, da maioria abandonada ao seu destino. Ou seja, é necessária uma ideologia para sustentar um projeto de desenvolvimento em todas as direções. Como um País tão dotado como o Brasil merece, e não conseguiu até hoje por obra da mais triste, ignorante, vulgar e arrogante elite do mundo.


Salvo um certo materialismo histórico eurocêntrico ("países como o Brasil, ainda atados à Idade Média de vários pontos de vista, ainda a padecerem a falta de uma revolução burguesa"), tô com o Mino Carta...

Para os amigos eleitores cariocas

No blog Biscoito Fino e a Massa está a melhor análise que li sobre as eleições municipais do Rio. Boa leitura!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008



Para os que estão no Rio este final de semana, a pedida é esta: Menino-Aranha (cartaz acima), filme de Mariana Lacerda, nossa Baba, a Babuska, que está na programação do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2008. A fita mostra a trajetória de Tiago João da Silva, menino que escalava prédios no Recife para cometer pequenos furtos e que foi assassinado em dezembro de 2005. A produção recebeu o Prêmio Aquisição do Sesc TV de melhor diretor estreante. Eis a agenda:

Sexta-feira (dia 31), às 19h30, no Cine Odeon
Domingo (dia 02), às 12h30, no Caixa Cultural

Confiram!

E bom final de semana...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tour de force

Estava perto de completar 40 anos. De família classe média, sem influências, a vida não lhe foi muito generosa. Resistia com bicos ou subempregos. Agora andava desempregado e sem perspectivas - sequer ilusões. Um looser, segundo o jargão publicitário e anglo-saxônico corrente. A sua máxima de que "para viver basta memória e imaginação" não lhe aliviava mais o espírito. Muito menos os índices de exclusão da sociedade global. Passou a sentir que era gente somente quando desafiava - com o perdão da rima ruim - a moral vigente. Graças ao escárnio, ao ridículo ou ao risco da prisão. Como ainda lhe restava algum respeito, esperava a morte dos pais para mergulhar de vez em tais combates. Não tendo vícios, vingava a existência apenas nas canções que ouvia. E apesar de ser um personagem de ficção, suas semelhanças não são meras coincidências...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Colarzinho de Pedra Azul


Matinho, rezinha, mergulhadinhas, areinha, colarzinho, deitadinho... só no diminutivo, na maciota, conforme nos ensina a língua do povo (jeito de se expressar que é mais uma de nossas heranças africanas, segundo o tal Mestre de Apipucos). E são com esses substantivinhos e adjetivinhos que Juninho Barreto, desaguadeiro de minh'alma, compôs a mais bela canção dos últimos tempos. Ela está no single que foi lançado este último final de semana no SESC Pompéia, SP (folder da ilustração acima). Valham-me todos os santos, escutem, Colarzinho de Pedra Azul...

domingo, 26 de outubro de 2008

Descanso de futebol - notas dominicais (crônicas clássicas)

DESCANSO DE FUTEBOL

Eu devia ou pelo menos merecia estar aposentado. Mas a idéia sombria da invalidez, e não do ócio com vivacidade, orientou os criadores do instituto de aposentadoria.
Deu-se que um dia, há uns três anos, vislumbrei de súbito que uma aposentadoria especial estava ao alcance de minha mão. Foi uma coisa drástica mas lúcida: exonerei-me do futebol. Descobri num relance que eu somava trinta e cinco anos de futebol e podia muito bem fazer outra coisa nos fins de semana. Pensei: se em trinta e cinco anos ainda não vi o futebol, é porque não tenho olhos para vê-lo. Sim, já vi o futebol. Já vi, vivi e sofri e morri o futebol. Valeu muitíssimo a pena e o prazer, mas não tinha mais sentido me perder no tráfego de sábado e domingo a fim de presenciar do alto da arquibancada um espetáculo já visto e revisto.
Velhos irmãos de opa, sobretudo os de opa alvinegra, ficam irritados com esse meu raciocínio, que consideram um desvio do entendimento, e com essa retirada, na qual farejam uma apostasia. Pois vou aguentando as broncas todas, folheando ainda as páginas esportivas, participando do papo, assistindo a um ou outro vetê vadio, mas decidido a só comparecer ao estádio em caso de compulsão emotiva.
Já vi o futebol. Hoje prefiro e só me cabe rever as fitas da lembrança, onde se gravam os grandes lances do meu aturado exercício de espectador. Não me cansei do futebol, retirei-me dele, insisto, para preservar meu patrimônio de memórias, sem o desgaste da ansiedade de quem continua, em idade canônica, a esperar nas arquibancadas um milagre maior. Já testemunhei os milagres todos que podiam acontecer em campo. Vi nessa longa temporada lances magistrais que possivelmente não se repetirão nos dias de minha vida. Conheço bem a experiência calorosa de sentir-me uno e soldado à alma da multidão, como conheço o sentimento dramático e animador de estar em confronto com a maioria ululante.
Sei que as possibilidades de uma partida qualquer são infinitas; mas não quero disputar mais; não quero mais exercer o pileque dionisíaco da vitória e nem a ressaca autopunitiva da derrota. Na idade magoada em que me encontro, torcer como se deve torcer, com o desvario da alma toda, seria um despudor. Um instinto me aponta o caminho da contemplação futebolística, minhas chances de novidade e plenitude são mínimas.
O futebol já me viu. O futebol jogou-me como quis. O que colhi no campo dá perfeitamente para eu viver mais dez ou vinte anos. No meu celeiro de craques há vívidas memórias de Leônidas, Zezé Procópio, Romeu, Zizinho, Didi, Nilton Santos, Pelé, Sastre, Puskas, Nestor Rossi, e Garrincha, que pode não ser o maior, mas se singulariza por ter demonstrado que a mágica pode ganhar da lógica. Vi maviosos conjuntos, sinfonicamente arranjados, e vi o jam-session das improvisações talentosas. Vi craques nascentes como quem acha um novo amor ou dinheiro perdido. Vivi até onde pude minhas tardes olímpicas e minhas noites de dança ritual ao pé do fogo. Retiro-me com a sensação saciada de que cumpri o dever para com a tribo e não driblei o meu destino.
Meu destino era amar o futebol. Amei-o. Desde criança, quando espiava na lonjura da janela a bola que dançava no capim do clube aldeão. Até hoje não é o perfume da aubépine ou de qualquer outra planta altiva que me proustianiza; é o aroma rasteiro da grama que me espacia."

CAMPOS, Paulo Mendes. O gol é necessário: crônicas esportivas. Organização Flávio Pinheiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002, p. 71-74.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Abstêmio (da série "Pensamentos Avulsos" 6)

Estou há 15 dias sem ingerir 1 ml sequer de álcool. Para mim não é nenhum grande esforço ficar sem beber. O difícil mesmo é suportar o mundo sem anestesia...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pequena prece aos "sem pedigree"*


Escrevo hoje aos "sem pedrigree". Refiro-me aqueles soltos na vida, os que não se engancham na máquina-mundo por inviabilidade, chatice ou caráter. Os únicos a possuírem o mais legítimo dos desesperos (única posse, aliás): a própria existência.
E cá estou, engrossando o cordão da sina vira-lata. Estamos no furico da dor. E sem-chance. Nada trago de alento auto-ajuda ou literatices profundas e esnobes - entendo das indisposições para as facilidades ou chiliques tolos. Ofereço apenas três palavras como benção:

Somos sós e dignos.



*(Além dos homenageados do título, este post é especialmente dedicado ao compadre-marinheiro, Guga Peixoto, aniversariante na semana passada, que sempre ensinou: "quem precisa de pedrigree é o dono do cahorro, porque o cachorro mesmo não precisa não!")

domingo, 19 de outubro de 2008

Como se fora um coração postiço - notas dominicais (crônicas clássicas)

“Como se fora um coração postiço...”

Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém - diz um dr. Mereje - não foi o primeiro. Em São Paulo, há 7 anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço."

Como se fora um coração postiço... O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:

“...a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam...”

Madrugada paulistana. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas - vermelhos, amarelos, verdes - verdes, amarelos, vermelhos - borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá contempla lá embaixo umas pobres ár¬vores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada. Vamos andar pelas praças desertas, onde as estátuas molhadas cabeceiam de sono. Menino do coração fora do peito, os primeiros bondes estrondam. Vamos ouvir de perto esses barulhos da madrugada.

6 horas. O coração fora do peito bate docemente. 7 horas - o coração bate. .. 8 horas - que sol claro, que barulho na rua! - o coração bate...

9 horas - morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem morrer, menino. O dr. Mereje resmunga: "Filho de pais alcoólatras e sifilíticos..." Deixe falar o dr. Me¬reje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os "pais alcoólatras e sifilíticos" fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! - diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, "seu" paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: "o dr. Mereje disse que..." - mas não conta. Está rindo, mas está triste. Os anjinhos todos querem saber. Então o menino diz:

Ora, pinhões! Eu nasci com o coração fora do peito. Queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. Queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. Queria que ele vivesse â luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. Que batesse como uma rosa que o vento balança...

Os anjinhos todos do limbo perguntaram:

Mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

O anjinho respondeu:

Eu vi que não tinha jeito. Lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. Bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. O coração trabalha sem ninguém ver. Se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

Os anjinhos todos do limbo estavam com os olhos espantados. O paulistinha foi falando:

E às vezes, minha gente, tem paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne, e no fim disso tudo, lá no fundo do peito, no escuro, não tem nada, não tem coração nenhum. "E quando eu nasci, o dr. Mereje olhou meu coração livre, batendo, feito uma rosa que balança ao vento, e disse, sem saber o que dizia: "parece um coração postiço". Os homens todos, minha gente, são assim como o dr. Mereje.

Os anjinhos estavam cada vez mais espantados. Pouco depois começaram a brincar de bandido e mocinho de cinema, e aí, foi, acabou a história. Porém o menino estava aborrecido, foi dormir. Até agora, ele está dormindo. Deixa o anjinho dormir sono sossegado, dr. Mereje!

Rubem Braga

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Olhares estranhos (da série "Pensamentos Avulsos" 5)

Gerusa adora minha seriedade
Marta, a fanfarrice
Para Pedro sou radical
Já aos olhos de Cláudio, um Playboy
Ana diz que pareço não ter libido
Enquanto Andréa me vê como raparigueiro



Eu também vejo cada coisa!...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Revolução na Urca: Zizek!


Esqueci de divulgar nesta bodega eletrônica a conferência que o filósofo Slavoj Zizek proferiu ontem no campus da UFRJ na Urca (este é um blog cada dia menos sério...) . O Dr. E. foi lá e conferiu a verve retórica do esloveno (que, aliás, não é fraca, não!). A exposição ficou um tanto desamarrada, pois ele fala como um cavalo brabo que se solta no campo - é um intelectual "sujo", no melhor sentido rock'n'roll da palavra. Cuspirei, no mesmo estilo, alguns pontos que foram abordados:
- começou argumentando que se debruça sobre o cinema hollywoodiano pois é nele que a ideologia se apresenta de forma mais clara para o grande público. Exemplificou com dois filmes recente: Batman - O Cavaleiro das Trevas e o desenho animado Kung-Fu Panda;
- o comentário acima parece óbvio, mas serviu de ótima introdução para o principal tema de sua fala: ideologia;
- comentou sobre o filme Eles vivem (segundo ele, em matéria recente do caderno Mais!, uma das obras-primas esquecidas da esquerda de Hollywood), de Jonh Carpenter, no qual o protagonista ao usar um óculos estranho que encontrou passa a enxergar todas as mensagens reais da publicidade (tipo: "não pense, consuma!");
- discorreu sobre os estágios históricos da publicidade, classificando-os em três: 1) quando a mensagem dizia diretamente ao produto (ex.: esse é o carro mais econômico, mais forte etc.); 2) quando ela fazia o consumo do produto implicar em status (ex.: seu vizinho não tem um carro desse); 3) o atual, quando o produto lhe arranca deste mundo em ruínas (ex.: entre nesse carro e deixe pra trás todas as mazelas que lhe aflingem);
- criticou alguns modismos do mundo contemporâneo como o consumo de orgânicos e do espiritualismo oriental. Atacou também a nova campanha da rede Starbucks que concede 5% do dinheiro de um café aos pobres de algum país do terceiro mundo. Considerou tudo isso como formas de descarrego da culpa, mecanismos que aliviam as pessoas, não levando-as a realmente pensarem sobre o funcionamento do planeta (mais um modelo ideológico);
- condenou certos tipos de lutas minoritárias que, para ele, são muitas vezes falsos embates previstos (e estimulados) pela ideologia dominante;
- sobre a América Latina atual, chamou a atenção para um perigo populista em Hugo Chávez, ressaltando, no entanto, que gosta de sua luta;
- meteu o pau no clima dos fóruns sociais mundiais, classificando-os de eventos "carnavalizantes", no sentido do termo empregado pelo teórico russo Mikhail Bakhtin (que também foi alvo). Para ele o melhor seria que o carnaval não fosse o evento, e sim a normalidade da vida.
- desceu a lenha também no cineasta Emir Kusturica, a quem acusou de folclorizar os balcãs (usou o termo "balcanismo" em analogia ao "orientalismo" de Edward Said);
- Por fim, concluiu dizendo que segue acreditando, acredite, na revolução.

Bom, quem quiser conhecer mais sobre o Zizek, ele acaba de lançar um livro no Brasil chamado A visão em paralaxe (pela editora Boitempo) e escreve na seção "Autores" do citado Mais!, suplemento dominical do jornal Folha de São Paulo. Ah! encontrei também este vídeo no canal de televisão de todos, o Youtube (a tradução é em português de Portugal, única na língua que encontrei):

domingo, 12 de outubro de 2008

"Somos nós os Vassourinhas" - notas dominicais (2)

Matéria que saiu hoje no Jornal do Commércio de Recife:

Aposentada descansa em casa com a família

Terminou, ontem, às 9h, o martírio da aposentada Lídia do Bom Parto Simões (foto), de 87 anos, abandonada pelo neto num ônibus que saiu do Rio de Janeiro com destino a Feira de Santana, na Bahia. Depois de quase 15 dias de sofrimento, sem parentes ou documentos e com apenas R$ 10 no bolso, ela chegou à casa onde viverá a partir de agora, com o filho Antônio Ferreira da Silva, 63, no Amparo, em Olinda, município da Região Metropolitana do Recife.

Ainda confusa com os acontecimentos, parcialmente cega e surda, e com uma avançada perda de memória, dona Lídia só pensava em comer. “Estou com fome, muita fome. Cadê minha comida?”, indagava a todo instante, enquanto era cercada e paparicada pela família. Sentada num sofá e com uma boina nas cores do Santa Cruz Futebol Clube, a toda instante ela brincava ou fazia perguntas sobre o lugar onde estava. “É aqui que vou viver agora? Eu vou embora, aqui não é tão bonito como lá (Rio de Janeiro)”, dizia, dando risadas.

Momentos depois, dava sinais de lucidez. “Cadê Amaro? Você sabe dele? Ele tem vindo aqui?”, perguntava, numa referência ao mais novo dos dez filhos, Amaro Ferreira da Silva, 50 anos, que reside na Zona Norte do Recife. Também fez referência a possíveis maus tratos sofridos no Rio. “Eles jogavam água quente e depois água fria sobre mim. Me deram até injeção na boca”, contava. A família da aposentada era pura felicidade. “Agora eu tenho mãe. Ela não sai nunca mais de perto de mim. Onde eu for, ela vai comigo. Vou cuidar dela até o fim”, vibrava o pedreiro Antônio Ferreira da Silva.

Apesar da revolta, o pedreiro disse que iria esquecer o que houve, deixando claro que não tomaria providências contra os familiares que abandonaram a aposentada no ônibus, após vender a casa onde ela vivia na Zona Norte do Rio de Janeiro e sumir com o dinheiro. “Não vou entrar na justiça contra eles. Por mim, já perdoei e entrego a Deus e aos homens de bem para ver o que acontece. O que importa é ter achado minha mãe e estar com ela. Mas que nenhum deles se atreva a vir por aqui”, afirmou.

A única preocupação do pedreiro é descobrir o total das dívidas que os parentes do Rio de Janeiro fizeram em nome da mãe, já que estavam vivendo da aposentadoria que ela recebe. “Queremos regularizar a situação dela para que volte a ter seu próprio dinheirinho. Vamos usá-lo com ela. Pretendo, se der, fazer um quarto na minha casa só para ela. Por enquanto, vamos nos ajeitar como podemos”, disse.

Depois de comer um prato com feijão, arroz, farinha e cozido, dona Lídia pediu diversas vezes ao filho para levá-la à sede do Clube Vassourinhas, que fica próximo à casa onde agora irá viver. “Você me leva lá, leva?”, insistia a aposentada.

O triste fim do Deus Mercado - notas dominicais

"Dizem que as ideologias estão no cemitério. É como se ninguém tivesse direito às suas idéias. Claro que certas ideologias, derrotadas na sua prática, morreram de morte morrida. Não faltarão outras, novas em folha. Nas últimas décadas, e sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, a religião neo-liberal do Deus Mercado tripudiou sobre o passamento do socialismo real. Agora chegou a vez dela. Praticado sem freios, o fundamentalismo financeiro soçobra neste exato instante em meio a uma tormenta sem par. Transformaram o mundo em uma roleta a circular em torno do sol. Em um cassino do faraoeste, ao resguardo de qualquer regra. Que esperavam, que a farra durasse para sempre? Permitam uma filosofada. Acho que antes da ideologia vem a ética. É dela que decorrem a busca da igualdade e o reconhecimento de que a liberdade por si só não basta, e exige as indispensáveis limitações da lei. É a ética que não nos permite viver em paz em um mundo e em uma sociedade desiguais. Não há consciência ética em quem aceita a miséria do semelhante como fato corriqueiro, normal, natural. Este, diria Norberto Bobbio, não é de esquerda."
(Mino Carta de volta a blogosfera!)

sábado, 11 de outubro de 2008

Download neles, Presidente!!!

Notícia publicada hoje n'O Globo:

Presidente Lula diz que baixou três músicas na internet

RIO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta sexta-feira, em entrevista a portais da internet, que já baixou três músicas na web para presentear os governadores Cid Gomes (Ceará) e Jaques Wagner (Bahia). Lula contou que quase não acessa sites, apesar de achar a rede mundial de computadores um meio de comunicação revolucionário. O presidente comentou ainda a polêmica que envolveu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que limitou a propaganda dos candidatos na internet.

Lula revelou que baixou as canções "Viola Enluarada", de Paulo Sérgio e Marcos Valle, e "O Comedor de Gilete", de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, com a interpretação de Ary Toledo, para presentear o governador do Ceará, Cid Gomes. O presidente não lembrou o nome da terceira canção, segundo o G1, mas arriscou cantar alguns versos.

- A outra, que eu queria dar para o Jaques Wagner, eu não sei o nome do cantor, mas que homenageia a Bahia. A música diz assim: "sou da Bahia, comigo não tem horário, não sou otário e ninguém pode zombar. Sou cabra macho, sou baiano toda hora"

O presidente defendeu a liberdade de expressão na internet, mas com regras. Ele reconheceu que a facilidade em baixar músicas prejudica as gravadoras de CD e DVD.

- Não sei como os donos das produtoras vão sobreviver nesse mundo libertário que a internet possibilita às pessoas. Não sei se estão exigindo alguma regulamentação, mas em algum momento alguém vai começar a chiar em relação a isso. Outro dia estava pensando, a pessoa tira todas as músicas que ele quiser na internet e aí as pessoas ficam discutindo a pirataria, ou seja, a pessoa tira dentro de casa - afirmou.


Mais um viva ao nosso presidente!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Cabeça de alcachofra

“Tudo que existe neste mundo tem um propósito. Veja aquela pedra, por exemplo. Qualquer uma. Até essa pedrinha serve para alguma coisa. Não sei para quê. Se soubesse, saberia por que estou aqui. O Pai Eterno é que sabe tudo. Quando se nasce, quando se morre... Ninguém sabe. Não sei para que serve esta pedra, mas deve servir para algo. Pois se ela for inútil, então tudo é inútil. Até as estrelas, quem sabe? Até você serve para alguma coisa, com sua cabeça de alcachofra”.
(O Louco, em A Estrada da Vida, Federico Fellini, 1954)

Acabo de ler o trecho acima após cumprir as obrigações que me atormentavam. Tormentos de práxis. Desta vez, elas me herdaram uma insatisfação do tamanho do universo (o que mais herdaria um homem sem qualidades?!). As honestíssimas obrigações, estas perversas maquinistas que nos conduzem sobre o trilho tomado pela existência. Qual seria outro? (eis a igualmente inevitável pergunta-à-reboque) Piuí, piuí, o cabeça de alcachofra aqui segue em seu tortuoso périplo afim de encontrá-lo...

domingo, 5 de outubro de 2008

Complacência - notas dominicais


"Divertir-se significa estar de acordo."
(Theodor Adorno no clássico ensaio "A indústria cultural - o Iluminismo como mistificação das massas")

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O pai da Asa Branca

Ilustres amigos, pantaleões e visitadores(as),
os últimos dias andam dificultando minhas postagens neste latifúndio de pixels. É que ando as voltas com o novo trabalho e com um texto (para um simpósio) que preciso entregar até o dia 10 deste mês. Enquanto isso, indiferente aos meus dramas, rola solto aqui na Guanabara o Festival do Rio, com filmes inéditos espalhados pelas melhores casas do ramo desta cidade. Pra terem uma idéia, não fui assistir a uma película sequer!

Mas aproveito a siesta desta sexta pra divulgar o trabalho do amigo Lírio Ferreira que faz estréia hoje na função. Trata-se d'O Homem Que Engarrafava Nuvens, documentário sobre Humberto Teixeira (foto), o cabra-bom que, junto com o Rei do Baião, compôs "Asa Branca", maior hit sertanejo de todos os tempos.
Para quem interessar, eis as datas, os horários e, ainda, os locais onde o danado será projetado:

SEX (3/10) 20:00 Palácio 1
SAB (4/10) 11:00 Odeon Petrobras
DOM (5/10) 15:40 Est Vivo Gávea 3
DOM (5/10) 22:10 Est Vivo Gávea 3

Agora digam que não foram avisados?!

Prestigiem, criador e criatura entendem do riscado!

e bom final de semana a todos... Dr. E.

domingo, 28 de setembro de 2008

Tecelões do véu da mentira - notas dominicais

"A atitude do crítico da cultura lhe permite, graças à sua diferença em relação ao caos predominante, ultrapassá-lo teoricamente, embora com bastante frequência ele apenas recaia na desordem. Mas o crítico da cultura incorpora a diferença no aparato cultural que gostaria de suplantar, aparato que precisa, ele mesmo, dessa diferença para poder se apresentar como cultura. É próprio da pretensão da cultura à distinção, por meio da qual ela procura se dispensar da prova das condições materiais de vida, nunca se julgar distinta o suficiente. O exagero da presunção cultural, que por sua vez é imanente ao próprio movimento do espírito, aumenta a distância em relação a essas condições à medida que a dignidade da sublimação, confrontada com a possibilidade de satisfação material ou ameaça de aniquilação de incontáveis seres humanos, torna-se questionável. O crítico da cultura faz dessa pretensão aristocrática um privilégio seu, perdendo sua legitimação ao cooperar com a cultura como um flagelo honrado e bem-pago. Isso afeta, no entanto, o teor da crítica. Mesmo o implacável rigor com que esta enuncia a verdade sobre a consciência não-verdadeira permanece confinado na órbita do que é combatido, fixado em suas manifestações. Quem se proclama superior sente-se ao mesmo tempo como sendo do ramo. Se alguém estudasse a profissão de crítico na sociedade burguesa, que avançou finalmente até a posição de crítico cultural, encontraria certamente em sua origem um elemento usurpador, como aquele que Balzac, por exemplo, ainda podia observar. Os críticos profissionais eram, sobretudo, "informantes": orientavam sobre o mercado dos produtos espirituais. Alcançavam ocasionalmente com isso uma visão mais profunda da questão, permanecendo, contudo, sempre também como agentes do comércio, em consonância, se não com seus produtos individuais, com a esfera do comércio enquanto tal. Eles trazem as marcas disso, mesmo que tenham abandonado o papel de agente. Que lhes tenha sido confiado o papel de perito, e depois o de juiz, foi algo inevitável do ponto de vista econômico, embora acidental no que diz respeito a suas qualificações objetivas. A agilidade que lhes proporcionava posições privilegiadas no jogo da concorrência – privilegiadas porque o destino do que era julgado dependia em grande parte de seu voto - conferia aos seus julgamentos a ilusão de competência. Ocupando habilmente as lacunas e adquirindo, com a expansão da imprensa, uma maior influência, os críticos acabaram alcançando exatamente aquela autoridade que a sua profissão pretensamente já pressupunha. Sua arrogância provém do fato de que, nas formas da sociedade concorrencial, onde todo ser é meramente um ser para outro, até mesmo o próprio crítico passa a ser medido apenas segundo seu êxito no mercado, ou seja, na medida em que ele exerce a crítica. O conhecimento efetivo dos temas não era primordial, mas sempre um produto secundário, e quanto mais falta ao crítico esse conhecimento, tanto mais essa carência passa a ser cuidadosamente substituída pelo eruditismo e pelo conformismo. Quando os críticos finalmente não entendem mais nada do que julgam em sua arena, a da arte, e deixam-se rebaixar com prazer ao papel de propagandistas ou censores, consuma-se neles a antiga falta de caráter do ofício. As prerrogativas da informação e da posição permitem que eles expressem sua opinião como se fosse a própria objetividade. Mas ela é unicamente a objetividade do espírito dominante. Os críticos da cultura ajudam a tecer o véu."
(Theodor Adorno no ensaio "Crítica cultural e sociedade")

sábado, 27 de setembro de 2008

A queda do outro muro

Qual é então, em última análise, o impacto do naufrágio de Wall Street na globalização regida pelo mercado?

Stiglitz - O programa da globalização esteve estreitamente ligado aos fundamentalistas do mercado: a ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira. Nesta crise, observamos que as instituições mais baseadas no mercado da economia mais baseada no mercado vieram abaixo e correram a pedir a ajuda do Estado. Todo mundo dirá agora que este é o final do fundamentalismo de mercado. Neste sentido, a crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do Muro de Berlim foi para o comunismo: ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável. Em resumo, dizem todos, esse modelo não funciona. Este momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas.
A hipocrisia entre o modo pelo qual o Tesouro dos EUA, o FMI e o Banco Mundial manejaram a crise asiática de 1997 e o modo como procedem agora acentuou essa reação intelectual. Agora os asiáticos dizem: “Um momento, para nós, vocês disseram que deveríamos imitar o modelo dos Estados Unidos. Se tivéssemos seguido vosso exemplo, agora estaríamos nesta mesma desordem. Vocês, talvez, possam se permitir isso. Nós, não”.


Eis um trecho da entrevista que Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001, concedeu para o El País. Para ler na íntegra, clique aqui (uma tradução do querido colorado Falcão, não o velho meio-campista, mas o igualmente craque Marco Aurélio Weissheimer)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Conspiração filme

Gostam de teorias da conspiração? Mesmo que não, assistam Zeitgeist, the movie! Trata-se de um filme de 2007 produzido por Peter Joseph (pseudônimo de James Coyman) da NYS Division of State, que apresenta uma série de teorias de conspiração relacionadas ao Cristianismo, aos ataques de 11 de setembro e a Reserva Federal dos Estados Unidos da América. Incrível.
Para assisti-lo, basta clicar aqui. E me digam depois...

Em tempo: Zeitgeist significa “espírito da época” em alemão.

Em cima da hora: A Mombojó, ótima banda pioneira em disponibilizar seus discos gratuitamente na web, faz show hoje no Rio de Janeiro. Serviço: Teatro Rival, 21:30 hs, 30 realezas...


Bom final de semana a todos!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A pobreza não carece do olhar de Walter Salles

Closes de pessoas pobres. Do Pacaembu à igreja do reino de deus. Tudo embalado por uma melodia triste, conforme demandam as almas sensíveis do lado de cá. Eis a linha de passe que levará ao ápice, ao gol (só pra continuarmos no campo da simbologia ou das metáforas): "Ei, playboy, olha pra mim, porra!", conclama a grande cena. Olha, playboy, pois até o diretor, pra você ver, já olhou. Olhou e aprimorou o nosso olhar, dirão os chalaças do requinte. Olhou com a sabedoria e a sensibilidade de quem conhece na pele aquela realidade. Ok, esta última frase talvez tenha sido demais, admito e corrijo: conhecer na pele não, mas se sensibiliza e bastante com aquele universo retratado no filme, vá lá... Eis (mais um) nosso grande tradutor da pobreza. A compaixão dos grandes homens. Some-se a isso a competência - aí, é covardia, não há quem possa (e ninguém aqui falou em dinheiro!). Sabe muitíssimo do seu métier, não há dúvidas. Mas só isso não basta, pois conhece inclusive os ofícios e os desvãos dos personagens que filma. Na (vida) real, estes não (porque não podem, não querem e nem carecem), mas as almas sensíveis do lado de cá sempre anseiam pelo seu olhar para, só assim ou em caso de tragédia, se ligarem, como cordeiros da culpa, no mundo do lado de lá...

domingo, 21 de setembro de 2008

Mafia capitalism - notas dominicais

"É em empresas como a Lehman Brothers e a Merrill Lynch que reinam executivos, gerentes de contas e corretores tão ricos e poderosos que receberam o apelido coletivo de Mestres do Universo. Seus rendimentos – entre salários, comissões, bonificações e dividendos – são tão desproporcionais aos de qualquer outro ramo de atividade profissional que adquiriram uma espécie de propriedade mística, como a transubstanciação na Eucaristia: incorporam a distância que separa Wall Street da economia real e o capital produtivo do capital como abstração autogerativa, e são o mais próximo que o valor de qualquer trabalho já chegou da metafísica. Os Mestres do Universo são produtos rarefeitos da 'exuberância irracional' que dominou o mercado de capitais nestes últimos anos, na frase que já merece ser imortalizada como nome de banda de rap. Seu poder e sua riqueza deram a medida da irracionalidade.

Como não existem ateus nas trincheiras, não existem liberais ortodoxos para protestar quando o Estado interfere para salvar empresas combalidas. Basta, para ter direito ao socialismo que não diz seu nome, que a empresa seja tão grande que sua queda derrubaria mais do que convicções ideológicas. Ou seja, que a empresa tenha o poder de chantagem. Os americanos gostam de fazer pouco do que chamam de 'crony capitalism', ou capitalismo de compadres, de outros países em contraste com a pureza impessoal do seu mercado, mas, desde que salvou a Chrysler no governo Reagan porque ela simplesmente não podia falir, e através de outros governos firmemente antiintervencionistas, culminando com o socorro do Bush a bancos e financeiras na crise atual, o Estado vem cedendo a repetidas chantagens, no que só pode ser chamado de 'mafia capitalism'.

Não chore, portanto, pelos Mestres do Universo. Seja qual for o desfecho da crise, o capital financeiro continuará prevalecendo, e se auto-remunerando na mesma escala sideral – ou talvez com algum novo comedimento para não pegar mal. Outros gigantes financeiros estão ameaçados de ruir como a Lehman Brothers, mas nenhum dos seus executivos sairá sem uma boa compensação, sem contar com o que já acumularam nos anos de exuberância. E é difícil acreditar que o Estado deixe uma Goldman Sachs, que já deu colaboradores e idéias para tantos governos americanos, sem ajuda. Qualquer pedido que ela fizer será um pedido que o Estado não pode recusar."

(coluna de Luís Fernando Veríssimo de hoje nos grandes jornais do patropi)

sábado, 20 de setembro de 2008

Apenas mais uma batalha de uma guerra sem fim


Interessa aquilo que é próximo? És "Suda"? Entonces, dá uma olhada aqui - a melhor matéria que li sobre a Bolívia nestes tempos de nuevas ordens en latino america...

Da Marim pro Brasil



Fui ontem no show do Democráticos, Lapa de São Sebastião. Metaleira nos pés das oiças pro miocárdio ditar o ritmo: é frevo, meu bem!!! E ainda rola uns aboios, uns bregas e guarachas pra gastar o velho mocassim. Sensacional! Não deixem de ir onde for (clique na programação acima p/ ampliá-la), é bom pacas. Salve Maciel Salu, Hugo Gila e Tiné. Só por essa trindade qualquer preço de ingresso fica barato. Mas ainda tem os meninos dos sopros da Orquestra Henrique Dias... Viiixe, aí é pá arrombá!!!

domingo, 14 de setembro de 2008

A maior das tarefas - notas dominicais

"Somos grandes tolos. 'Ele leva a vida no ócio', dizemos; 'Hoje nada fiz'. Como assim, não viveste? Essa é não apenas a tua ocupação fundamental; é também a mais ilustre. 'Se estivesse em uma posição que me permitisse gerir grande feitos, eu teria mostrado o que sou capaz de fazer'. Conseguiste pensar e gerir a tua própria vida? Realizaste a maior das tarefas. Para demonstrar e explorar os próprios recursos, a Natureza não precisa de sorte; a Natureza mostra-se, igualmente, em todos os níveis e por trás de uma cortina, e também se mostra sem a cortina. Nosso dever é compor o nosso caráter; não é compor livros; não é vencer batalhas e províncias, mas conquistar a ordem e a tranquilidade em nossa conduta. Nossa grande e gloriosa obra-prima é viver adequadamente. Todo o restante, governar, poupar, construir, são, no máximo, pequenos acréscimos e acessórios."
(Michel de Montaigne)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Desmascarando as nações

Foi relançado recentemente aqui no patropi Comunidades imaginadas (foto), obra do professor sino-inglês da Universidade de Cornell Benedict Anderson. Um clássico dos estudos sobre nacionalismo e identidade que, nesta nova edição brasileira, ganhou uma apresentação luxuosa da antropóloga Lilia Moritz Scwarcz. Este talvez tenha sido o livro que mais citei em minha vida acadêmica sem nunca ter lido. No momento, reparo minha enganação e já na introdução do danado encontro a seguinte passagem:

"ela (a nação) é imaginada como uma comunidade porque, independentemente, da desigualdade e da exploração efetivas que possam existir dentro dela, a nação sempre é concebida como uma profunda camaradagem horizontal. No fundo, foi essa fraternidade que tornou possível, nestes dois últimos séculos, tantos milhões de pessoas tenham-se não tanto a matar, mas sobretudo a morrer por essas criações imaginárias limitadas."

Por acaso, alguém lembrou de Canudos, Caldeirão ou de qualquer outro movimento de resistência à centralizadora e patética formação do nosso Estado nacional? As nações são quase como obras de ficção, mas quaisquer semelhanças não são meras coincidências...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O fim do Barato... :˜(

Como um doente em fase terminal, a indústria fonográfica se debate em últimos suspiros. Infelizmente, sua inútil resistência implica em exterminar a alegria dos outros. O blog Som Barato foi sua vítima, acabou-se o que era doce. Para saber mais, clique aqui.

O Dr. E. lamenta profundamente o ocorrido e agradece os serviços prestados pela página extinta.

domingo, 7 de setembro de 2008

Palavras vasculares são apenas para homens de verdade - notas dominicais

"A sinceridade e o vigor do homem chegam até as sentenças por ele escritas. Desconheço livro que pareça menos escrito. É a linguagem da conversação transferida para um livro. Se cortarmos as palavras, elas sangram; são vasculares e vivas. A escrita produz a mesma satisfação que sentimos ao escutar o discurso de homens a respeito de seu trabalho, quando alguma circunstância incomum confere importância momentânea ao diálogo. Pois ferreiros e condutores não titubeiam na fala; é uma chuva de balas. São os homens de Cambridge que se prestam à autocorreção, voltando ao início de cada meia sentença; e, ademais, costumam fazer jogos de palavra e burilar a linguagem, e se desviam da questão, em favor da expressão."
(Emerson no ensaio "Montaigne; ou, o Cético")

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Circo dos combatentes do samba


Pra não passar a semana em branco, uma informação quase de última hora: para os que estão no Rio, amanhã (06/09) no Circo Voador, mundo livre s/a (foto), a outra melhor banda do planeta, apresentando o Combat Samba, último disco do quinteto. Mais infos aqui. Não percam!

Um último trago...

..."Amanhã eu vou embora
Vou por esse mundo afora"...
Leia bela homenagem ao "seu" Eurípedes aqui.





(Caetité, 13/05/1933 — Rio de Janeiro, 04/09/2008)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A melhor banda do mundo!!!


Embaixada não, Reino da alegria! Punk Reggae Parque em Santa Tresa, Rio, 31/08/08.

domingo, 31 de agosto de 2008

Filho dos outros - notas dominicais

"Que as pessoas possam perceber, naquilo que tomo emprestado, se eu soube escolher algo capaz de desenvolver meu tema. Pois faço terceiros dizerem o que não sei dizer tão bem, seja pela deficiência da minha linguagem, seja pela deficiência do meu entendimento. Não conto os empréstimos que tomo, eu os peso. E, se desejasse avaliá-los em função do número, teria acumulado o dobro. São todos, ou quase todos, tomados de figuras tão célebres e antigas que parecem se identificar o bastante, sem que eu precise fazê-lo. Nos pensamentos e criações que transplanto para o meu solo e aos meus mesclo, de quando em vez, propositadamente, não indico autor, a fim de deter a temeridade daquelas condenações prematuras que são disparadas contra todos os tipos de escritos produzidos por homens que ainda vivem, e escrevem na língua vulgar, que a todos convida a falar.(...)Preciso esconder a minha deficiência atrás dessas grandes autoridades. Aprecio qualquer um capaz de me superar, isto é, pela clareza do discernimento e pela distinção da força e beleza das observações. Pois eu que, por falta de memória, sempre deixo de percebê-las com base no conhecimento de suas fontes, posso muito bem perceber, ao avaliar a minha capacidade, que o meu solo não é, absolutamente, capaz de produzir as belas flores que por lá encontro semeadas, e que o frutos da minha própria lavra não podem a elas se comparar."
(Michel de Montaigne no ensaio "Sobre Livros")

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O Terror do Nordeste


Minha infância roubada, eis o sentimento. Fui criado no bairro do Arruda, o Santa Cruz está proustianamente em cada parágrafo de minhas memórias. O Mais Querido, o Terror do Nordeste, não merece a situação. Passará, assim como minha vida e a de todos. O Santinha jamais passará.


O silêncio do Terror (texto publicado hoje no Blog do Roberto*)

Hoje, o Recife é uma cidade em silêncio. O povo humilde nas ruas já não canta. A pobreza subitamente ficou mais triste. O Santa Cruz, antigo Terror do Nordeste, acordou quase na Série D do futebol brasileiro. O Mundão do Arruda com sua legião de fiéis está vazio.

Porque o Santa Cruz não é um clube de anéis de diamante. Carros importados. O Santa Cruz não nasceu em berço de ouro. O Santa Cruz é um clube feito de mangue e lágrimas. Mocambos e favelas. Longe dos palacetes de Rosa e Silva. Distante da fortuna da Abdias de Carvalho.

O Santa Cruz é a expressão mais perfeita de uma cidade feita de constrastes. Das pontes que cruzam o Capibaribe, holandesas. Das crianças que moram sob as pontes, africanas. Mas, se resta um consolo aos torcedores que guardaram suas surradas camisas tricolores na saudade. É a certeza de que a torcida tricolor não foi derrotada. Pois a paixão destes abnegados que só pensam no Santa Cruz com o coração permanece invicta.

Derrotados foram os dirigentes que durante décadas se aproveitaram do amor da torcida coral para se elegerem semideuses. Para serem heróis da mídia. Para multiplicarem seus haveres. Estes senhores não possuem a dignidade deste povo que hoje sofre em silêncio. Porque hoje o Recife é uma cidade em silêncio. A pobreza, subitamente, ficou mais triste...

*Roberto Vieira é escritor e blogueiro

Nada como um dia atrás do outro

Domingo, por volta das 16:00hs:
Cúmbia, Academia da Berlinda e Kakau Góis, rum e cigarrilhas cubanos, amigos e la pequeña a bailar...

Segunda, mesmo horário:
Biblioteca, Theodor Adorno e a Filosofia da Nova Música, Schoenberg e Stravinski, impaciência e ressaca.

domingo, 24 de agosto de 2008

Palco de loucos - notas dominicais

LEAR:
Viemos pra cá chorando, tu sabes,
A primeira vez que cheiramos o ar
Vagimos e choramos. Um sermão te farei.
Ouve

GLOSTER:
Que dia infeliz!

LEAR:
Ao nascer, choramos porque chegamos
Até este grande palco de loucos.

(Shakespeare em Rei Lear)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

República Guararapes


Ontem foi inaugurada a "Embaixada de Pernambuco" num casarão do bairro de Santa Teresa, Rio (já conhecia a locação, uma construção colonial incrível que vale a pena ir só pra conhecê-la!). Trata-se de um evento com shows, expos, oficinas etc., promovidos por artistas do velho Leão do Norte, entre eles: Eddie, Paulinho do Amparo, Xirumba, Lia de Itamaracá, Academia da Berlinda (foto) e mais uma pá de gente bacana. A função rolará até o dia 31 de agosto, apareçam lá! Programação e local aqui.

domingo, 17 de agosto de 2008

Parabólica das dores - notas dominicais

“Um sujeito sensível capta cinquenta impressões numa situação em que outro registra apenas sete. (....) Quanto mais sensível você é, maior a garantia de que sofrerá brutalidades, arranjará cicatrizes. Nunca evoluirá.”
Marlon Brando em entrevista a Truman Capote

sábado, 16 de agosto de 2008

Sobre o romance (da série "Pedagógicas"1)

No seu livro Cultura e Imperialismo (um genial desmonte dos cânones culturais ocidentais), o crítico palestino Edward Said escreve o seguinte comentário sobre o romance, o gênero literário:

"o romance, como artefato cultural da sociedade burguesa, e o imperialismo são inconcebíveis separadamente. Entre todas as principais formas literárias, o romance é a mais recente, seu surgimento é o mais datável, sua ocorrência, a mais ocidental, seu modelo normativo de autoridade social, o mais estruturado; o imperialismo e o romance se fortaleciam reciprocamente a um tal grau que é impossível, diria eu, ler sem estar ligando de alguma maneira um com o outro."

Ao longo do percurso da criação literária mundial foi ficando claro que nem todo romance é burguês e/ou imperialista. A loa saidiana é uma interpretação histórica do gênero (com a qual, diga-se de passagem, estou de acordo e sempre lembro dela quando o formato aparece como assunto). Não irei me aprofundar nesta discussão. O que gostaria aqui é de responder uma pergunta que toma como referência uma sentença do próprio trecho citado: se entre as principais formas literárias o aparecimento do romance é o mais datável, quando e como ele se dá? Pra tentar respondê-la, transcrevo uma passagem que li esta semana do livro Reflexões sobre a Arte do também crítico (só que brazuca) Alfredo Bosi:

"A epopéia, diz Lukács, é o gênero formado no mundo da comunidade (os 'tempos heróicos' ou 'poéticos' evocados por Vico na Scienza Nuova; desde que sobreveio a sociedade, perdidas as relações concretas e religiosas doos homens com a natureza, dá-se o que Max Weber chamou de 'desencantamento' do mundo: já não há lugar para aquela unidade existencial que tornou possíveis os mitos gregos, a Ilíada, as lendas medievais, o Cantar de mío Cid. As novas formas de sociabilidade apartam decisivamente os homens em classes econômicas e em grupos culturais e políticos; a vida pública tem um estatuto radicalmente diverso do da vida privada: o trajeto de cada ser humano é vivido como um caso singular, alheio ao destino dos seus semelhantes. E pra dizer esse processo de isolamento e angústia nasce um gênero novo, 'prosaico', dialeticamente herdeiro e negador da epopéia, o romance. Um divisor de águas insuperável é a antiepopéia de Miguel de Cervantes, a gesta inglória do Cavaleiro da Triste Figura, direito e avesso de um gênero em permanente revolução."

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Amor fati

Os anos passavam e o mesmo não ocorria com a sua loucura. O que fazia os diagnósticos aumentarem: "Viu fulano?, ficou doido depois de velho", dizia um. "Desde pequeno já era meio aluadinho", discordavam outros. A mãe, sempre ela, teimava que ele ainda tomaria jeito. Certo dia, de saco cheio, mas com a generosidade que lhe era peculiar, declarou: "Calma, meu povo, sou eu, o de sempre. Apesar das misérias e desenganos, meu destino é, e continua a ser, amar o mundo. E uma bucetinha de vez em quando".

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Lunes de mi corazón...

"...tento voltar para casa teimando contra rastros & útero, os pés de curupira desmentem o futuro e o passado, tudo é ficção, menos a primeira capa da cebola, a faca de mesa que chora & as unhas manchadas pelo branco da mentira."
Eis o trecho final de uma pequena maravilha lida ontem no banzo domênico e noturno (na íntegra aqui). Agarro-me aos versos "franciscanos" na coragem de retomar a vida, vingada em palavras assim ou num balanço gostosinho das guitarras paraenses (outra pérola do finde - esgarcem, é de grátis!).
Bonne semaine à tous, Dr.E.

domingo, 10 de agosto de 2008

Copyleft neles, Dr. Mário! - notas dominicais

"Copiei, sim, meu querido defensor. O que me espanta e acho sublime de bondade, é os maldizentes se esquecerem de tudo quanto sabem, restringindo a minha cópia a Koch-Grünberg, quando copiei todos. E até o sr., na cena da Boiúna. Confesso que copiei, copiei às vezes textualmente. Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndios, mas ainda, na Carta pras Icamiabas, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais, e devastei a tão preciosa quão solene língua dos colaboradores da Revista de Língua Portuguesa. Isso era inevitável pois que o meu... isto é, o herói de Koch-Grünberg, estava com pretensões a escrever um português de lei. O sr. poderá me contradizer afirmando que no estudo etnográfico do alemão, Macunaíma jamais teria pretensões a escrever um português de lei. Concordo, mas nem isso é invenção minha pois que é uma pretensão copiada de 99 por cento dos brasileiros! Dos brasileiros alfabetizados.
Enfim, sou obrigado a confessar duma vez por todas: eu copiei o Brasil, ao menos naquela parte em que me interessava satirizar o Brasil por meio dele mesmo. Mas nem a idéia de satirizar é minha pois já vem desde Gregório de Matos, puxa vida! Só me resta pois o acaso dos Cabrais, que por terem em provável acaso descoberto em provável primeiro lugar o Brasil, o Brasil pertence a Portugal. Meu nome está na capa de Macunaíma e ninguém o poderá tirar."

(Carta de Mário de Andrade ao escritor Raimundo Morais, respondendo a acusação de plágio)

sábado, 9 de agosto de 2008

Faxina na existência e o nosso velho samba exaltação

Há dias não escrevo por aqui. Uma série de razões me inviabilizaram, desde um texto para uma revista acadêmica as curtas férias em São Paulo. Em última instância, faço também uma faxina na vida - o que não tem sido fácil. Balanço geral e doloroso, daqueles que põe em xeque meu próprio ato de escrever (seca criativa, falta de manha?). Não se preocupem, não me alongarei com querelas umbilicais.
Bom, como a vida não desapeia e algumas leituras ainda não me deixam indiferente, compartilho o texto do José Geraldo Couto publicado hoje no caderno de esportes da Folha de São Paulo. Prosa sobre nosso nacionalismo, bastante em voga na atual maré olímpica. Coisa simples e direta, como costumam fazer os craques de verdade.

Acaso de migrações
Em tempos olímpicos, cabe indagar o que significam hoje termos como pátria e nacionalidade

"NENHUM BRASIL existe. E acaso existirão os brasileiros?" O verso que encerra o poema "Hino Nacional", de Carlos Drummond de Andrade, sempre me volta à memória em ocasiões como esta, de "exaltação da nacionalidade".
De dois em dois anos, graças às Olimpíadas e às Copas do Mundo, lembramos que somos brasileiros, que nossa bandeira é verde e amarela, que o nosso hino é o "Virundum" e que Galvão Bueno tem o dom da onipresença.
Mas a provocação de Drummond soa cada vez mais atual. O que é uma nacionalidade num mundo cada vez mais globalizado, no qual o poder do dinheiro desconhece fronteiras, línguas, culturas? O que vale mais: o distintivo de um país ou o logotipo de um grande patrocinador? Já faz tempo que a seleção brasileira de futebol, por exemplo, não é mais vista como o ápice onde almejam chegar os atletas, mas como mera vitrine para valorizar seu passe no exterior. Não é mais fim, é meio.
Nestes dias de Olimpíada, fiquei sabendo que uma dupla brasileira de vôlei de praia, Renato Gomes e Jorge Terceiro, vai disputar as medalhas pela Geórgia, ex-república soviética que eles mal conhecem e cuja língua, obviamente, não falam.
Voltando ao futebol, a revista "Placar" deste mês traz uma lista espantosa: a dos mais de 60 futebolistas brasileiros que defendem seleções de outros países.
Há jogadores brasileiros vestindo as camisas da Alemanha, do Qatar, de Hong Kong, da Macedônia, de Honduras, do Vietnã...
O fato é que a noção de nacionalidade se esgarçou muito nos tempos atuais, tornando cada vez mais vazio e retórico o discurso patriótico. O que é a "pátria", afinal? Para uns, é a bandeira, o hino, as glórias da história oficial. Para outros, a pátria é o McDonald's, a Microsoft ou a Daslu. Eu disse uma vez que a minha pátria é o futebol, mas isso é uma simplificação brutal. É, sim, o futebol, mas um certo futebol, aquele que eu cresci vendo e tentando praticar.
É também uma música, um humor, um sotaque. Alguns aromas e sabores. Uma afetividade. "A verdadeira pátria é a infância", disse Baudelaire. É o lugar -real ou imaginário- em que nos sentimos em casa.
Por isso, por mais que admire os feitos de atletas como Rodrigo Pessoa, os irmãos Grael e Robert Scheidt, não consigo vibrar com eles, porque a equitação e o iatismo não fazem parte da "minha pátria".
Não é porque eles ostentam o verde e o amarelo em algum lugar da indumentária que vou me sentir mais próximo deles, assim como não sinto afeto (positivo ou negativo) pelos mauricinhos brasileiros da F-1.
E já que abri esta coluna com Drummond, encerro com versos de outro Andrade, o Mário, que expressam o que não fui capaz de dizer: "Brasil amado não porque seja a minha pátria,/ pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der.../ Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,/ o gosto dos meus descansos,/ o balanço das minhas cantigas amores e danças./ Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/ porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir".

domingo, 3 de agosto de 2008

Eclesiastes III - notas dominicais


Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?
Tenho visto o trabalho penoso que Deus deu aos filhos dos homens para nele se exercitarem.
Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs na mente do homem a idéia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim.
Sei que não há coisa melhor para eles do que se regozijarem e fazerem o bem enquanto viverem;
e também que todo homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho é dom de Deus.
Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe pode acrescentar, e nada se lhe pode tirar; e isso Deus faz para que os homens temam diante dele:
O que é, já existiu; e o que há de ser, também já existiu; e Deus procura de novo o que já se passou.
Vi ainda debaixo do sol que no lugar da retidão estava a impiedade; e que no lugar da justiça estava a impiedade ainda.
Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio; porque há um tempo para todo propósito e para toda obra.
Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os brutos.
Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos brutos; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego; e o homem não tem vantagem sobre os brutos; porque tudo é vaidade.
Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão.
Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens vai para cima, e se o espírito dos brutos desce para a terra?
Pelo que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras; porque esse é o seu quinhão; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Strange Holidays

Província de Piratininga, final de tarde. Pode parecer absurdo, mas me dou férias em São Paulo. Fériazinhas também, uma semana. Só pra tomar ar pro novo semestre. Pois o primeiro já se foi, cheio de frustrações e um tantinho de alegria que ninguém é tão idiota assim (e salve, salve, meu rubro-negro da ilha do retiro, campeoníssimo da Copa do Brasil!). Que vá com Deus, é o caso de dizer. Dias melhores sempre virão, dou o loop no mantra auto-ajuda. E vamo simbora que a vida só termina quando acaba. Merça*, j'arrive!!!
ps.: Daqui sigo pra conhecer Paraty, a nova cidade mais culta do planeta. Esquema inteiramente off-Flip. Nem livro trouxe, gracias... Escrevo quando puder. Saudações, Dr. E.
* E justamente hoje, a Mercearia São Pedro, reduto das aima na Vila Madalena, completa 40 anos de existência. Pra comemorar a ocasião, será reeditada, conto a conto, a inimitável e inigualável "Antologia Bêbada -fábulas da Mercearia". A função já começou desde as 15:00hs. Tô umas cinco cervas atrasado e indo agora agora!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Voleio

Ela veio difícil de dominar. Ainda assim, matei-a na coxa e sem deixá-la cair, emendei de voleio. Saco! Tá lá, fundo do barbante.
Antes tivesse a mesma habilidade com a vida.

domingo, 27 de julho de 2008

Eclesiastes II - notas dominicais


Disse eu no meu coração: Ora vem, eu te provarei com alegria; portanto goza o prazer; mas eis que também isso era vaidade.
Ao riso disse: Está doido; e da alegria: De que serve esta?
Busquei no meu coração como estimular com vinho a minha carne (regendo porém o meu coração com sabedoria), e entregar-me à loucura, até ver o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu durante o número dos dias de sua vida.
Fiz para mim obras magníficas; edifiquei para mim casas; plantei para mim vinhas.
Fiz para mim hortas e jardins, e plantei neles árvores de toda a espécie de fruto.
Fiz para mim tanques de águas, para regar com eles o bosque em que reverdeciam as árvores.
Adquiri servos e servas, e tive servos nascidos em casa; também tive grandes possessões de gados e ovelhas, mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém.
E fui engrandecido, e aumentei mais do que todos os que houve antes de mim em Jerusalém; perseverou também comigo a minha sabedoria.
E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho.
E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol.
Então passei a contemplar a sabedoria, e a loucura e a estultícia. Pois que fará o homem que seguir ao rei? O mesmo que outros já fizeram.
Então vi eu que a sabedoria é mais excelente do que a estultícia, quanto a luz é mais excelente do que as trevas.
Os olhos do homem sábio estão na sua cabeça, mas o louco anda em trevas; então também entendi eu que o mesmo lhes sucede a ambos.
Assim eu disse no meu coração: Como acontece ao tolo, assim me sucederá a mim; por que então busquei eu mais a sabedoria? Então disse no meu coração que também isto era vaidade.
Porque nunca haverá mais lembrança do sábio do que do tolo; porquanto de tudo, nos dias futuros, total esquecimento haverá. E como morre o sábio, assim morre o tolo!
Por isso odiei esta vida, porque a obra que se faz debaixo do sol me era penosa; sim, tudo é vaidade e aflição de espírito.
Também eu odiei todo o meu trabalho, que realizei debaixo do sol, visto que eu havia de deixá-lo ao homem que viesse depois de mim.
E quem sabe se será sábio ou tolo? Todavia, se assenhoreará de todo o meu trabalho que realizei e em que me houve sabiamente debaixo do sol; também isto é vaidade.
Então eu me volvi e entreguei o meu coração ao desespero no tocante ao trabalho, o qual realizei debaixo do sol.
Porque há homem cujo trabalho é feito com sabedoria, conhecimento, e destreza; contudo deixará o seu trabalho como porção de quem nele não trabalhou; também isto é vaidade e grande mal.
Porque, que mais tem o homem de todo o seu trabalho, e da aflição do seu coração, em que ele anda trabalhando debaixo do sol?
Porque todos os seus dias são dores, e a sua ocupação é aflição; até de noite não descansa o seu coração; também isto é vaidade.
Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer com que sua alma goze do bem do seu trabalho. Também vi que isto vem da mão de Deus.
Pois quem pode comer, ou quem pode gozar melhor do que eu?
Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, para dá-lo ao que é bom perante Deus. Também isto é vaidade e aflição de espírito.