terça-feira, 31 de março de 2009

Coragem de carrão

Li ontem na Folha de São Paulo a crítica do Luiz Felipe Pondé sobre o Gran Torino, último filme do Clint Eastwood. Dela transcrevo a seguinte passagem:

"A cultura contemporânea é vítima da mania de ver a si mesma como agente do 'bem comum' e, neste movimento, acaba por repetir, a exaustão, a ideia de que o homem seja capaz de escapar do destino. Esta posição é presa de uma dedução falsa: (1) sou 'progressista' (otimismo social), logo, (2) tenho coragem. A lengalenga politicamente correta, que só agrada aos amantes de clichês (o 'outro' é bom, os gays são bons, mães solteiras são legais, a democracia é linda, o multiculturalismo é o Éden), estimula a covardia estética. Qual destino? Nas palavras do personagem que Eastwood interpreta em Gran Torino (um carro modelo 1972, grande objeto de desejo no enredo do filme que carrega seu nome): 'o mundo nunca foi justo'. Afirmações como estas normalmente são entendidas, pelos amantes dos 'clichês de presépio', como sendo contra a liberdade humana."

Deslocado do texto na íntegra, o trecho, que é bastante áspero, talvez necessite de algum esclarecimento. O alvo de Pondé é a esquerda cultural que tem como matriz geográfica os EUA com seu multiculturalismo quase doutrinário, chato, cheio de nota de rodapé e que arregimenta pessoas como gado. Dada a informação, também faço coro com o personagem do filme em sua óbvia máxima: o mundo nunca foi justo . Do mais abastado ao mais fodido dos homens, todos sabemos disso.

Para além deste truísmo (que, reitero, concordo), a passagem acima também induz que os preceitos do multiculturalismo ianque descamba no que o autor chama de "covardia estética". Nenhuma lorota. Porém, eis que o dilema cultural surge por trás da moita: e como o mundo considera a "liberdade humana" e a "coragem estética" dos que estão nos grotões esquecidos da civilização pós-industrial e livres (ou na luta por se livrar) do catecismo polido do tal multiculturalismo? (alguém já ouviu falar de folclore? e world music?)

A retórica dos que dão as cartas pode se arvorar inclusive de um ousado pessimismo no future. E a "coragem estética" parece sempre assentar melhor quando vem a bordo de um carrão estiloso...

2 comentários:

Anônimo disse...

excelente post.

Vanessa disse...

Por isso que me lambuzo de Almodóvar, Bergman, Wenders

=)